
2020/02/19 -
Mensagem do veterano
Carlos Alberto Valentão que no período de
1971 a 1973 serviu Portugal na Província Ultramarina da Guiné, em
Guidage, integrado na Companhia de Caçadores 19
Procuro pelo meu
camarada-de-armas Honório Santos, conhecido por "Canelas", que em igual
período serviu naquela subunidade de infantaria.
Presume que residia em Arraiolos na altura da mobilização.
No passado dia 16 Fevereiro [2020] contou parte da sua vivência na
Guerra do Ultramar, na revista "Domingo" do Correio da Manhã.
Contactos:
Telefone:
912 689 587 ou
e-mail:
barbaracord2010@hotmail.com
Transcrição do texto constante na revista "Domingo" do
jornal "Correio da manhã:
«“Disseram-me: Já não vamos ver as nossas velhotas”
Em 14 dias sofremos 48 ataques. Na Guiné vimos amigos
morrer ao nosso lado, camaradas destruídos para sempre.
Marta Martins Silva
16 de Fevereiro de 2020, às 13:00
Tinha 21 anos quando assentei praça na serra da
Carregueira. Volvido o tempo da recruta fui para o Porto tirar a
especialidade de radiotelegrafista. Passados esses meses da
especialidade fui para Évora e aí fui mobilizado para a Guiné. Parti no
dia 24 de novembro de 1971 e desembarquei no dia 29 de novembro. Guerra
é sempre guerra e não era fácil imaginarmos o que íamos encontrar.
Ainda por cima fui em rendição individual, para fazer parte da Companhia
de Caçadores 19. Quando cheguei a Bissau tirei um estágio de IAO, de
morse, e depois fui destacado para um sítio chamado Guidaje e aí começou
a tortura física e psicológica, não foi nada fácil. Era um sítio muito
turbulento, muito conflituoso, de muita pancada.
Nós estávamos à beira do Senegal e quando havia ataques do PAIGC éramos
nós que levávamos por tabela. Em maio de 1973, em apenas 14 dias tivemos
48 ataques. Houve camaradas que ficaram sem pernas, destruídos para o
resto da vida, vimos amigos a morrer ao nosso lado e nós sem culpa
nenhuma do que estava a acontecer.
Sangue e pólvora
Estive em Guidaje praticamente 22 meses. Ali passámos muita fome e houve
uma altura em que os ataques a Guidaje eram tantos que o senhor general
Spínola disse assim a todo o povo, habitantes da aldeia: avisem os
vossos irmãos que ou param de atacar Guidaje ou nós invadimos o Senegal.
Posso dizer que nessa altura tivemos mortos, capturados e muitos
feridos. No dia 19 de maio de 1973 tivemos 11 mortos, do batalhão
chefiado pelo então major Almeida Bruno e dois capturados. E a 23 de
maio, às quatro da manhã, havia dois cheiros no quartel: a sangue e a
pólvora. E o nosso quartel estava completamente destruído.
Um dia, dois rapazes meus amigos, um chamado Matos e o outro chamado
Janeiro, disseram-me assim: "Canelas, já não vamos ver as nossas
velhotas [as mães], vamos ficar aqui todos mortos. O que nós sofremos
naquele aquartelamento foi uma coisa completamente louca: nós não
tínhamos comida, nós não tínhamos munições, nós não tínhamos nada. Todos
nós pensávamos que íamos ficar lá, chegámos a estar 23 dias cercados em
cruz. Quando saímos dali fomos dados como doidos porque não sabíamos
sequer onde estávamos.
Um ano antes, a 24 de junho de 1972, saiu um pelotão para fazer um
reconhecimento, íamos buscar mantimentos e disseram-nos "o peixe pode
mergulhar", um código que significava que a coluna podia avançar.
Passados cinco minutos de eu ter estado a beber dois whiskys, às sete da
manhã, com o alferes Sérgio, ele levou um tiro no pescoço que o matou
logo. E depois quem teve de o lavar para ele ser metido num caixão fui
eu e outro rapaz. Foi muito doloroso mesmo, não dá para transmitir às
pessoas que nunca lá estiveram o que aquilo foi de sofrimento. Não veio
de lá nenhum em condições. Só a fé é que nos salvou, se não fosse a fé
não saíamos de lá vivos. No nosso quartel havia urnas vazias, preparadas
para avançar a qualquer momento. A maioria delas foi usada.
Partimos sem saber o que nos esperava e assumimos um papel que parecia
pertencer a Portugal. Hoje, volvidos muitos anos, a nossa visão mudou
muito. Mas continuamos a lutar pelos nossos direitos enquanto pessoas.
Precisamos que reconheçam o nosso esforço, exigimos humanidade. Queremos
que o poder político não se esqueça de nós, por isso afirmo: é justo
lutarmos pelos nossos direitos, seria injusto o não reconhecimento
porque o fizeram tantos milhares de homens em terras que não as suas.
Com bom senso estamos sempre disponíveis para dialogar, mas exigindo ao
poder político, não apenas ao atual, que respeite os seus deveres. Temos
direitos e exigimos respeito.»
