Vem sendo anunciada
com destaque esta série documental «A Guerra»,
realizada por Joaquim Furtado sobre o período da
guerra colonial [...].
O documentário, que
percorre de forma cronológica 13 anos de conflitos
nas antigas colónias portuguesas, resulta de uma
«pesquisa bastante aprofundada com recurso a muitas
fontes para dar uma visão global dos
acontecimentos», explicou Joaquim Furtado à Agência
Lusa. [...]
Na passada noite de
15 de Outubro/07, o programa "Prós e Contras" da
RTP1, moderado pela jornalista Fátima Campos
Ferreira, debateu o tema sem a participação da
maioria dos ex-combatentes que vivenciaram essa
guerra.
Em sequência, o
mesmo portal [UTW - Ultramar Terraweb] abrirá espaço
aqui para que ex-combatentes se pronunciem,
elogiando ou criticando tal debate.
Resta-nos aguardar
que os primeiros nove episódios, com cerca de uma
hora cada, que vão ser exibidos na RTP1 até ao final
do ano [de 2007] a partir de hoje, retratem,
contribuindo para a História, a verdade da guerra
colonial com imparcialidade e sem emoções políticas.
Esperemos para
ver...
(gotaelbr em 16/10/2007 01:11)
2 comentários:
Anónimo disse...
Neste tipo de
programas nada se aprende e acredito até que o
objectivo é mesmo esse: servem para nada esclarecer
e apenas de passatempo!
Assisti a vários
destes programas e noto muitas vezes que quando o
orador quer concluir a sua explanação a palavra lhe
é retirada e entregue a outro comentador ou
simplesmente lhe é formulada uma nova questão.
Eu aconselharia a
que os oradores confrontados com esta situação se
levantassem e se retirassem do debate. Já vi alguns
ameaçarem fazê-lo e consta que outros já o fizeram
mesmo.
Zé da Burra o
Alentejano
Terça-feira, 16
Outubro, 2007
Anónimo disse...
Os "moderadores"
(apresentadores) da RTP são useiros contumazes desse
tipo de comportamento grosseiro, prepotente,
coercivo de idéias e que diminue quem participa
transpirando boa-vontade democrática...
Surpreende como
existe quem, no meio dessa rídicula fogueira de
vaidades saloias, se predispôe a aturar e
"dar-corda" a esse tipo de pseudo profissional da
mídia lusitana...
Dá vontade,
realmente, ao assistir, de mandá-los "dar uma volta
na esquina" (para não dizer mandá-los à m...) e
mudar para canais sérios, com melhor conteúdo!
Para mim não têm
credibilidade nem há muito que esperar dessa tal
série de reportagens que vão apresentar sobre a
guerra das ex-colónias.
Apresentarão,
tendenciosos, só o que lhes convém e acham que é
politicamente correto. O que, muitas vezes não
corresponde à realidade do que se passou e viveu
nessa guerra.
Abraços,
Silva Paiva -
Bruxelas
Terça-feira, 16
Outubro, 2007
[José Maria da Silva Paiva,
Sld Tms CCac2364 (Fzd Maria Fernanda, Mavoio e Fzd
Costa), Angola Mai68-Jul70]
----------------------------------------------------
último reduto
"Antes de mais, viver é
comprometer-se" (Pierre Drieu La Rochelle)
Fonte: http://ultimoreduto.blogspot.pt/search/label/Stand-up%20comedy
TERÇA-FEIRA, OUTUBRO 16, 2007
Mudança de planos
Tencionava escrevinhar aqui mais umas
quantas pinceladas parisienses mas já não consigo -
e assim deixo as montras de Montmartre para mais
logo. Eu explico: é que estive a ver o Prós e
Contras, em que mais uma vez e como sempre sucede,
os "contras" estavam na assistência - desta feita
superiormente liderados por João José Brandão
Ferreira que, para quem não saiba, assina
mensalmente prosa de respeito na Alameda Digital.
Mas o problema é outro. A drª. Fátima - assim a
interpelam habitualmente os convivas - deu tempo de
antena, a meu ver excessivo, a esses vultos do
stand-up comedy que respondem pela graça de Otelo,
Duran Clemente e Sousa e Castro. E eu, ainda a
braços com uma barrigada de riso, tenho mesmo que me
ir deitar sob pena de não conseguir trabalhar
amanhã.
Etiquetas: Stand-up comedy
PUBLICADO POR PEDRO GUEDES @ 02:39
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Opinião
de Antigos Combatentes:
Vítor Manuel Cristovam Baião
Alferes Mil.º Atirador de Infantaria
CCacMP e CCacVC – (Cabo Delgado e Niassa),
Moçambique Jul66-Mar70
de: Vítor Baião
para:
UTW
data: 16 de Outubro
de 2007 às 02:37
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Meu Caro Amigo
Acabei agora de ver
o programa.
Para ser franco não
gostei.
Do painel só dois
elementos estavam preparados para discutir o
assunto, o Cor. Matos Gomes e o Dr. Pinto, com
versões antagónicas dos acontecimentos.
Os representantes
da Guiné e de Moçambique apresentaram posturas
diferentes, reconciliadora e pragmática o primeiro,
conflituosa e pouco esclarecida o de Moçambique.
Nos militares (do
quadro permanente) continuam as clivagens. E nos
técnicos a sua linguagem codificada dificulta a
compreensão.
Salvaram-se, em
minha opinião, os representantes dos deficientes e o
sargento mil.º guineense.
Quanto aos
representantes dos espoliados muito ficou por dizer.
O jornalista, autor
da nova série sobre esta temática que vai para o ar
a partir de amanhã, divulgou parte do seu trabalho e
opinou sobre a temática com base nos depoimentos
recebidos. Esperamos que os 18 episódios contem uma
história verdadeira do que foi a gesta portuguesa
nestes 13 anos de Guerra.
Enfim considero que
o debate sobre a Guerra (de África, Colonial ou do
Ultramar) defraudou as minhas expectativas.
Faltou-lhe a
intervenção, o vigor, a paixão, o empenho, o
improviso e a frontalidade dos milicianos,
autênticos peões desta verdadeira gesta portuguesa
que não devemos olvidar.
Um abraço do
Vítor Baião
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José António de Albuquerque Dias
Alferes Mil.º n/m 09113667
CCac3310 – (Omar e Toma do Nairoto), Moçambique
Fev71-Mar73
de: José António de
Albuquerque Dias
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 11:11
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e
Contras15OUT2007
Camaradas,
Nunca esperei nada de especial deste programa,
porque ninguém está preparado para enfrentar de
repente e quase de improviso um tema desta natureza
...
A areia do tempo e a máquina ideológica instalada
vão apagando as memórias e os argumentos vão-se
desvanecendo e estreitando.
