 |
HONRA E GLÓRIA
e
nota de óbito |
Elementos cedidos pelo veterano
JC Abreu dos Santos |
Faleceu no dia 28 de Abril de 2025 a veterana
Eugénia do Espírito Santo Sousa
Capitã Enfermeira Pára-Quedista

Nasceu a 13 de Novembro de 1935 na Povoação da
Ribeira Grande em Santo Antão do Cabo Verde.
Concluiu
em 12 de Abril de 1962 no Regimento de Caçadores
Paraquedistas (RCP - Tancos) «QUE NUNCA POR VENCIDOS
SE CONHEÇAM» o Curso de Enfermeiras Pára-quedistas
nº 16, sendo-lhe atribuído o brevet n.º 1599.

Entre 1962 e 1974, Capitão Enfermeira Pára-quedista
n.º 001373-A, serviu Portugal sucessivamente nas
Províncias Ultramarinas da Guiné, de Angola e de
Moçambique.
Agraciada
em 2019 pelo MDN com a Medalha da Defesa Nacional de
1ª Classe.
Faleceu a 28 de Abril de 2025 no Hospital das Forças
Armadas em Lisboa.
Inumada em 02 de Maio de 2025 no Talhão dos
Combatentes do cemitério municipal de Aiana em
Sesimbra.
Honra e Glória!
Paz à sua Alma.
---------------------
Excertos do depoimento da Capitã Enfermeira
Pára-Quedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, in
livro "Nós,
Enfermeiras Paraquedistas":
«Nasci
na ilha de Santo Antão, na vila da Ribeira Grande,
freguesia de Nossa Senhora do Rosário, sítio da
Povoação em Cabo Verde, a 13/11/35. Órfã aos dois
anos, fui educada por três irmãs, as "Meninas
Sequeiras", extremamente tementes a Deus e com
excelentes princípios morais e cívicos. Na minha
família havia pessoas com ligação à saúde: médicos,
enfermeiros e farmacêuticos, e ainda proprietários
rurais.
Aprendi a ler muito cedo e aos oito anos fiz o exame
de 1º grau (3ª classe) com a classificação de "Muito
Bom". Por motivo de transferência para a Ilha do
Fogo da minha professora, que era uma das minhas
"mães adoptivas" e madrinha, só fiz a 4ª classe aos
11 anos, quando ela regressou e me preparou para o
exame final. Concluído com Distinção.
A partir daí foi um compasso de espera angustiante,
porque sempre desejei seguir os meus estudos. Na
altura não havia nenhum liceu na minha ilha e não
podia ir para a Ilha de São Vicente onde havia um,
por ficar distante e isso ser muito dispendioso. As
minhas "mães adoptivas" fizeram sempre questão de
assumir a tarefa da minha educação, recusando a casa
da minha tia médica que lá vivia.
Ficava triste ao ver outras crianças da minha idade
voltar de São Vicente nas férias grandes, com mais
um exame feito e eu estagnando. Preenchi os meus
tempos livres na Escola Primária como ajudante da
professora, que era a minha madrinha. Aos 15 anos
comecei a receber explicações em regime externo,
tendo de pagar ao professor com o dinheiro das
minhas "mães adoptivas"; sentia cada vez mais as
dificuldades e atormentava-me com o meu próprio
futuro. Assim, logo que tive oportunidade de estudar
fiz tudo o que pude para vencer qualquer obstáculo.
Submeti-me aos exames liceais em São Vicente,
hospedada na casa da minha tia.
E foi daí que parti para Portugal (em 1956), após
decisão familiar que me assegurou o pagamento das
despesas de um curso de enfermagem no Porto. A
escolha deste curso deveu-se ao facto de eu mostrar
um grande carinho pelas pessoas mais desfavorecidas,
que procurava, acompanhava, e que sempre ajudava na
medida das minhas possibilidades e capacidades. E
ainda por eu sempre proteger, tratar e acarinhar os
animais, sobretudo os abandonados. Por estas minhas
características, as pessoas pensavam que eu deveria
dar uma boa enfermeira... E o facto é que eu também
gostava desta indicação...
Vim de Cabo Verde em 1956, de barco, numa viagem
longa que demorou mais ou menos dez dias. Passei a
viagem num enjoo quase permanente. Pela primeira vez
atraquei no coração do meu Portugal, só conhecido
pelos livros da escola e nos meus sonhos. Era
grande, com muita gente, sem o ar morno que eu
respirava na minha ilha, mas belo e fresco como eu
imaginara. Senti-me feliz por pisar esta metrópole
há tanto tempo sonhada. Agora iria ser gente, gente
grande, que realiza sonhos. E eu iria fazer tudo
para realizar os meus!
