
Informações de um veterano
12.º
Encontro Nacional de Combatentes
Lisboa, 10 de Junho de 2005
Alocução proferida pelo convidado
– «Portugueses,
Combatentes!
Houve por bem a
Comissão Executiva do Encontro Nacional dos Combatentes
convidar-me para ser orador no dia de hoje, Dia de
Portugal, mas também dia do Combatente.
Ao fazê-lo que fez a
Comissão? Convidou um português que, tendo cumprido o
serviço militar também em Angola, se orgulha da farda
que vestiu e dos ensinamentos que não esquece. Como
algum dia escreveu Mouzinho de Albuquerque, obedecer sem
reticências e mandar sem hesitações.
Estou consciente que
ao dirigir-me hoje a vós o faço perante todos estes
milhares de nomes que gravados na pedra são memória a
daqueles que de entre nós deram a vida pela Pátria no
campo da honra. Respeito, admiração mas acima de tudo
gratidão que hoje aqui mais uma vez se renova na alma de
todos nós que compreendemos o que significa dar tudo
pela Pátria.
Todos nós nos
sentimos herdeiros desse legado, assumindo de corpo
inteiro a dignidade de Combatente e cujo reconhecimento
natural resulta do que nos marca a todos.
"Honrai a Pátria Que
a Pátria Vos Contempla"
Com orgulhosa emoção
evocamos hoje, nas suas linhas mais expressivas, mais de
oito séculos de História. Vem-nos naturalmente à memória
essa bela e árdua caminhada pelo tempo, de conquista e
aventura, de constante e vitorioso alargamento do nosso
espaço original, primeiro nesse canto da Península
Ibérica, depois, pelos mares fora, um pouco por todo o
mundo, que assim ficou revelado.
Quisemos, e éramos
poucos, descer do norte, conquistando, com tenacidade e
bravura indómita, todos os palmos do território europeu;
depois, mobilizaram-se as vontades e as inteligências, o
saber e os meios, para a grande aventura no espaço
desconhecido. Primeira potência naval dos tempos
modernos, acrescentámos mundos ao mundo, cruzámos os
mares largos dos oceanos, tirámos do desconhecido terras
e povos ensinado e aprendendo com outras gentes;
acrescentámos ciência à arte de marear; aprendemos com
sacrifícios sem conta a importância dos ventos e das
marés; aperfeiçoámos uma cartografia até aí imprecisa e,
quase sempre, apenas visionária; demos cunho seguro a
mapas das novas latitudes; desenhámos rotas para a
grande aventura; criámos embarcações mais adequadas aos
objectivos; fomos os primeiros a admirar, com precisão,
a grandiosidade do globo e os contornos dos seus
limites.
Tudo num esforço
nacional continuado e empolgante de alguns séculos, que
exigiu à Nação os sacrifícios e os sofrimentos de que
dão conta os cronistas; aí estão os mártires e os
heróis, dos mais humildes aos mais ilustres do reino, do
primeiro ao último dos cidadãos.
Por igual se dividiu
o esforço e o querer, o sonho e o empenho, a tenacidade
e a coragem. Por todo o lado foram ficando padrões a
assinalar, para a eternidade, a gesta dos portugueses; a
testemunhar Portugal por todo o vasto além-mar; e foi
muito, muito para além do que em nós cabia.
Mas deve sempre
sublinhar-se, assim no-lo ensina a História, que a Nação
portuguesa agiu, em toda esta empolgante epopeia, com
lúcido e notável sentido do espaço. Não foi apenas
aventura pura, ao acaso das sortes e dos azares. Antes
que o mar salgado recebesse as lágrimas de Portugal,
como disse o poeta, muito antes fomos preparando e
reunindo os meios a utilizar; estudámos em pormenor o
que havia para aprender, mobilizámos a inteligência e o
entusiasmo de nacionais e estrangeiro. Fixámos
objectivos com surpreendente precisão.
Depois empreendemos,
com sábia e metódica determinação, a aventura de levar
as fronteiras portuguesas para outros lugares, tornando
universal a pequena Pátria europeia, transformada assim
no primeiro estado pluricontinental da modernidade. Todo
este passado convoca para o primeiro plano o homem
português, fosse rei ou o mais humilde dos cidadãos.