Resta (ainda) algum tempo, mas já muito curto, para
conseguir demonstrar uma traição que se instalou e
enraizou no quotidiano cultural dos portugueses de
hoje.
Penso que devemos estar todos melhor preparados para
aproveitar as raras ocasiões que como esta possam
surgir.
Enorme abraço para todos !
José António de Albuquerque Dias
----------------------------------------------------
João
António Tunes
Alferes Mil.º de
Transmissões
CCS/BCac2884 e
CCS/BCac2930 – (Pelundo e Catió), Guiné Mai69-Fev71
Mas eu não falei no
"Prós e Contras". Referi (e mantenho) expectativas
positivas sobre a série documental de Joaquim
Furtado que começa hoje. Concordo que o programa de
TV de ontem foi péssimo. Venha a série.
16Out2007 às 13:28
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Rui Pedroso Neves
Alferes Mil.º
CCac3310 – (Omar e Toma do Nairoto), Moçambique
Fev71-Mar73
de: jazzpress
data: 16 de Outubro de 2007 às 14:50
para: opinioes@rtp.pt; pros.contras@rtp.pt
assunto: PRÓS E CONTRAS
Boa tarde.
Sou Rui Pedroso
Neves que participou na Guerra Colonial/Ultramar de
1971-73 como Alferes Miliciano da Comp. Caçadores
3310, Bat. Caç. 3834 no Sector de Mueda, Moçambique,
no destacamento de Omar perto do Rio Rovuma e da
linha de infiltração Kilido onde a Frelimo fazia
entrar os seus equipamentos e pessoal vindos da
vizinha Tanzânia, muito apoiados pela China.
A minha Companhia
teve 14 mortos em combate, 7 em emboscadas e 7 por
accionarem minas. Fomos a 3ª Companhia da Guerra de
Moçambique com mais baixas, um score que fala
por si.
Vi, hoje, em
diferido na RTP multimédia, a 1ª parte do programa
Prós & Contras e, devo dizer, que notei a ausência
de verdadeiros operacionais da época com consciência
política e experiência suficiente para dissertar com
credibilidade. Vi, sim, oficiais superiores caducos
a defenderem pontos de vista completamente fora da
realidade, vi um guerrilheiro (que tinha sido
enfermeiro) a dizer a cassette e um
embaixador da Guiné com manifestas dificuldades de
comunicação mas, que, não deixou de dizer que a
consciência, na época, não era lá muito a de se
libertarem da colonização.
A nossa consciência
de jovens oficiais arrebanhados para irem à guerra
originava duas opções: ou se desertava (mais fácil),
ou se alinhava. Desertar era mais fácil pois havia
muitos países abertos a receber, quer refractários,
quer desertores e muitos ficaram a residir nesses
países. Como oficiais com formação universitária,
alguns de nós, de tendências esquerdistas e que
alinhavam, tinham a consciência que a solução não
era prosseguir a guerra mas sim, no terreno,
controlá-la e, mesmo, sabotá-la. Por exemplo, como
ex-oficial, posso dizer que falseávamos relatórios
de operações.
Na minha Companhia
chegámos mesmo a retirar o poder administrativo dos
sargentos que, como muitos, desviavam dinheiro na
gestão da Unidade. Corrupções deste género não eram
raras e todos se lembrarão do caso do Major Valentim
Loureiro que foi suspenso da carreira militar e,
mais tarde, reintegrado depois do 25 Abril, uma
ironia, precisamente porque na sua posição de
oficial de Administração Militar, tinha a faca e o
queijo na mão. Era, na verdade, muito fácil, golpear
o sistema, pois a maior parte dos oficiais
superiores estava farta da guerra onde não se
vislumbrava solução. Pessoalmente, tinha conversas
com o meu Comandante de Batalhão sobre este assunto,
pois um militar de carreira não se importa de ir
para a guerra, quer é que ela tenha um princípio e
um fim e o fim da Guerra Colonial não se vislumbrava
de todo. Mais: o apoio logístico e operacional era
deplorável.
Cheguei a
Moçambique em Março de 1971 - depois de uma viagem
de 21 dias no navio Niassa com dois Batalhões a
bordo, 1.500 pessoas, os soldados a viajarem em
condições infra humanas nos porões, tal como gado -
no rescaldo da Operação Nó Górdio, planeada pelo
General Kaúlza de Arriaga, um ultra do regime e que
até era um óptimo estratega e que, quando a
imaginou, era para ganhar. Quando o general
solicitou mais dinheiro ao poder central para
terminar a operação, foi-lhe recusada a pretensão,
pois, era uma ameaça para Marcelo Caetano. Kaúlza de
Arriaga era ambicioso e inteligente e não custa
imaginá-lo 100% vitorioso no terreno e a tentar
tomar, de seguida, o poder em Lisboa. A Frelimo
estava quase desfeita no terreno, contudo com os
seus quadros intactos, mas, a sua derrota esteve
eminente.
No vosso programa
notei a discussão em torno de Guerra Colonial e
Guerra do Ultramar, mas ninguém fez notar que a
dicotomia de Esquerda/Direita na época, era bem
definida e não como agora, que está diluída. Assim
como, também ninguém se referiu à situação
particular de Angola onde nasci em 1948. Ir para
Angola, estabelecer-se e fazer uma vida, não era
para todos. Eram pessoas escolhidas com emprego
assegurado e, sobretudo, aqueles que não sendo
activistas de Esquerda, eram assim mantidos
afastados, caso de meu pai que trabalhou na
ex-Diamang, Companhia de Diamantes de Angola, de
1945 a 75. Na verdade, em Angola, os tentáculos da
Pide eram mais ténues. Em Angola, quando o MPLA se
constituiu, englobava poucos negros, bastantes
mulatos e alguns brancos que sustentavam a
Independência negociada mas mantendo uma relação
próxima com a ‘Metrópole’. Nada disto Salazar
contemplou, nascendo assim o movimento armado. O
novo regime do 25 de Abril, feito por oficiais
descontentes com a Guerra Colonial/Ultramar, um
golpe de Estado, despachou à pressa a independência,
originando a guerra civil com os resultados que se
conhecem, ou seja, um tremendo erro histórico que
permitiu todo o tipo de corrupção e a depauperação
de um povo cuja terra é das mais ricas do planeta.
Em 1974, a guerra em Angola estava circunscrita a
pequenas zonas no Leste e a Unita fazia jogo duplo
com o colonizador atacando o MPLA que se enfraquecia
cada vez mais.
Vivemos um tempo em
que, finalmente, podemos historiar este assunto.
Elogio,
naturalmente, o vosso trabalho, bem como o de
Joaquim Furtado.
Contudo, a ausência
de testemunhas mais credíveis é o que lamento.