Atraquei no cais de Alcântara em Lisboa e sabia que
tinha à minha espera a Srª Dª Felismina, esposa do
Sr. Capitão José Maria Ferrão que tinha estado em
Cabo Verde e tão bem conhecia as Meninas Sequeiras e
a mim. Eu vinha prevenida para não perder um
papelinho com a direcção de uma outra amiga da
família, que morava na Estrela, em Lisboa. Caso a
Srª Dª Felismina, por qualquer motivo, não
aparecesse, eu teria de apanhar um táxi e ir ter com
essa pessoa. Teria de estar bem atenta a tudo, até
com o taxista, pois eu era uma desconhecida numa
cidade grande.
Assim aconteceu, saí do barco e fiquei a olhar
tentando localizar a minha protectora. Ainda antes
de a ver, deu-se o primeiro e grande deslumbramento.
Pela primeira vez, vi um comboio! Nunca tinha visto
nenhum. Achei-o lindo e fiquei logo presa à
maravilhosa luz que irradiava de uma lanterna
localizada no centro frontal da primeira locomotiva.
Era uma luz amarela, tão brilhante e luminosa que me
deixou sem fôlego a olhá-la. Fiquei parada, como que
encandeada por aquela luz intensa e forte que eu
nunca tinha visto. O comboio deslizava lentamente
com o aproximar da estação de Alcântara e eu,
maravilhada com aquele farol no cimo da primeira
carruagem, vomitando um feixe de luz que parecia
falar para mim, dando-me as boas vindas e, como
mensagem, a dizer-me que o meu futuro seria
promissor se eu me deixasse conduzir pela luz divina
de um Deus em que acreditava e acredito vivamente.
Subitamente, a minha protectora aparece! Veio de
propósito da cidade do Porto para me acolher neste
Portugal que só tem mar de um lado, tão diferente da
minha Ilha, que tinha água muito azul a toda a
volta. A Dª Felismina deu-me as boas-vindas e
levou-me à Estrela, a casa da minha patrícia, aquela
que figurava no papelinho que não podia perder, e
onde fiquei os três dias seguintes; era mesmo ao
lado da Basílica da Estrela. Depois fui para
Penafiel, terra onde morava a Dª Felismina com a sua
família. Logo no dia seguinte ela cortou-me o
cabelo, deu-me um casaco novo e levou-me ao
fotógrafo para tirar uma fotografia para mandar para
Cabo Verde. Fiquei toda janota! Depois, foi só
tratar da papelada e entrar na Escola de Enfermagem
do Hospital de Santo António, na cidade do Porto,
onde fiz o Curso de Auxiliar de Enfermagem.
Na então denominada Metrópole, fiz este curso nessa
escola do Porto. Terminado este, e já trabalhando
num hospital, fiz o Curso Geral de Enfermagem na
Escola de Enfermagem do Hospital de Santa Maria, em
Lisboa, com a classificação de 16 valores, com
direito a Medalha de Prata.
E foi daqui que fui para a Força Aérea, para o 2.º
Curso de Enfermeiras Pára-quedistas.
Quando fui para enfermeira pára-quedista senti que
era mais um caminho bom que Deus punha à minha
disposição.
No tempo em que estive a desempenhar as verdadeiras
funções para as quais as enfermeiras pára-quedistas
foram criadas - apoiar os militares feridos em zonas
de guerra -, senti-me completamente realizada como
Ser Humano e como enfermeira. Foram muitas as
experiências que ali tive, e que apenas naquele
ambiente - o da guerra - são passíveis de ser
experimentadas. Elas ocorriam num ambiente cheio de
dificuldades, quase sempre isoladas e tudo tinha de
ser ultrapassado, para podermos cumprir as nossas
missões - tratar dos feridos que nos confiavam. Mas
aquelas provações permitiram-me melhorar como
pessoa, e melhorar em todos os sentidos.
Ainda hoje agradeço a Jesus por Ele ter
possibilitado que eu tivesse a oportunidade de
ajudar os outros, em circunstâncias tão difíceis
como aquelas. Foram 12 anos em que me senti
completamente realizada como enfermeira e como Ser
Humano... Foi, para mim, um tempo bem-aventurado.»
---------------------
Biografia da Capitã Enfermeira Pára-Quedista Eugénia
do Espírito Santo Sousa no livro:
título:
"Coragem, Altruísmo e Fé"
autoria: Rosalina Coelho Vaqueiro
editor: Chiado Books
1ª ed. Lisboa, Abr2025 (apresentação em 15Nov2025 na
Biblioteca Municipal de Sesimbra)
540 págs
med.: 23,5x15,2cm
ISBN: 989-379-288-9