Gente de algo ou simples anónimos, de fibra rara, que a
História testou com frequência. Dos primeiros momentos,
no século XIV, até ao fim da aventura nos nossos dias;
na andança das descobertas; nos povoamentos das terras
longínquas; na defesa das novas fronteiras; na guarda
das rotas; na promoção dos interesses inspiradores da
acção; sempre encontrámos a nossa gente inabalável na
sua fidelidade ao legado nacional, firme na sua crença
em Cristo, esforçada na acção, cumpridora firme das suas
responsabilidades históricas. Sempre se lhe exigiu
muitíssimo, muitas vezes a própria vida.
São oito séculos de
história, vivida assim, com sacrifícios e coragem,
sonhando e construindo um império – o primeiro, e
também, o último da nossa idade. Aceitamos com legítimo
e sereno orgulho o passado que nos conduziu até aqui,
percorridos que foram os caminhos que abrimos pelo mundo
fora. Chamada, quase sempre, a sonhos que excederam
muitas vezes o que humanamente podia dar, a nossa gente
nunca se negou ao desafio, fosse ele ao pé da porta ou
por aí, sabia lá onde.
Festejamos o nosso
dia do Combatente junto a este memorial evocativo dos
últimos actos da nossa caminhada extra europeia. Estão
ali, gravados para a eternidade, por exigência da Pátria
e comovida homenagem de todos nós, os nomes dos últimos
heróis dessa aventura de séculos. Gente simples, gente
das aldeias e das cidades, gente das oficinas e da
universidade, gente que entregou ás Áfricas então
portuguesas, sem contrapartidas além do cumprimento do
dever, a própria vida. Ali estão os seus nomes. Sem mais
nada. Os deles, e atrás deles os de todos os que
precederam nestes séculos portugueses que são o nosso
passado. E com eles o muito que por todo o lado fizemos,
por nós e para outros com quem partilhámos uma
existência bem singular, que nos distingue.
Este memorial, na sua
serena dignidade, evoca o último momento desse sonho que
tornou Portugal grande e universal. Aqui ao lado estão
os Jerónimos, a Torre de Belém e o Monumento aos
Descobrimentos. Tudo, uma síntese do que fomos e do que
somos, mas também um legado vivo a exigir-nos
insistentemente que prossigamos, contra ventos e marés.
As injunções da
História são poderosas e determinantes. Concluído o
ciclo que ocupou, exclusivamente, a nossa vida durante
séculos, eis-nos a viver de novo, outra empolgante
aventura, a da construção da Europa. Partilhamos
convictamente o objectivo de unir os povos europeus,
integrando esforços e vantagens de todos e cada um, para
que o resultado a todos venha a beneficiar, a todos
garantindo um desenvolvimento harmonioso e justo numa
paz definitiva, numa paz mil vezes lesada em passados
recentes por ambições e interesses particulares.
Estamos, por inteiro, nessa Europa do futuro, nessa
Europa poderosa, culta, matriz do progresso.
Portugal nunca se
reduziu ao espaço Ibérico, nunca se conformou à sua
circunstância. Procurou e encontrou, lá fora, o espaço
ilimitado para o seu génio criador, a tarefa adequada à
sua indomável energia, o projecto que o tornaria ímpar.
Foi o que, mais uma vez, abraçámos como destino. O
acerto da opção parece-me indiscutível, embora não
estejam, ainda, eliminadas, por completo, preocupações e
receios. Muitas, justificadas, devemos reconhece-lo. Mas
devemos guardar-nos de permanecer na beira-rio a clamar,
lamurientos e agoireiros, contra as caravelas que, a
todo o pano, se fazem à grande aventura.
Caminhamos para uma
fronteira mais ampla, aquela que delimitará física e
politicamente a Europa em construção. É um imperativo
sequencial, mas um imperativo que não poderá deixar de
respeitar as fronteiras nacionais, porque essas
resultam, imprescritíveis, perenes, da nossa própria
existência como corpo histórico nacional, síntese
dinâmica da nossa cultura viva, criada, sofrida e
gozada. Não deve recear-se que a vejamos apoucar-se.
Nunca foi assim e assim não será.
Mas devemos ter
presente, em cada momento do nosso futuro, que se a
solução encontrada não tinha, para nós, portugueses,
alternativa plausível, a nossa participação na grande
aventura, exige-nos um comportamento que nos revele, na
Europa, capazes de justificadamente exigir e impor os
nossos interesses nacionais, sejam de que ordem forem.