Ser-vos-ia
interessante visitar o site dos ex-combatentes
http://ultramar.terraweb.biz pois aqui se
depositam memórias daquilo que mais ficou em nós,
malgré tout, o espírito de corpo e de irmandade
que nos une para sempre, independentemente de se ser
a favor ou contra.
Cordialmente,
Rui Pedroso Neves
----------------------------------------------------
Salvador
Leonardo Grilo da Silva
Alferes Mil.º
Comandante de GE's
– (Vila Cabral), Moçambique Jul73-Dez74
de: Salvador Silva
para:
UTW
data: 16 de Outubro
de 2007 às 16:29
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Caríssimos:
Subscrevo
inteiramente o que diz na sua mensagem o Ex-Alf.
Mil.º Victor Baião. É caso para dizer que me tirou
as palavras da boca.
Acrescento, no
entanto, que estou curioso de conhecer a série A
GUERRA... que hoje vai começar na RTP, mas pela
intervenção que ontem ouvi ao seu autor (Joaquim
Furtado) ponho em dúvida o grau de isenção da mesma.
Veremos...
Como este "site",
não estou aqui para justificar ou denegrir as razões
da Guerra, mas gostaria de ver este País a assumir o
seu passado recente e a não ter "vergonha" da
geração que tanto sacrificou e tão mal tem tratado.
Quero ainda
confirmar a minha grande admiração pela intervenção
do representante da Assoc. dos Deficientes das F.A.,
mas lembrar-lhe que também devem olhar para dentro e
limpar o mau que também por lá há.
Saudações Amigas
Salvador Silva
----------------------------------------------------
António Barbas Pires
Furriel Mil.º de Infantaria
CArt3514 e CCav3517 – (ZML), Angola Out72-Out74
de: Antonio Pires
para:
UTW
data: 16 de Outubro
de 2007 às 16:58
data: Debate Prós e Contras em 15/10, na RTP1 sobre
a Guerra do Ultramar
Caros Companheiros
Sinceramente,
depois de tanta publicidade, esperava mais e bem
mais do debate.
Os aspectos
negativos começam logo pelos intervenientes
seleccionados pelos realizadores do programa.
Continua a apostar-se nas opiniões de quem na
realidade, não sofreu as agruras reais da guerra. O
Dr. Jaime Nogueira Pinto é um estudioso do tema,
tudo bem, mas não participou na guerra. Pareceu-me
que o Cor. Matos Gomes é um historiador e está bem
documentado. Mas será que isso é suficiente? Para
mim claramente que o não é. Quando ele, em
determinado momento do programa, desdenha dos
milicianos pois estes "… se limitavam a fazer uma
comissão de dois anos, enquanto os do quadro
permanente faziam comissões seguidas…", limita-se a
confirmar que para ele a guerra não passa de tomadas
de decisão em gabinete, pois era, com honrosas
excepções, o que os militares do quadro permanente
faziam.
Tanto ele como os
restantes, parecem ignorar que os sargentos e
oficiais do quadro, ou estavam nas cidades, muitas
vezes acompanhados da mulher e filhos ou, no pior
caso, em quartéis no mato de onde não saíam. Nós,
milicianos, os verdadeiros combatentes, costumávamos
chamar-lhes "aramistas", pelo facto de estarem
sempre dentro do arame farpado. Antes de ir cumprir
o meu serviço militar obrigatório, tive oportunidade
de conhecer por motivos profissionais, imensos
desses senhores, "cansados da guerra" que metiam
"cunhas" para serem escolhidos para nova comissão.
Os outros
convidados são meros teóricos e/ou fazedores da
opinião pública. Alguns deles dizem-se
ex-combatentes mas vê-se que nunca estiveram debaixo
de fogo, ao contrário do Sargento dos Comandos
Africanos, esse sim combatente em toda a acepção da
palavra.
É vergonhoso a
forma como alguns dos presentes, tentaram confundir
este homem relativamente à sua nacionalidade. Creio
que ele é mais português do que a maioria dos que o
tentaram enxovalhar!
Como é alguns dos
presentes podem indignar-se, com a forma como o
Estado Português trata os ex-combatentes, se eles
estão bem na vida graças ao sangue, suor e lágrimas,
vertidos por esses mesmos milicianos de quem eles
desdenham?
No debate onde é
que estavam os representantes dos que fizeram a
guerra no terreno? Onde é que estavam os homens do
SMO?
Espero que o
trabalho do jornalista consiga superar estes
preconceitos.
Realmente basear
uma história em quem na realidade não participou
activamente nela, é apenas perder mais uma
oportunidade de dar a conhecer a realidade nua e
crua dessa guerra que todos parecem querer meter
debaixo do tapete. Se o anterior regime o fazia, o
actual fá-lo ainda com maior acuidade. Provavelmente
por muitos dos responsáveis actuais terem sido
refractários ou desertores.
Já repararam que o
País está cheio de monumentos aos combatentes da 1ª
Grande Guerra e quase não existem aos que combateram
na Guerra do Ultramar?
No entanto esta
última durou mais e causou mais vitimas que a outra.
Dá para perceber?
Com a
descolonização fechou-se um ciclo da história de
Portugal.
Não será tão cedo
que Portugal viverá momentos tão gloriosos.
Provavelmente nunca
mais acontecerá.
Na história do
universo cada Nação parece ter um momento de glória.
Nós vivemo-lo entre os fins do século XIV e os do
século XX. Tudo na vida tem um princípio e um fim.
Em minha opinião foi pena este ciclo, que tinha de
mesmo de acabar, ter sido encerrado da forma
vergonhosa como o foi.
Agora resta honrar
aqueles que se bateram e tudo deram, em alguns casos
a própria vida, à sua Pátria.
Cumprimentos
António Pires
----------------------------------------------------
José
Carmindo Vigário dos Santos
Furriel Mil.º de
Infantaria
CCac2359 – (ZOT), Moçambique Mai68-Mai70
de: José Carmindo
Vigário dos Santos
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 18:00
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Fiquei
surpreendido, mais pela negativa do que pela
positiva, isto porque me pareceu que não foram
abordados os verdadeiros problemas porque passamos,
nós os milicianos e soldados, bem como algumas das
excepções dos militares do quadro permanente.
Vou apenas abordar
uma das questões, que levou a que aquela guerra
nunca pudesse ser vencida. Fiz parte «como furriel
miliciano» da Companhia de Caçadores n.º 2359,
integrada no B. Caç. 2842, que esteve em Moçambique
no período de Abril/1968 a Junho/1970, mais
concretamente no norte do Distrito de Tete (Vuende -
Furancungo - Vila Gamito - Bene – Têmboa), entre
outras localidades.
Quando parti da
metrópole «era assim que se dizia ao tempo», tal
como quase todos os milicianos e soldados e cabos,
estava convencido da verdade dos motivos que nos
levavam para aquela terra, deixando para trás os
familiares, mas chegado a Lourenço Marque «hoje
Maputo», logo verifiquei da mentira ao tomar
conhecimento «in loco» do regime quase de apartaid.
