Comemoramos este ano o Dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades
Portuguesas numa cidade que, desde o século
XIII, assumiu um papel estratégico relevante
na defesa do território nacional.
O Castelo e as muralhas que
nos contemplam, tal como o bem preservado
património histórico, em que se integram as
antigas instalações do Exército aqui
existentes, são testemunho desse papel e
monumentos de reconhecimento e homenagem aos
militares, seus naturais, que tão relevantes
serviços têm prestado ao País.
Uma cidade cuja longa
história passa pela guerra da Restauração e,
mais tarde, pela primeira invasão francesa.
Nesta primeira invasão, e porque descurámos
na paz a preparação para a guerra, pereceram
mais de 200 mil portugueses. Quase a décima
parte da população do País.
Na ausência de uma direcção
política, foi do Povo que emergiu a
resistência, colocando a sua espada ao
serviço da Nação e dos seus altos valores.
Essa vontade patriótica permitiu gerar e
organizar uma força militar capaz de unir
esforços com os ingleses para libertar
Portugal do exército napoleónico.
Castelo Branco foi, então,
terra de homens que souberam resistir e
fizeram sentir o brado de alma contra a
ocupação e a violência.
Portugueses,
As comemorações do ano
passado integraram uma devida homenagem aos
veteranos de guerra. Foi um serviço prestado
à reconciliação nacional, que já tardava. Um
preito de justiça e reconhecimento para com
os antigos combatentes, que desfilaram pela
primeira vez na Cerimónia do Dia de
Portugal.
Foi um momento de grande
dignidade e de indisfarçável emoção. Foram
muitos os antigos combatentes e seus
familiares que me fizeram chegar essa sua
emoção e a alegria pela homenagem prestada.
Este ano, recordamos os
sacrifícios feitos, há meio século, pelos
soldados portugueses que perderam a vida ou
foram feitos prisioneiros na Índia e aqueles
que na guerra em África deram exemplo de
heroísmo e bravura.
As divergências na análise
dos fundamentos de qualquer conflito, que
sempre existem, não podem contundir com a
admiração que nos merece quem tudo arrisca
em prol da sua comunidade. Devemos o nosso
mais profundo respeito a todos os veteranos
que combateram com honra em nome de
Portugal.
Portugal não pode esquecer
aqueles que morreram em seu nome.
Reconhece-se no nosso
combatente em África a força e o carácter do
soldado português. Foi forte e guerreiro,
humano e solidário. Teve dúvidas e medos,
como todos os soldados. Alguns terão passado
limites, como acontece, tragicamente, em
todas as guerras. Mas foi um soldado de
excepção na disciplina, na camaradagem e no
patriotismo; no relacionamento com as
populações e na própria interacção com o
inimigo.
Não é um acaso a facilidade e
o respeito mútuo com que a cooperação
militar se faz com os países africanos de
língua oficial portuguesa.
Militares,
Associamos, uma vez mais, as
Forças Armadas às comemorações do Dia de
Portugal. Na actual conjuntura, não podíamos
deixar de dar um sinal de sobriedade e
contenção. Contudo, a importância da
Instituição e as minhas responsabilidades
como Comandante Supremo impõem que se
mantenham, com dignidade, as cerimónias
militares relevantes para o aprofundamento
dos laços entre as Forças Armadas e os
Portugueses.
No campo externo, a acção das
Forças Armadas no Afeganistão tem vindo a
ser enquadrada pela mudança da estratégia da
NATO, tendo em vista promover uma transição
gradual das responsabilidades de segurança e
de governo para as forças e autoridades
daquele país.
Daqui decorre a alteração, já
verificada, da participação portuguesa, e a
substituição das nossas unidades de combate
por equipas de assessoria e treino das
forças afegãs.
No Líbano e no Kosovo, a
situação tem-se mantido estável.
Já este ano, a força da NATO
no Kosovo promoveu uma redução de efectivos
em 50 por cento. Portugal manteve a sua
missão, embora tenha reduzido
significativamente o seu Batalhão, que
integra agora uma companhia do Exército
húngaro.