Só estaremos bem na Europa se soubermos proceder com
acerto, na medida justa, reformando a tempo hábitos e
procedimentos, que nos individualizam negativamente; não
podemos prescindir do objectivo de melhorar, com lúcida
tenacidade, os índices que nos relegam para planos
secundários; não deveremos perder ocasião de reforçar,
com consciência, os valores que sempre foram timbre do
nosso ser e do nosso estar. Estarmos assim na Europa que
vem aí, de cabeça levantada e senhores de nós próprios,
só depende de nós, das nossas exigências, do nosso
comprometimento connosco próprios. Não permitamos, não
ambicionemos que a Europa acabe por aceitar o encargo
que nos ter de outra forma que não seja aquela de quem
já foi senhor dos mundos. Nem devemos exigir à Europa o
que é da nossa responsabilidade. A Europa é o nosso
caminho. Andemo-lo com esperança e com honra.
Temos de olhar para a
nossa experiência em África como enriquecedora, única.
Temos, certamente, os olhos postos no futuro, mas não
deixemos que a velocidade destes tempos esconda o que de
bom, construtivo, se fez em comunhão com os povos
africanos nossos irmãos. Do ponto de vista
civilizacional, a nossa experiência nada deve a outras.
Cometemos erros, mas não temos que nos envergonhar do
nosso papel positivo, do nosso contributo para levar
mais longe os valores fundadores da nossa cultura. A
Nação tem memória, não deixemos que se esqueçam de nós,
principalmente daqueles que mais necessitam de apoio,
seja económico, seja social ou moral.
Passaram mais de
trinta anos, o mundo evoluiu ao sabor da vontade do
Homem. Novas Nações, Nações irmãs nasceram e
desenvolveram-se. A História que fizemos juntos
ligar-nos-á para sempre. Muito ficou na nossa memória,
muito que a roda do tempo teima em não deixar esquecer.
Do que ficou há algo
que nos une a todos: o Amor a África. Essa paixão criada
e construída na picada, na savana, na mata, essa paixão
que se estende hoje aos povos irmãos nascida do perigo
comum, mas alicerçada, desenvolvida e consolidada na
alegria de uma paz também comum. O amor a África que nos
faz sonhar com essa natureza exuberante, com essa vida
animal selvagem que um dia vivemos e que ficou para
sempre dentro de nós. É esse amor a África e todo o seu
potencial que deve ser hoje o cimento que nos liga às
Nações e Povos irmãos no enfrentar de um futuro comum,
num novo ciclo que a História abriu.
Conscientes dessa
Pátria comum que é a língua portuguesa, como dizia
Fernando Pessoa, é com África no coração que devemos ser
cada vez mais actores nesse futuro a construir juntos.A
nossa bem sucedida integração europeia que marca o final
do século XX e o inicio deste século não deve esbater a
nossa vocação histórica de integração com outros povos,
mas, pelo contrário, deverá acentuar a importância e o
papel de Portugal no seio da União Europeia, nas
ligações a esses países, seja no quadro da CPLP seja no
de outros fóruns.
Neste início do
século XXI, os desafios que todos enfrentamos nos campos
da educação, da saúde, do desenvolvimento económico e
social, da inovação e da sociedade da informação, são
desafios que exigem decisões estruturantes num mundo
cada vez mais competitivo em que o papel da Sociedade
Civil e das Organizações Não Governamentais pode e deve
ser cada vez mais importante.
O combate à fome,
doença, à iliteracia, à info-exclusão é hoje, num mundo
ainda mergulhado em profundos desequilíbrios regionais,
um combate que nos deve envolver a todos e que abre um
potencial formidável de oportunidades e de novas
experiências. Mas este combate incessante é também
motivo para assumirmos as nossas responsabilidades. A
Lusofonia não é um estado de alma nem pode ser um
sentimento romântico: é, e deve ser, o espaço para a
solidariedade entre os povos que partilham uma história,
uma cultura, e, acima de tudo, uma ambição. Uma ambição
de futuro, de progresso social e humano.
Respeitar a memória,
sim, mas também olhar para o futuro com esperança. Temos
a obrigação histórica e ética de aproveitar a
experiência adquirida, nos bons e nos maus momentos,
para, com inteligência, respeito e amizade estabelecer
novas relações e novos patamares de conhecimento e
interligação. Deixemos que este amor a África que nos
une a todos cresça ainda mais e se desenvolva em acções
concretas, cimentando as nossas relações com os povos
irmãos. E que um dia os nossos filhos e netos possam
dizer que, com África no coração, merecemos e fomos
dignos de todos estes que gravados na pedra estão hoje
aqui connosco.
Viva Portugal!»