Que ali se praticava, com algumas raras e honrosas
excepções.
Mas o mais grave
que isso pude constatar no interior daquelas
regiões, mato e mais mato, onde os cantineiros
«comerciantes portugueses que vendiam tudo,
incluindo medicamentos» exploravam os negros até ao
tutano «exemplos o sal era vendido ao preço do ouro,
os trabalhadores agrícolas, trabalhavam o ano
inteiro na cultura do algodão «cultura predominante
da zona» e no fim do ano ao fazerem as contas
ficavam sempre a dever dinheiro à companhia
algodoeira, que apenas se limitava a lavrar as
terras e fornecer as sementes, outros eram
espancados após a época das culturas, para não lhe
pagarem os míseros ordenados – era comum ver os
alfaiates a trabalharem nas varandas das ditas
cantinas, nas mesmas condições dos outros
trabalhadores, cantineiros, alguns dos quais não
conheciam uma letra do tamanho de um palácio mas que
eram gente grande na terra, que eram protegidos por
alguns capangas, e que jogavam com ambas as facções
«militares portugueses e da frelimo», etc. etc……..
Recordo uma vez
quando entreguei numa povoação um saco de 30 kg. de
sal, para seu consumo «aquela gente tinha tudo para
viver menos o sal», quase me idolatravam,
posteriormente faziam visitas ao quartel para
presentearem a nossa furriela vigário «era assim que
me chamavam», com cabritos, cucos «galinhas», porcos
e até um bovino. Pobres dos negros que causticados
pelo regime, sabiam reconhecer aqueles que lhes
fazia bem.
Esta era uma das
razões porque a grande maioria dos ditos cantineiros
não gostarem da permanência do exército português
junto deles, estragava-lhes o negócio.
Histórias destas
quase todos os militares que como eu serviram o país
como carne para canhão, verificaram e que
contribuíram e de que maneira para o desfecho final,
com erros como tudo na vida, mas desafio muitos dos
críticos da nossa praça a justificarem porque por
várias maneiras e feitios, tudo fizeram para não
embarcarem.
Para terminar posso
garantir que não foram os guerrilheiros da frelimo,
que mais problemas nos criaram, mas sim aqueles
intrusos, que se dedicavam de forma sistemática e
gananciosa, à exploração dos negros para depois
aparecerem na metrópole, como heróis.
Não posso nem devo
generalizar, porque reconheço que como tudo na vida,
também lá no mato havia gente honesta, mas coitados
não saíram da cepa torta.
Mas meus amigos ou
eu, estou errado ou tive o azar de ter verificado
aquelas situações, ou então o mundo está distorcido,
por aquilo que ouço de muita boa gente.
José Carmindo
Vigário dos Santos
----------------------------------------------------
Carlos Gouveia
Soldado
CCav2752 – (Cabo
Delgado e Zambézia), Moçambique Set70-Nov72
de: Carlos Gouveia
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 18:13
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Caros amigos e
Camaradas
Vi com muita
atenção o programa Prós e Contras transmitido no dia
15 embora tenha sido bastante tarde para mim visto
eu viver na Alemanha e aqui ser uma hora a mais que
em Portugal, o entusiasmo foi tão grande que
me levou estar a ver televisão até cerca das três
horas da manhã.
Este tema na minha
perspectiva não trouxe nada de novo até que a
discussão dirigida pela jornalista Fátima Ferreira,
não deu oportunidade aos ex-militares presentes e
que eram muitos, esses sim talvez tivessem muito a
contar pelo sofrimento que tiveram mas não, apenas
foram entrevistados os Senhores Coronéis e Generais
os mesmo que iam para o Ultramar quase voluntários
com regalias formidáveis ordenados chorudos e com
mais uma promoção garantida no fim de cada comissão.
Alguns desses
presentes, e outros a guerra colonial foi um poco e
ouro onde ganharam bons ordenados, enquanto que os
ex-militares presentes, aqueles que deram o corpo ao
manifesto, o que ganharam eles? Eu vi-os ontem e
vocês também, estou a referir-me a esses bravos
ex-soldados que ficaram feridos para toda vida e
abandonados como (cães) desculpem-me esta expressão,
hoje ninguém se lembra deles é um escândalo uma
vergonha, esses bravos homens que combateram nas
Colónias defendendo o que não era deles mas sim uma
Colónia Portuguesa.
Voltando a mesma
entrevista, é fácil falar-se hoje e dizer que a
guerra foi injusta e que o Salazar foi o culpado.
Finalmente. Falando
dos tais chamados Retornados ou Desapropriados, não
terão sido alguns desses senhores que durante muitos
e muitos anos exploraram os indígenas até que depois
enfim revoltaram-se ajudados por outros mais
inteligentes porque os macondes ou macuas de
Mocambique nada sabiam de independência e muito
menos de guerra apenas se contentavam com a farinha
que os cantineiros a troco de cereais e outras mais
valias lhes davam como pagamento.
Eu estive em
Moçambique fazendo parte da Companhia de Cavalaria
2752/BCAV.2923, estive na Serra do Mapé em Macomia e
sofri na pele, o que não desejava a ninguém assim
como os meus camaradas tudo do mais desumano
possível porque para alguns senhores oficiais havia
tudo, para nós (carne para canhão), nada havia
enquanto nos bebíamos água do rio Messalo esses
Senhores bebiam água engarrafada, e vem-me
então agora para a televisão fazer de Madalena
Arrependida. Muito mais havia para escrever mas fica
para outra oportunidade.
Agradeço do fundo
coração a toda a liga dos combatentes que muito tem
ajudado e continuam ajudar, a todos Muito OBRIGADO
Carlos Gouveia
----------------------------------------------------
J. Cabral
Fuzileiro
Companhia de Fuzileiros – Guiné 1970-1972
de: j. cabral
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 18:17
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Meus Caros
Camaradas de Armas e Combate,
- Desiludido, uma
pobreza de programa (!...), uma grande decepção
(!...), quando sabemos que a Dr.ª Fátima Campos
Ferreira quando se prepara domina, não foi o caso!
Não quis. Percebeu-se. Perdeu o programa! "Vazio" -
Guerra do Ultramar?! Colonial?! África?! Tinha
objectivo? Sim.
- O
painel envergonhava, apesar de haver lá uma cabeça,
mas que puxa para um ultra "lado" !!!!! Que pobreza.
Sinceramente.
- Os nossos
Militares do Quadro, quase todos, que pena, fazem
dó! Apesar de muito agradecido lhes
estar por me terem conduzido à Democracia.