No Líbano, os nossos
militares garantem condições de protecção às
forças das Nações Unidas e trabalham em prol
do desenvolvimento das populações
martirizadas pela guerra.
Na Somália, apoiamos a
formação e treino das forças locais e
projectámos forças aero-navais para emprego
numa extensa área de operações, tendo em
vista a segurança da navegação e o combate
às acções de pirataria sobre os transportes
e as linhas de abastecimento marítimo.
As Forças Armadas Portuguesas
continuam, de resto, a ter um desempenho
exemplar no estrangeiro. A coragem, o
profissionalismo e a disciplina dos nossos
militares, materializados nos excelentes
resultados obtidos nos Teatros de Operações,
têm sido amplamente reconhecidos.
Internamente, para além do
seu compromisso de defesa de Portugal e dos
Portugueses, as Forças Armadas desempenham
um papel essencial na salvaguarda do
território e dos recursos do País, como é o
caso do apoio decisivo à extensão da
plataforma continental, e garantem a
vigilância e a segurança de todos quantos
cruzam as nossas zonas marítimas e o espaço
aéreo sob soberania ou jurisdição nacional.
Em terra, constituem-se,
também, como uma importante mais-valia,
disponibilizando recursos humanos e
capacidades únicas aquando da ocorrência de
catástrofes. Uma reserva nacional organizada
e flexível que permite apoiar as
organizações especificamente orientadas para
cada tipo de emergência, prestando, também
aqui, serviços de enorme relevância e
utilidade para a comunidade nacional.
As Forças Armadas são,
reconhecidamente, uma das instituições
nacionais em que os Portugueses mais
confiam.
São um repositório de valores
morais e patrióticos essenciais à
continuidade da afirmação da nossa
identidade.
Um pilar estruturante do
Estado de direito democrático que, embora
inserido na Administração Central do Estado,
tem características próprias, decorrentes da
sua natureza, missão, princípios e estrutura
hierárquica.
A coesão, a disciplina e a
observância da condição militar são as
traves mestras da existência das Forças
Armadas.
Portugueses,
A crise que vivemos é real,
séria, e ninguém o pode ignorar. A
Instituição Militar conhece e compreende a
gravidade da conjuntura que Portugal
atravessa.
A vida e o quotidiano das
Forças Armadas têm sido caracterizados pela
contenção nos gastos, através de uma gestão
criteriosa, responsável e exigente.
Assim terá de continuar a
ser. As Forças Armadas saberão encontrar os
caminhos que lhes permitam superar as
dificuldades, explorando as margens ainda
existentes para uma maior racionalização e
integração de serviços, a fim de que possam
manter a capacidade de resposta militar que
os Portugueses esperam e a sua missão exige.
Por isso, o contributo que
lhes é pedido deverá, sem situações de
privilégio, ser justo e equilibrado,
envolvendo decisões bem estudadas e
ponderadas que, no respeito pela
especificidade que lhes é própria, as não
descaracterize, e contribuam para uma
desejável estabilidade, indispensável ao seu
bom desempenho e normal funcionamento.
Militares,
É obrigação do Estado apoiar
e dedicar uma atenção permanente às suas
Forças Armadas, assegurando as condições que
viabilizem a realização das suas actividades
essenciais, ainda que num quadro de grande
rigor e contenção orçamental.
A diminuição da capacidade de
produzir segurança pode acarretar riscos não
desprezáveis para o desenvolvimento e para o
bem-estar nacional.
Apostar numas Forças Armadas
equilibradas, coerentes e operacionais não é
um desperdício de recursos, é um
investimento de futuro, uma garantia de
liberdade e de independência e a
possibilidade de afirmação de uma vontade
política própria, num Mundo que precisa do
exemplo dos nossos melhores valores.
A todos vós, Militares, a
minha saudação e o meu agradecimento.
Muito obrigado.

Imagem extraída do jornal "O
Combatente da Estrela", n.º 88 Abr a
Jun 2011, do Núcleo da Covilhã da Liga dos
Combatentes