
Informações de um veterano
11.º
Encontro Nacional de Combatentes
Lisboa, 10 de Junho de 2004
Alocução proferida pelo convidado
– «Neste dia 10 de
Junho, dia de Camões, dia de Portugal e dos portugueses,
reunimo-nos aqui, como fazemos ano a ano, para celebrar
em conjunto este orgulho difícil que partilhamos de ser
antigos combatentes. Mais do que isso: reunimo-nos aqui
para, de uma outra forma, continuarmos uma nova missão.
E essa é a de transmitir a mensagem de exemplo de que
com enorme honra somos portadores.
Não tenham dúvidas,
que a lição da História é clara: Portugal existe porque
ao longo das gerações houve sempre portugueses que
fizeram o que nós fizemos na nossa: disseram presente. E
assim há-de continuar a ser.
Na nossa juventude,
cada vez mais distante, Portugal foi-nos chamar onde
cada um de nós estava – aos campos, aos escritórios, às
fábricas, às escolas. Pediu-nos que interrompêssemos os
nossos sonhos, largássemos as nossas famílias e os
nossos amigos, adiássemos casamentos, abandonássemos o
mundo em que tínhamos nascido e crescido. Portugal
pediu-nos tudo o que podíamos dar.
Aprendemos então a
combater. Estivemos em terras que antes nem sabíamos que
existiam, locais remotos onde provavelmente nunca mais
voltaremos. Fomos combatentes. Em condições tão difíceis
e tão diferentes de tudo o que conhecíamos,
experimentámos a guerra, sofremos como se sofre na
guerra, fizemos sacrifícios insuportáveis, testemunhámos
coisas que ainda custa a pensar nelas. E ao fim destes
anos todos, a verdade é que não conseguimos esquecer
nada.
Alguns de nós não
voltaram. Têm hoje o seu nome gravado para a eternidade
nesta pedra austera à nossa frente. As futuras gerações,
para quem tudo isto será apenas história, escrita em
manuais e ocupando meia dúzia de páginas, poderão ler
aqui, um a um, todos estes nomes. E os nomes obrigarão a
encarar de frente a verdade que o distanciamento às
vezes faz esquecer: é que estas eram pessoas reais,
pessoas verdadeiras que morreram a combater ao serviço
da Pátria, e não apenas estatísticas, números ou
percentagens. Perante o silêncio dos nomes escritos na
pedra talvez as futuras gerações tenham então um
vislumbre de tudo aquilo que nós hoje compreendemos tão
bem e sentimos tão forte.
Mas dos que voltaram,
todos voltámos diferentes. A vida, a nossa e a dos
outros, ganhou uma dimensão nova e pensámos em coisas
que quem nunca lá esteve se calhar não consegue pensar.
Ficámos a conhecermo-nos melhor a nós próprios. Passámos
a dar valor a coisas que antes nem pensávamos nelas.
Estávamos mais preparados para reduzir à sua verdadeira
dimensão as futilidades de que muitas vezes a vida do
dia a dia é feita. Partimos jovens e regressámos
adultos.
Depois do regresso,
julgámos que podíamos retomar a vida onde a tínhamos
deixado, como se nada fosse, encarcerando as memórias de
tudo o que tinha ficado para trás, talvez com a
esperança de nos convencermos de que afinal nada se
tinha passado, a não ser o tempo. Mas não foi assim.
Todos nós afinal acabamos por compreender que quando se
é antigo combatente, é-se antigo combatente para toda a
vida.
Hoje, num mundo que
já começa a ser dos nossos netos, pensamos em tudo isto.
E sobretudo neste dia, em que nos juntamos como se
juntam os velhos camaradas de armas. E no entanto
trazemos ainda na boca um sabor amargo que teima em
persistir tantos anos passados. Uma ferida que arde
desde o início e que demora a sarar. Quando fomos
combatentes sentíamos que não convinha que se soubesse
que combatíamos, porque era então necessário
desvalorizar perante uma opinião pública manietada o
esforço de guerra e o sacrifício que uma geração inteira
estava a fazer. Era importante que tudo parecesse
normal, que a guerra fosse vista só de longe e
vagamente, que só fosse falada quando conviesse, uma
guerra que não fosse verdadeiramente uma guerra, mas
quase que apenas uma rotina vulgar que pudesse durar o
tempo que fosse necessário e sempre da mesma maneira. Em
África, nada de novo.
Quando regressámos,
espantámo-nos com a indiferença. Para os outros não
éramos verdadeiramente antigos combatentes, nem
veteranos de guerra. Ninguém estava preparado para nos
reconhecer esse estatuto que aliás parecia não ter
significado. A guerra não existia ou então existia de
uma forma tão difusa que podia ser ignorada. Para quase
todos, quando regressávamos, regressávamos simplesmente
do cumprimento do serviço militar, como era de tradição.
