Cerimónias do dia 10 de Junho de 2008
Dia de
Portugal
Monumento
Nacional aos Combatentes do Ultramar
Forte Bom
Sucesso, Lisboa
15.º
Encontro Nacional de Combatentes
Lisboa, 10 de Junho de 2008
Informações cedidas por um veterano
Alocução
proferida pelo convidado:
João César das Neves
Sessão comemorativa
dos Combatentes
Monumento aos
Combatentes do Ultramar, 10 de Junho de 2008
João César das Neves
Meus amigos
Estamos aqui reunidos
por causa do sangue. É o sangue que aqui nos chama todos
os anos. Um sangue longínquo, um sangue de multidão, um
sangue de violência.
Espalhado por
múltiplas terras, ao longo de muitos anos, é este sangue
que aqui está reunido neste Monumento. É este sangue que
aqui nos reúne neste dia.
Todos os anos vimos
aqui falar ao sangue. Todos os anos dizemos palavras a
este sangue antigo, distante, múltiplo. Desta vez, em
vez de falarmos ao sangue, ouçamos o sangue. Ouçamos o
que o sangue tem para nos dizer. Em vez de dizermos os
sentimentos que este sangue nos suscita, pensemos no que
este sangue diz dele mesmo. O que este sangue nos quer
dizer.
1- A grandeza do
sangue
Será que o sangue nos
fala de coragem? De valor? De heroísmo? Algum, sem
dúvida! Mas muito dele, não. A maior parte certamente,
não. Algum deste sangue foi derramado em feitos
notáveis, actos valorosos, gestos memoráveis. Mas a
maior parte não.
Será que o sangue nos
fala de colonialismo? Geo-estratégia? Modelos políticos?
Algum, sem dúvida!
Mas muito dele, não. A maior parte certamente, não.
Algum destesangue foi derramado por razões ideológicas,
propósitos tácticos, consciência mundial.
Mas a maior parte
não.
A maior parte,
certamente, foi sangue que não queria ser derramado, que
não concordava com aquela guerra, que não compreendia
bem porque estava ali, que não desejava estar ali.
Grande parte desse sangue jorrou por azar, por engano,
sem vontade. É normal o sangue jorrar contra vontade.
Quando falamos de
tanto sangue, em tantos locais e em tantos anos,
derramado em condições tão diferentes, por pessoas tão
distintas, temos de admitir que a maior parte do sangue
não era especial. Sangue de multidão dificilmente é
especial. Sangue de tão grande multidão tem de ser
sangue comum, sangue normal, sangue de gente como nós.
Se este sangue não
nos fala de heroísmo e valor, de colonialismo e
ideologia, de que é que ele nos fala, então? Porque
razão afinal estamos nós aqui? O que torna tão especial
este sangue que todos os anos nos reúne neste lugar, a
dizer coisas ao sangue?
Qual a grandeza
extraordinária deste sangue que, afinal, por ser sangue
de uma multidão, não pode ser especial?
O sangue que aqui nos
reúne nem sempre nos fala de coragem e de heroísmo,
ideologia e sistemas. Mas fala-nos sempre de dever. O
que este sangue nos diz, o que este sangue tem de
grande, é o dever cumprido.
O que há de comum em
toda essa enorme multidão é que estava lá. Tinha sido
enviada, tinha-lhe sido ordenado e tinha ido. Foi onde
tinha de ir e cumpriu o dever que tinha de cumprir.
Cumpriu o dever até ao fim.
Cumpriu o dever até
ao sangue.
Grande parte desse
sangue não queria estar ali. Grande parte desse sangue
não concordava com aquela guerra, não apoiava sequer o
regime que a declarara. Mas estava ali e combatia. Por
ser o seu dever.
Sacrificava a sua
vida. Não porque quisesse sacrificá-la, não porque
apoiasse a causa, porque fizesse feitos notáveis,
únicos. Simplesmente porque devia ali ir e tinha de
cumprir o seu dever. E foi. E cumpriu. Até ao fim. Até
ao sangue.
Esta é a grandeza
deste sangue. Esta é notável elevação deste sangue que
aqui nos reúne todos os anos. Simplesmente estar onde
tinha de estar, cumprir aquilo que era o seu dever. Sem
querer, sem concordar, sem apoiar, mas cumprindo. A
grandeza deste sangue é aquela grandeza extraordinária
de que são capazes as multidões. A única grandeza das
multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a
grandeza de se dar, mesmo àquilo com que não se
concorda. Por ser o seu dever.
2- As razões do
sangue
É difícil hoje
compreender as razões deste sangue. Num tempo de
direitos, este sangue fala-nos de deveres. Num tempo de
ambições, este sangue fala-nos de entrega.
Num tempo de
realização pessoal, este sangue fala-nos de sacrifício.
É difícil neste tempo compreender porque o sangue foi
derramado. Para o nosso tempo é difícil até compreender
porque vimos aqui, todos os anos, honrar o sangue
derramado. Este sangue hoje não é compreendido. Este
sangue hoje é invocado, é chorado, é lamentado, mas não
é compreendido.
O nosso tempo
compreende o heroísmo, compreende a coragem, compreende
o valor. Aquilo que o nosso tempo tem dificuldade em
entender é o silêncio, a entrega. O nosso tempo tem
dificuldade em entender o sacrifício. Como é possível
dar o sangue por algo com que não se concorda? Como se
entende o sangue derramado por uma multidão?
Isto hoje não
sabemos. Hoje temos de o perguntar a este sangue.