- O
Senhor jornalista Furtado (....): O Sr.
jornalista Furtado , após tanto elogio da Dr.ª
Fátima, "explicou" quiz explicar, não sei porquê e
para quê o porquê do título do filme: Guerra do
Ultramar blá blá blá, Guerra Colonial blá blá blá,
Guerra de África blá blá blá, não, "por isso resolvi
-
Guerra -"!! Muito bem.
Que conversa vã.
A coincidência do
programa (precipitado), com a promoção da série
televisiva, para o dia seguinte....., é de mais!!!!
Tenham dó.
Um Parêntesis :
(
(*) No
final das emissões todas (em 2008), esperemos que
ponham, depressa, à venda ( vai dar boa massa) a
série televisiva, para
comprarmos,
depressa e de uma vez só, os DVD e oferecer,
depressa, aos nossos filhos e netos, para se
"deleitarem" a ver os seus pais e avós a pegar fogo
nas tabancas com mulheres crianças e velhos a
fugirem, a morrerem, cabeças espetadas em paus, a
malta a atacar e a ser atacada, berros, gritos,
horror, terror, fugir debaixo de fogo a morrer a
ficar ferida, as evacuações, os helicópteros os
aviões FIAT, os helicanhões, tiros, granadas,
bazucas, rajadas, as emboscadas, minas, pernas
esfaceladas, os golpes de mão, os prisioneiros, as
torturas, os combates, os massacres as bombas, os
bombardeamentos aos quartéis, a fome, a sede, o
cansaço, a ira, a raiva, o ódio, o medo a coragem, o
descontrolo, o pânico, a inconsciência, a
responsabilidade pesada, a irresponsabilidade, a
maluqueira, o poder, o despudor, as qualidades, as
incompetências, o desprezo de muitos responsáveis
pela vida dos seus e dos outros, o sofrimento a
dor, os caixões etc, enfim o inferno em terra. E
nós, nós vamos explicar os filmes, tintim por
tintim, o que fizemos e como fizemos!!!!!!!!!......)
É isto que querem,
puxar a raiva, ressentimentos, ódios dor e doença.
Pôr ácido em cima das feridas e pô-las a arder mais
ainda. Haja juízo. Basta. A Liberdade não é isto nem
para isto! Respeitem-nos e deixem-nos tranquilizar a
cabeça, caramba. Respeitem os pais e filhos dos
Veteranos, sobretudo dos que morreram.
Chega. Não chateiem
a gente. Respeitem os Povos de Angola, Guiné e
Moçambique. Eles gostam de nós e nós deles. É um
facto. É só lá ir.
Preocupem-se em
chatear quem nunca olha, ainda não olha e nunca
OLHOU, e continua a não querer olhar para nós.
TODOS.
RTP, Coragem. Coragem Dr.ª Fátima Campos Ferreira. Agarrem
um programa a sério, só para, em público, OBRIGAREM
Governantes e Deputados a respeitarem os
ex-combatentes e a eles próprios e a Instituição -
Liberdade - a que o 25 de Abril, que os
ex-combatentes também consubstanciaram,
lhes deu acesso.(1)
Querem programas da
realidade Ultramar/Colónias/África, façam-no. Sr.
jornalista Furtado, sem mostrar a violência da
Guerra (dos dois lados) que é o mais hediondo dos
actos.
Querem ver filmes
de Guerra - quem gosta -, vão ao Video-club e
aluguem filmes do Vietnam, mas estes são com actores
de cinema.
- No programa de
ontem, para falar desta Guerra, à parte dos
SALAZARES, a Dr.ª Fátima conhecia e sabia tudo o que
estava e esteve por trás da Guerra, durante e pós,
quer no contexto nacional quer Internacional! Não
conduziu a entrevista!
O nosso País era o
que era, uma tristeza. Os Governantes outra.
Nós, os que não
podíamos fugir ou não sabíamos ou não queríamos,
só tínhamos a Guerra, a Pide, a prisão ou a
deserção/refractário, até ao 25Abr, e as vidas a
andarem sempre para trás, sem expectativas. Isto
mostra a guerra sem tiros, sem prazer mórbido
- Os
nossos Veteranos fizeram tudo e só o que lhes
mandaram e porque os mandaram, mas fizeram e de que
maneira, apesar de tão mal tratados que eram e por
quem, e continuam a ser. Regressaram os que
regressaram
para logo emigrarem.
Era o que o País nos oferecia, Guerra e fome.
- A merecerem o
nosso maior destaque, estavam os nossos queridos
Veteranos camaradas deficientes, com elevadíssima
dignidade, uns SENHORES e que são os mais
merecedores do nosso maior respeito e de todo o
País. Foram o programa. Revejo-me na sua luta,
porque continuam a querer esquecê-los e a todos nós
(1)
- Quanto aos (*) "filmes"
- série televisiva - dispenso obrigado. Gostava
muito que os meus filhos não o vissem. Eles sabem
que o pai fez a Guerra e ainda está nela,
infelizmente. O parentesis (*) que fiz é um alerta.
Não revivam o Inferno.
Sejamos muito
respeitadores dos nossos portugueses Veteranos que
combateram e dos povos de lá e de cá.
(1)-"Conhece-se uma Nação pelos homens que criou,
mas também por aqueles de quem se recorda e venera."
- J. Kennedy. " O carácter de uma Nação vê-se pela
forma como trata os seus Veteranos"- Churchil. )
J. Cabral
Fuz.º (1970/72)
Guiné
----------------------------------------------------
António Inácio Correia Nogueira
CCac16 – (Alf milº Infª - Bachile), Guiné 1970-71
CCav3487 – (Cap milº - Belize, Lândana e Tábi),
Angola Mar72-Jun74
de: Inacio Nogueira
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 18:24
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Um debate adiado. Nem prós nem contras. Uma sessão
inerte, aqui e ali conflituosa e a deixar
transparecer os antagonismos ainda existentes entre
quem considera que o 25 de Abril foi fruto de
constrangimentos corporativos ou de opções políticas
conscientizadoras da mudança que se requeria para
Portugal.
A representatividade dos ex-combatentes não foi
cuidada. No painel, ex-oficiais do quadro, com
discursos muito difusos, generalistas e pouco
esclarecedores - e mais um - sempre o mesmo,
sinceramente já estamos fartos das suas teorias e da
sua verborreia repetitiva e estafada. Não se podia
ter escolhido um ex-combatente miliciano para o
painel?
Na plateia visualizámos as mesmas caras de sempre e
uma ampla representatividade de deficientes das
Forças Armadas. Pareceu-me bem esta última opção. É
preciso mostrar ao país, sem peias, as consequências
da guerra, para que se possa educar para a paz.
