Informações cedidas por um veterano
13.º
Encontro Nacional de Combatentes
Lisboa, 10 de Junho de 2006
Alocução proferida pelo convidado
«Hoje é Dia de
Portugal. Hoje não é o dia deste País. Portugal não é
"este País".
E é hoje, dia 10 de
Junho, Dia de Portugal, que cumpre homenagear os nossos
combatentes. Os que lutaram por Portugal, não por um
regime, não por uma ideologia, não por uma estratégia,
não por um interesse. Sim, por Portugal.
A maior de todas as
homenagens que fazer se possa aos nossos combatentes –
em especial por parte de alguém como eu que nunca foi
combatente (eu tinha treze anos e vivia em Angola quando
terminou a guerra) -, a maior homenagem, dizia, é
reconhecer que se Portugal é o que hoje é, e é uma das
mais antigas Nações de todo o mundo, é porque muita
gente ao longo de séculos lutou e morreu para que este
dia possa continuar a ser assinalado.
Já se disse que um
povo sem memória é um povo sem futuro. Poderemos mesmo
dizer que seria um povo já sem presente. Mas também sem
identidade, porque esta não pode subsistir sem
reconhecimento. E este obriga a que o sangue dos que
morreram em nome de todos seja causa de honra dos que
sobrevivem.
Certo é que a
História não regista nenhum caso de um Estado eterno.
Mas ao fim de novecentos anos de história, a cada
geração cabe assegurar que a próxima não seja última a
poder comemorar o Dia de Portugal. De Portugal repito,
não da Pátria, da Nação ou do País.
Mais se impõe também
ter presente que numa sociedade democrática, madura,
aberta e plural, o que deve ser esperado de todos os
cidadãos – porque afinal, os verdadeiros detentores do
poder político são eles e não aqueles outros que a cada
momento exerçam a titularidade dos órgão de Estado – é
que sejam activos combatentes pelos direitos de
cidadania. E que cumpram também os deveres que a mesma
impõe. Por isso, neste sentido, combatentes já não são
só os militares em cumprimento do seu ofício.
Hoje, Dia de
Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes,
é bom ter desde já presente que a missão que deles agora
se espera já não é fazer guerra, mas estar sempre em
prontidão para defender a Paz. E esta deve ser
garantida, e activamente promovida, não só no território
nacional, mas também em todas as geografias onde os
nossos interesses estratégicos, nomeadamente os
resultantes de compromissos internacionais – de que é
expoente maior a NATO – a isso obriguem.
Hoje, Dia de
Portugal, dia em que homenageamos os nossos combatentes,
é também bom recordar que combatentes são de igual modo
aqueles que com os nossos combateram. E sei, porque já o
vi e senti, que ninguém mais do que um verdadeiro
combatente sabe respeitar o combatente que o defronta.
Porque depois do confronto é mais aquilo que os une do
que o que os separou.
Homenagear os nossos
combatentes é, por conseguinte, celebrar Portugal. Sem
ideologias, sem facciosismos, sem antagonismos. Porque
Portugal somos todos, mesmo aqueles que sendo
portugueses dizem dele não gostar e até aqueles que por
Portugal recusariam lutar. Porque Portugal é, enfim, a
raiz da nossa filiação comunitária. Porque o dia 10 de
Junho é o dia dos portugueses. Todos.
Celebrar Portugal
significa então recordar que somos, de entre todos os
Estados soberanos da Europa, aquele que no espaço
primeiro encontrou os seus próprios limites de fronteira
terrestre. E que espera – isto é, aguarda com esperança
– nunca chegar a descobrir no tempo as cérceas que
delimitam o fim da sua Idade, porquanto sucede que a
soberania portuguesa é, ela mesma, não apenas o selo que
certifica a sua independência, mas também, e em
especial, a sua própria causa de ser. Desta sorte, a
soberania nacional, na particular condição de Portugal,
é muito mais do que um simples atributo de Estado: é a
emanação de uma vontade de Nação. Portugal não é só um
Estado soberano. Portugal é um Estado Nacional.
Portugal é uma Nação
que, de frente para o mar e de costas para terra,
descobriu terra para além do mar. Uma Nação que
encontrou o Oriente indo para o Ocidente. Faltando ao
encontro com a vocação faltaria ao cumprimento da sua
missão. Portugal é um ancoradouro onde diversas gentes
se encontram como um só povo que se identifica com uma
só língua perante a memória de uma história comum e o
sonho de um futuro também comum. Portugal foi cantado
por Camões como ponto de partida para a Ilha dos Amores
e para o Reino do Prestes João. Mas descobrir o mundo
todo não seria nada se esse mundo fosse só, ao contrário
do verso de Pessoa, o mítico nada que é tudo. Não. O
lugar português não é o da utopia. É o do mundo inteiro.
De nada vale ser finis terrae se não se divisar para
além do fim que pode ser pela vista alcançado. Portugal
significa universal.
Portugal teve por
destino a descoberta e o encontro com outros povos. Para
com eles viver e com eles repartir o que nós somos.
Nunca fomos menos por sermos também os outros. Mas fomos
sempre mais quando demos mais. Quanto mais formos outros
mais os outros serão portugueses. A Portugalidade só se
realiza com os outros e nunca contra ninguém. E é por
isso mesmo que Portugal tem de significar o maior
contrário de racismo ou xenofobia. A dimensão de um povo
não é mensurável pelo número de coisas de que é senhor,
mas pela intenção e pela intensidade do que seja capaz
de dar aos outros povos. Posto isto, tal como há
portugueses em todas as dobras do mundo, é bom que os
que cá permanecem saibam ser solidários com o sacrifício
dos que partiram, acolhendo com a mesma dignidade
aqueles outros que vindos do mesmo mundo escolheram cá
viver connosco.
Portugal é um Estado
e é uma Nação. Mas é também uma Mátria. Terra mãe de
demandas sem fim para no fim voltar ao princípio de
outra procura infinita. Porque só o infinito é o tempo e
o espaço onde cabe a universalidade. Lugar e momento
daqueles que nos outros procuram o encontro consigo
mesmos. Fizemo-nos assim. Sobrevivemos assim. Seremos
ainda assim enquanto a nossa vontade nos permitir
continuar assim. Até que sim. Porque o nosso fado não se
chama destino, mas liberdade. E então a nossa saudade
não será do passado, mas clamará pelo futuro. Que só é
possível porque houve gente, de gerações e gerações, que
combateu para nos permitir estar hoje aqui a falar de
esperança no futuro.
Obrigado Combatentes!
E
Que Viva Portugal!»