Longe, é certo. Singularmente longe. Mas a verdade é que
o serviço militar nunca tinha sido uma coisa cómoda. Não
éramos antigos combatentes. Tínhamos simplesmente feito
a tropa lá fora. A sociedade olhava-nos um pouco de
soslaio, não compreendia quase nada do que tínhamos
passado e não estava por isso disposta a valorizar um
esforço que verdadeiramente a todos convinha que se
mantivesse alheia. A própria sociedade pressentia que o
reconhecimento desse esforço lhe seria incómodo, quanto
mais não fosse porque não a deixariam questioná-lo.
Fechámo-nos por isso
sobre nós mesmos, tentámos jogar o mesmo jogo da
indiferença a que nos compeliam e que até certo ponto
nos exigiam. Jogo que apenas interrompíamos quando nos
encontrávamos em almoços de camaradagem, quando nos
abríamos à nossa família mais chegada, ou para nós
próprios no silêncio das noites em que nos custava mais
a adormecer.
Depois, quando veio a
política em liberdade, o problema já não era
desvalorizar a guerra para que pudesse perdurar, mas
desvalorizar a guerra para sublinhar o erro da sua razão
de ser. O antigo combatente continuou a não ser
reconhecido tal como as sociedades devem reconhecer
todos os que as servem militarmente em tempo de guerra.
Houve momentos em que era quase vergonha ser antigo
combatente.
Foi doloroso ver o
antigo combatente muitas vezes apresentado simplesmente
como uma vítima obtusa de erros alheios, ou então, pior
ainda, como um suspeito que era necessário reabilitar de
ideias imperiais e retrógradas. Um antigo combatente a
quem, de uma maneira ou de outra, vedavam o orgulho no
serviço que tinha prestado à sua Pátria.
E no entanto nós não
somos nada disso nem queremos ser nada disso. Todos
temos certamente as nossas opções, as nossas convicções,
as nossas visões do mundo, provavelmente tão díspares
como são díspares as opiniões em qualquer grupo humano.
Não podemos por isso ser um mero grupo de pressão, nem é
possível confundirem-nos com uma simples associação de
defesa de interesses. Não fomos combatentes para isso
nem por causa disso e isso seria muito pouco para a
dimensão do sacrifício que nos dispusemos a fazer e para
as memórias de guerra que hoje transportamos. Não
queremos que nos reduzam a um problema social. Não
queremos nem merecemos que nos olhem como vítimas. Nós
não somos os sem-abrigo de uma sociedade nova que já não
tem lugar para acomodar velhas reminiscências de coisas
que já não dizem nada a ninguém. Nós somos simplesmente
e orgulhosamente antigos combatentes, que fizeram na sua
época aquilo que ao longo de quase nove séculos, de
geração em geração, os melhores portugueses fizeram para
garantir a todos nós coisas tão simples, mas tão
essenciais, como estar hoje em Portugal a falar-vos em
português.
Ao longo de todos
esses séculos podemos questionar quais foram as guerras
justas ou injustas, quais foram as guerras úteis ou
inúteis, quais as que se justificavam e quais as que
não, quais as que deveriam ser evitadas porque não eram
a resposta certa para os problemas que pretendiam
resolver. Este julgamento, passado o tempo da política,
fá-lo sempre a História. Sobre a guerra em África há
muito que já fiz o meu próprio. Mas hoje em dia Portugal
é Portugal porque, apesar dos erros e dos acertos,
apesar dos enganos e das verdades, apesar das certezas e
dos arrependimentos, apesar de tudo, nunca os
portugueses regatearam o sacrifício de combaterem quando
o apelo é feito em nome da Pátria.
Nós, antigos
combatentes, somos actualmente os depositários dessa
tradição sagrada, desse valor imenso e precioso que
Portugal tem de preservar. Somos, desse ponto de vista,
relevantes. Se a sociedade portuguesa nos desvalorizar e
desvalorizar o esforço que só quem lá esteve sabe que
fez, não comete apenas uma ofensa violenta relativamente
a milhares e milhares de concidadãos. O erro será muito
maior. Contribuirá dessa forma para debilitar um dos
pilares essenciais em que assenta a sua própria
existência, que é a preservação do espírito de defesa
colectivo. Quem no futuro estará disposto a combater se
for evidente que os que regressam do combate sentem
todos os dias a intolerável amargura do esquecimento e
da indiferença? Todos nós, aqui presentes temos uma
indiscutível autoridade moral para falar disto.
Caros amigos:
Como todos vós, sou
um antigo combatente. Sei tão bem como vós como foi
difícil. Sinto por isso um enorme respeito pelo que
fizemos. Mas mais do que respeito, sinto orgulho. Esse
orgulho que me faz dar a cara, esse orgulho que tento
transmitir aos meus netos, na esperança de que eles
compreendam a enorme responsabilidade que é ser
português. As testemunhas prematuramente emudecidas
naquela pedra não me deixarão renegar a mensagem que
aqui vos trouxe.»