Quanto às caras, é tempo de dar voz a outras
fisionomias, às organizações de ex-combatentes em
concreto, o que não foi feito. Perdeu-se uma boa
oportunidade para mostrar o que era há quarenta
anos um combatente obrigado a sê-lo, e o que é hoje,
já que acarreta uma história de vida fustigada pela
guerra. Depois, as escolhas feitas para mostrar ao
país os nossos adversários de então, foi inverosímil
e insucedida. Os dois representantes pouco disseram,
nada acrescentaram e mostraram-se crispados. Má
escolha.
Um mau debate, sem ideias e com peias. Assim Não,
Dra!...
Inácio Nogueira
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David Jorge Pinto Barros Guimarães
Furriel Mil.º Atirador (especialista em Minas e
Armadilhas)
CArt2716 – (Xitole), Guiné Mai70-Mar72
de: David Guimarães
para:
LG & Camaradas
data: 16 de Outubro de 2007
AMIGOS: parece que vale a pena dizer - estive a ver
o programa de Fátima Campos Ferreira.
Estive ontem com muita atenção a ver aquele grande
encontro que se deu na Televisão - um debate, uma
troca de ideias... Não costumo ser muito dado com os
olhos pregados na Televisão pois por norma adormeço
- ontem não, não adormeci, estava à espera do
resultado, num encontro de gente séria... nisso
acredito... NÃO ADORMECI.
E lembrava-me da nossa caserna - mas que lindo termo
a nossa caserna, onde andamos há uns tempinhos a
dizer muito mais do que aquilo que ontem por lá se
disse... Houve um aflorar pela rama da guerra do
Ultramar (Colonial, de África), enfim aqueles termos
que lhe quiseram chamar... Lembro do termo que as
gentes boas da minha aldeia usava: guerra da nossa
África.
Não creio que qualquer jovem miliciano ou até
Oficial e Sargento do quadro de então desse
conotações políticas aos termos usados pelo nosso
povo ou pelos políticos de então... Com raras
excepções (e sabemos que existiram)... Assim uma
coisa ficava bem vincada na nossa cabeça: Guerra...
(depois, em África, nas nossas Colónias, Províncias
Ultramarinas e finalmente Ultramar, um termo mais
genérico).
Afloraram ontem como é que se podia ter evitado a
guerra, a inevitabilidade da guerra e até a
autenticidade da guerra, ou melhor, o nós tínhamos
razão... e hoje ainda lá poderíamos andar... Era
mais morto menos morto, porque afinal aquilo era
Portugal e na guerra há feridos e mortos... E foram
generais, coronéis e um douto Professor que ali se
juntaram todos para falarem. E eu fiquei a saber que
um era de direita e outro já carregado não sei de
que mal - ressaibiado... Por certo um daqueles que
ainda pensa em ir conquistar Olivença (não seria
ideia inédita!) e que falava à boa maneira da Antiga
Assembleia Nacional... Não sei como conseguiu ir até
Tenente Coronel... mas foi e deve ser bom homem...
pois eu também não sou mau rapaz... e no mundo só há
gente boa embora tenham todos o direito de pensar...
[...]
... Foi exactamente isso que pensei ontem:
novesforanada na base 10 - porque do que se disse
ontem sobrou pouco mais que nada, um senhor tenente
coronel que cumprimento efusivamente e com respeito,
não porque pense como ele, mas porque foi
exactamente ele que me manteve acordado... Porque
uma das coisas que gosto é de ouvir discursos
inflamados e patrióticos como esse - e por ele então
NÃO ADORMECI.
Um abraço, David Guimarães
----------------------------------------------------
Inácio Rodrigues da
Silva
1º Cabo Apontador de Armas Pesadas
CArt2732 – (Mansabá), Guiné Abr70-Mar72
de: Inácio Silva
para:
UTW
data: 16 de Outubro de 2007 às 22:41
assunto: Comentários acerca do debate sobre a Guerra
do Ultramar no Prós e Contras
Caros amigos e
ex-camaradas:
Presenciei ao
debate na RTP1, na passada segunda-feira
(15-10-2007), sobre a Guerra do Ultramar, de
princípio ao fim. Salvo as intervenções dos membros
das associações de defesa dos ex-combatentes, o
resto foi tudo "déjà vu": não vislumbrei nenhum
interesse, em especial.
Um debate em que a
maioria dos intervenientes são ou foram oficiais
superiores ou generais, obviamente, só poderia
versar sobre as questões belicistas ou
político-belicistas. Estes senhores não têm contas a
pedir ao Estado, porque, sendo do Quadro Permanente,
viram todas as suas regalias satisfeitas, na
plenitude. Onde estavam os milicianos e os praças?
Provavelmente na plateia. Alguém lhes perguntou
alguma coisa? Disseram de sua justiça? Nada!
Todos sabemos que
as guerras deixam sequelas de vária ordem: pais que
viram desaparecer os seus filhos, esposas, namoradas
e amigos que viram partir os seus entes queridos,
filhos órfãos de pai, muitos deles nem sequer
chegaram a ver o progenitor... Cidadãos deficientes
que, com muito esforço, sobrevivem, tentando
integrarem-se o melhor possível na sociedade, na
esperança de serem reconhecidos e apoiados pelo
Estado e por ela. Muitos deles são activos e
intervenientes e, graças à sua acção, procuram que o
seu presente e o futuro sejam passados com alguma
dignidade.
O que é que interessa debater e resolver depois de
uma guerra? Não será minimizar os danos e os
traumas sofridos, tanto os de ordem material, como
os de ordem afectiva, psicológica, moral, social e,
até, de cidadania? Nenhuma sociedade viverá em paz
consigo mesma se não entender, profundamente, esta
realidade! Não é enterrando a cabeça na areia, como
faz a avestruz, fazendo de conta que o que aconteceu
nada tem a ver consigo que os problemas são
resolvidos...
E o Estado
Português, representado pelos Órgãos de Soberania,
órgãos estes titulados por cidadãos eleitos pela
referida sociedade, o que tem feito? Mais de trinta
anos decorridos desde o fim da guerra (colonial, do
ultramar ou de libertação, como queiram), os
ex-combatentes lamentam, diariamente, o divórcio do
Estado, relativamente às consequências danosas, de
vária ordem, a que foram sujeitos e estão sofrendo
na pele, por terem sido OBRIGADOS a combater em
territórios que, na altura, os responsáveis por este
Estado, entenderam classificá-los como "Províncias
Ultramarinas" e, consequentemente, fazendo parte do
espaço português!!!
A guerra nunca será
esquecida, pelo menos por aquelas que a
protagonizaram ou por os que, para ela, foram
empurrados. Seria bom que os tais cidadãos,
eleitos democraticamente, representantes
dos Órgãos de Soberania não agissem com hipocrisia,
isto é, reconhecessem o esforço, o sacrifício, a
privação, o medo, a dor, a doença, a deficiência, a
morte, a perda de empregos, o atraso ou a
interrupção dos estudos, enfim, uma panóplia de
prejuízos de valor incalculável, e reconhecessem em
Lei, perante a sociedade que representam - antes que
os ex-combatentes morram - que é necessário
eliminar, de uma vez por todas, estas nódoas da
guerra, que teimam em eternizar-se...
