23 de agosto de 1976. O sol
fustiga o sul de Angola. Sob o solo poeirento, uma
mina terrestre aguarda. Quando um veículo militar
Wolf do lendário 32 Battalion passa, o impacto é
devastador. Entre o metal retorcido e o fumo da
explosão, um homem fica preso nas ferragens. O seu
nome é Daniel Roxo. Com a lucidez de quem sabe que
não há salvação possível, ele não grita, não
desespera. Pede apenas um cigarro. Fuma-o com uma
calma desconcertante enquanto a vida se lhe escapa.
Morre exatamente como viveu: no coração do mato, sob
o fogo cruzado e com um brio gélido que sempre o
definiu.
Nascido em Mogadouro, no ano de 1933, a trajetória
de Francisco Daniel Roxo parece arrancada de um
romance de aventura e guerra. Antes do uniforme, foi
caçador profissional no Niassa, desenvolvendo uma
simbiose perfeita com a selva e uma capacidade de
sobrevivência quase sobre-humana. Quando a Guerra do
Ultramar eclodiu, transformou-se num dos mais
temidos combatentes contra a FRELIMO, conquistando
por duas vezes a prestigiada Cruz de Guerra
portuguesa.
Mas o fim do império não ditou o fim do seu combate.
Em 1974, recusando-se categoricamente a baixar as
armas, Roxo atravessa a fronteira em direção à
África do Sul. Ali, o seu destino cruza-se com a
criação daquela que viria a ser uma das unidades de
elite mais
místicas e temíveis do continente
africano: o 32 Battalion, também conhecido como o
Batalhão Búfalo.
Foi ao serviço desta força que gravou o seu nome na
história militar contemporânea. Dezembro de 1975, na
célebre Batalha da Ponte 14, sobre o Rio Nhia. Numa
demonstração de audácia pura, Roxo infiltra-se
completamente sozinho atrás das linhas inimigas. Num
único reconhecimento, elimina 11 soldados. O caos e
a informação que recolhe abrem caminho para uma
vitória esmagadora, onde um contingente de 400
cubanos e tropas do MPLA é copiosamente derrotado. O
feito vale-lhe a Honoris Crux, a mais alta
condecoração militar sul-africana, tornando-se o
primeiro estrangeiro a recebê-la.
A glória militar, contudo, teve como contraponto o
esquecimento. Após a sua morte em 1976, o homem que
desafiou exércitos foi enterrado numa campa rasa,
totalmente anónima. O silêncio sobre o seu paradeiro
prolongou-se por quase três décadas; só em 2005 o
seu nome foi finalmente gravado numa lápide digna.
Herói esquecido, mestre da sobrevivência ou
mercenário ao serviço do apartheid?
A figura de Francisco Daniel Roxo recusa-se a caber
em categorias simples ou julgamentos apressados.
Rompendo com visões a preto e branco, este
documentário recusa tomar partidos. Apresentamos-lhe
os factos — todos eles, sem filtros nem omissões — e
deixamos a decisão final do lado de quem assiste.