O sangue fala-nos de
algo maior que ele. Este sangue de multidão, este sangue
comum, sangue normal, sangue de gente como nós, fala-nos
de algo maior do que ele.
Algo a que se
entrega. Algo a que se sacrifica. Porque até o sangue
sem feitos notáveis, até o sangue que não quer ser
derramado, que não concorda com a guerra, que não quer
estar ali, até esse sangue é sempre derramado por algo
maior do que ele. É por isso que está ali. Por isso
cumpre o seu dever.
Essa razão maior é
muito diferente de uns para os outros. Mas existe em
todos. A causa maior que inspira o dever é diferente em
todos eles. Mas está presente em todos eles. Uns lutavam
pela pátria, outros pela família, pelos amigos. Lutavam
pela sua aldeia, pela sua terra. Alguns pela Fé e pelo
império, outros pelos operários e pela sociedade sem
classes, outros ainda pelo progresso e a civilização.
Havia os que lutavam pela justiça, pela liberdade, pelo
bem comum. Todos sabiam porque estavam ali, cada um com
as suas razões. Mesmo os que não queriam estar ali.
Mesmo os que não compreendiam bem porque estavam ali Mas
cumpriam o seu dever.
Assim vemos a
extraordinária grandeza deste sangue. Uma grandeza que,
se virmos bem, é ainda maior que a da coragem, do
heroísmo, da valentia. É notável alguém entregar a sua
vida de forma nobre, num gesto elevado. Mas é mais
notável ainda dar o seu sangue no silêncio e no
esquecimento, numa guerra com que se discorda. Mas dá-lo
por uma causa nobre, por uma razão maior. A sua razão. A
razão da sua vida.
Esta é a grandeza das
multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a
grandeza de se dar a algo maior.
3- O que o sangue
ouve
Isto é o que o sangue
nos diz. Que podemos nós dizer-lhe? Que quer o sangue
que lhe digamos? Que podemos nós dizer diante de tanto
sangue?
Diante deste sangue,
diante de tanto sangue, calam-se as retóricas e as
figuras de estilo. Diante de um sangue longínquo, um
sangue de multidão, um sangue de violência espalhado por
múltiplas terras, que podemos nós dizer? Emudecem as
ideologias e os discursos, empalidecem as exigências e
as irritações.
Diante de tanto
sangue a única coisa a dizer é o silêncio. O mesmo
silêncio com que o sangue foi derramado. E nesse
silêncio, o que há a dizer é o que nós dissemos hoje.
A única coisa que há
a fazer é rezar. Humildemente baixar a cabeça e rezar.
Rezar a Deus para lhe
agradecer o que estas vidas nos deram. Agradecer tudo o
que este sangue nos deu. Rezar a Deus para lhe entregar
este sangue. Entregar-lhe tudo o que este sangue é.
Rezar a Deus para lhe pedir que sejamos dignos daquilo
que o sangue nos pede. Pedir que sejamos dignos deste
sangue.
Rezar é o que o sangue nos pede que digamos.
4- A lição do sangue
É isto que o sangue
tem hoje a dizer-nos. A nós que vimos cá todos os anos,
é isto que o sangue diz dele mesmo. E isto é algo que
devemos ouvir, porque é algo que raramente ouvimos. Algo
que mais ninguém nos diz nos dias de hoje.
Hoje, felizmente, não
nos pedem o sangue. Hoje já não se vê o sangue. O sangue
que hoje existe é sangue escondido. Hoje já não há o
sangue que o regime nos pede, pela guerra. O sangue que
hoje há é aquele que nós pedimos ao regime, pelo aborto.
E esse sangue não nos fala de dever. Fala-nos de prazer,
de desespero, de abandono, de solidão, de infâmia. Este
é o sangue do nosso tempo. Este é o sangue de um tempo
de direitos, de ambições, de realização pessoal. Este é
o sangue de quem não se quer dar.
Nos nossos dias a
questão já não passa pelo combate, pela luta, pela
morte. Por enquanto, não passa pelo combate, pela luta,
pela morte. Não nos pedem sangue. Pedem-nos suor. Hoje o
nosso dever não é o sangue, mas é o suor. Pedem-nos
suor, pedem-nos lágrimas, pedem-nos impostos, pedem-nos
regras e regulamentos. O nosso dever não nos exige que
partamos para longe e lutemos até à morte. Já não é esse
o nosso dever. Mas o dever pede-nos que trabalhemos, que
procuremos emprego no desemprego, que paguemos, que
cumpramos, que soframos.
Grande parte de nós
não quer viver assim. Grande parte de nós não concorda
com esta crise, não apoia sequer o regime que a
declarou. Discordamos da política, condenamos a crise,
criticamos os chefes, acusamos os erros. Regateamos o
suor, as lágrimas, os impostos, as regras. Exigimos
apoios, promoções, subsídios, aumentos. Não cumprimos o
nosso dever.
Vimos diante deste
sangue Vir aqui não é uma memória do passado, um
nostálgica celebração de feitos antigos. É uma presença
no presente e um compromisso para o futuro. Um
compromisso para o nosso sangue.
Partimos daqui depois
de celebrar este sangue. O sangue que, numa guerra muito
pior que a nossa crise, estava ali e combatia. Por ser o
seu dever. Sacrificava a sua vida.
Não porque quisesse
sacrificá-la, não porque apoiasse a causa, porque
fizesse feitos notáveis, únicos. Simplesmente porque
devia ali ir e tinha de cumprir o seu dever. E foi.
E cumpriu. Até ao
fim. Até ao sangue.