Se tal não for
feito, os ex-combatentes morrerão com a mágoa de
terem combatido, em vão, sem o reconhecimento
devido, do Estado, a quem serviram. Mas os
políticos, titulares dos Órgãos de
Soberania, eleitos pela sociedade de que os
ex-combatentes são parte integrante, jamais
repousarão em paz e serão, sempre, considerados,
mesmo pelas gerações vindouras, como políticos
incultos, insensíveis, autistas e hipócritas.
Em conclusão: como
ex-combatente, não me revejo nesta forma de fazer
política. Desejo que fique claro que os políticos a
que me refiro são todos os que Portugal,
infelizmente, teve depois da instauração da
democracia "sistema
político em que a autoridade emana do conjunto dos
cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e
liberdade". Sou democrata e
não sou possuído por nenhum sentimento passadista ou
saudosista. Mas fico indignado e triste por assistir
a tanta indiferença e insensibilidade...
Cumprimentos a
todos.
Inácio Silva
----------------------------------------------------
Jacinto Ferreira
Gonçalves
Alferes Mil.º
CCac1804 – (Muidumbe
e Chibuto), Moçambique Nov67-Nov69
de: Jacinto
Gonçalves
para:
UTW
data: 17 de Outubro
de 2007 às 02:34
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Debate
Não correspondeu,
de todo, às minhas expectativas. Perdeu-se demasiado
tempo a discutir "o sexo dos anjos", se guerra o
Ultramar, se guerra colonial, ou qualquer outra
coisa. Restou pouca paciência para assistir até ao
fim. Aguardo com redobrada expectativa para assistir
à série televisiva so "A Guerra Colonial".
Jacinto Gonçalves
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Joaquim Ribeiro
Furriel Mil.º
CCav2691 – (Cambamba
e AM1/ZMN), Angola Abr70-Mai72
de: Joaquim Ribeiro
para:
UTW
data: 17 de Outubro
de 2007 às 12:00
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Caros ex
combatentes, companheiros e amigos
Para mim, este
debate foi uma vez mais uma desilusão.
Os intervenientes
não representavam claramente os operacionais, os que
na realidade davam o "corpo ao manifesto", à
excepção do sargento comando guineense e dos nossos
camaradas deficientes. Deu-se muito ênfase e
discutiu-se demasiado sobre questões marginais, como
por exemplo o nome pela qual era na época conhecida
a guerra, não foi aflorado o verdadeiro sentido do
conflito na óptica do combatente no teatro de
guerra, as suas angústias, o futuro, a sua realidade
como jovem.
Discutiu-se sim, e
de forma clara, a visão política/pessoal de alguns
intervenientes, o que ao fim e ao cabo, temos
assistido ao longo destes trinta e três anos. Um
facto positivo em todo o debate, foi o
reconhecimento geral que a guerra não foi perdida no
campo militar, mas sim no político.
Fico na expectativa
que a série "guerra" do sr. Joaquim Furtado,
esperando que este venha contribuir de uma vez por
todas, com serenidade, sem faltar à verdade, baseado
em factos reais e não absurdos, relatar o que foi o
teatro desta guerra da qual fomos actores e
protagonistas.
Saudações para
todos os ex combatentes
----------------------------------------------------
Carlos Alberto Correia Braz Vardasca
Soldado condutor
CCac3309 – (Nangade,
Tartibo e Balama), Moçambique Fev71-Mar73
de: Carlos Vardasca
para:
UTW
data: 17 de Outubro
de 2007 às 12:47
assunto: Re: guerra colonial no prós & contras RTP 1
Viva Companheiros
Devido ao interesse de que se revestia e à coragem
que pareceu existir por parte dos organizadores em
se começar a abordar a questão colonial sem
complexos, de facto também vi o debate no programa
“Prós&Contras na RTP1. Quero vos dizer que as minhas
expectativas foram goradas. Alguém nestes
comentários disse que “qualquer um de nós faria
melhor”, eu não iria tão longe, mas quase.
Parece impossível que em pleno século XXI, ainda
existam dúvidas se aquela guerra foi; Colonial; do
Ultramar ou de África, ou de outra coisa qualquer
que vierem a inventar no futuro, para tentarem
minimizar ou ocultar a existência daquele conflito
de trágicas recordações para quem nele participou.
Em minha opinião, aquele conflito tem toda a
legitimidade em se denominar como Guerra Colonial,
por razões históricas, que são abrangentes a
qualquer conceito político, sejam eles de direita ou
de esquerda, e que nenhum deles deve ignorar ou
fingir que não sabe, por conveniência ideológica. É
do conhecimento geral que aqueles territórios foram
ocupados (qual descobertas qual carapuça) e
que desde essa altura sempre houveram grandes lutas
para que os Portugueses se conseguissem instalar ao
longo das suas costas, o que contraria as velhas
ilustrações do livros da 4ª Classe onde se vêm os
nativos em poses subservientes (quase que a beijar
os pés aos navegadores que então iam chegando),
quando na realidade, desde esses tempos que foram
travadas grandes lutas contra as forças ocupantes
(sempre com o clero a abençoar os massacres que
então se foram desencadeando durante a ocupação
colonial) e onde se notabilizaram grandes guerreiros
nativos de que a história fala muito vagamente. É
claro que com a Conferência de Berlim (de 15 de
Novembro a 26 de Fevereiro de 1885) a questão
colonial se acentuou, com o esquartejar do
continente africano pelas diversas potências
coloniais, ficando continente africano como se
encontra hoje, como se fosse uma manta de retalhos,
o que tem originado e sido a causa dos diversos
conflitos de que nós todos temos conhecimento.
Portanto, carece de legitimidade dizer-se que o que
aconteceu na Guiné, Angola e Moçambique (1961-1974)
foi uma guerra do Ultramar “porque aquilo era
nosso” (diziam) quando se finge desconhecer
que a resistência ao ocupante inicia-se desde logo
naquele período que nos impingiram na escola e que
denominaram “descobertas”.
Quanto ao programa
e aos seus diversos intervenientes, considero que
foi muito pobre. Até da parte daqueles que se
esperava uma posição mais esclarecedora, ficaram-se
pelos termos técnicos, quase com receio em definir
que tipo de conflito tinha sido aquele, abstendo-se
de responder com factos históricos e documentais às
provocações de um certo general de que não me lembro
o nome, e que criaram a indignação por parte dos
deficientes da Forças Armadas. Não fosse a
intervenção do representante da FRELIMO, que me
pareceu mais sustentada e esclarecedora, ficaríamos
sem saber (se não tivéssemos vivido o conflito
colonial) da luta heróica de libertação travada
pelos povos das ex-colónias, uma vez que aquele
embaixador e representante do PAIGC “não soube dizer
nada” nem soube explicar porque foi preso pela PIDE
nem explicou como deve ser as causas do massacre no
Cais de Pidgiguiti em 1959.
Ficou claro que
naquele debate ficou quase tudo por dizer, e que
espero que o documentário a exibir na RTP ao longo
de 18 episódios seja mais esclarecedor, pelo menos
que faça lembrar aos que intencionalmente já estejam
esquecidos, dos verdadeiros dramas que aquele
conflito colonial provocou na sociedade portuguesa.
Por agora fico-me
por aqui...haverá decerto muito mais para se
dizer...
Um abraço solidário
de quem sobreviveu
Carlos Vardasca
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António Pereira de
Almeida
Capitão Mil.º de
Infantaria
CArt3503 e
3ª/BCac19 – (Mueda e Candulo), Moçambique
Out73-Jan75
de: Antonio Almeida
para:
UTW
data: quarta-feira,
17 de Outubro de 2007 às 16:35
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
O debate a que
acabamos de assistir, pese as expectativas criadas,
quanto a mim, falhou redondamente, pelo menos, num
dos objectivos que deveria atingir, isto é,
transmitir às gerações posteriores "à guerra" uma
ideia de quanto se passou, melhor, quem foram os
grandes responsáveis pela sua eclosão e prossecução.
O falhanço, repito,
quanto a mim, do debate, como aliás, tem acontecido,
sempre que se pretende abordar a questão da
"guerra", entre outros fica a dever-se à não
participação de ex-combatentes milicianos, nas
frentes de guerra.
António Pereira de
Almeida
----------------------------------------------------
Augusto Gouveia de
Sousa
1º Cabo corneteiro
CCac3440 – (Chimbila
e Barraca), Angola Out71-Dez73
de: Augusto Sousa
para:
UTW
data: 17 de Outubro
de 2007 às 21:42
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Caros internautas e
ex-combatentes esta modesta análise “roça”
aspectos políticos mas não podemos desassocia-los da
realidade.
O debate de ontem
na RTP 1 no programa Prós e Contras serviu quanto
mais não fosse para duas coisa.
A primeira é que
decorridos todos estes anos ficamos a saber – o que
para muitos não era já segredo – que essa maldita
guerra, SÓ se tornou uma realidade porque um homem,
sem a mínima noção da realidade político/social da
época assim o quis. Ou seja, a guerra só foi feita,
porque o velho ditador Salazar o entendeu.
Foi avisado pela
PIDE e outros militares, mas, casmurro e teimoso
qual avestruz de cabeça enterrada na areia, avançou
para a guerra.
Esta foi uma
constatação que ficou provada e que nenhum dos
intervenientes pôs em causa.
A segunda ilação
que se extraiu deste debate, foi a realidade nua e
crua das sequelas das três frentes de guerra.
Mortos, e
deficientes dos dois lados.
Os mortos que
ficaram sepultados nas antigas colónias, esquecidos
e ignorados pelos sucessivos governos do pós 25 de
Abril de 1974.
Os deficientes
desses novos países que lutaram em nome de Portugal,
abandonados à sua sorte.
Os de cá, poucos
menos de que abandonados, por uma Pátria que teima
em não querer assumir a sua responsabilidade.
Ficou demonstrado
até por um dos intervenientes Guineense, esse
abandono e a sua revolta foi bem patente.
Foi reconhecido por
todos esse abandono e considerado unanimemente uma
vergonha nacional, sendo inclusive afirmado que não
é de todo impossível mesmo a um país como o nosso,
fazer face aos encargos financeiros que esse
reconhecimento acarretará, até porque, como foi
afirmado, e é uma realidade, todos os ex-combatentes
tem mais de 55 anos.
Serviu também este
debate para alguns saudosistas talvez ainda sonhando
com um império deixarem isso claro.
Pena que não fosse
convidado nenhum governante.
Augusto Gouveia de
Sousa
----------------------------------------------------
José António B. da Silva
BCac16, BCac15 e
EAMM – (Beira, Mueda e Boane), Moçambique
Jun69-Ago71
de: José António
para:
UTW
data: 17 de Outubro de 2007 às 22:49
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Fui um combatente
da guerra do Ultramar ou guerra Colonial como
queiram chamar para mim tanto faz, sei dizer que
tive de ir até lá fazer o meu dever.
Gostei de ver o
dito programa com muito respeito, mas é de lamentar
de ainda hoje haver pessoas que entraram no debate
com grandes patentes e estarem contra certos
argumentos que foram ditos, enfim é de lamentar de
haver pessoas deste calibre, a vida deve-lhes correr
bem.
Lamento bastante
que o assunto dos mutilados de guerra não estar
resolvido.
Sempre ao vosso
dispor
Um combatente da
guerra Colonial ou Ultramar - Moçambique 1969 a 1971
Um abraço
José António Silva
----------------------------------------------------
Ilídio Fernando Santos Costa
1º Cabo mecânico
auto-rodas
CCacMP – (Mocímboa
da Praia), Moçambique 1966-1968
de: Ilídio Costa
para:
UTW
data: 17 de Outubro de 2007 às 23:02
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Habituado a
acompanhar o tema da GUERRA COLONIAL através de
livros e publicações e em alguns debates na TV
(tenho algumas gravações) já não me espanta o que
ali foi dito.
Entendo que foi
mais do mesmo.
Ilidio Costa
----------------------------------------------------
Luís Manuel Gonçalves da Cunha
Furriel Mil.º
CArt2718 e Destac.
Policial do Songo – (ZOT), Moçambique 1971-1972
de: Luis Cunha
para:
UTW
data: 18 de Outubro
de 2007 às 01:23
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Estimados
ex-combatentes
A propósito deste
debate, acho que o abandono aos combatentes
continua.
Foram os
combatentes do ar condicionado que dominaram o
programa.
Os que combateram
estavam lá em cadeira de rodas e de óculos escuros e
apenas deram escassos minutos ao seu representante.
Dos restantes…
ninguém.
Parabéns ao
sargento guineense que combateu ao nosso lado. Um
verdadeiro português que, com a razão que a história
documenta, provocou “gozo” na classe militar que
encheu os bolsos com a guerra e que mostrava serviço
à custa do sacrifício dos militares milicianos.
Aquela classe, não têm hoje problemas económicos,
pois continuam a comer donde sempre comeram,
enquanto que muitos milicianos vão vegetando porque
a pátria só foi pátria para lhe roubar os melhores
anos de vida, e a alguns, a própria vida.
Passar a 1ª parte
do programa a discutir o nome da guerra é, em meu
entender, completamente ridículo, pois seja qual for
o nome que lhe atribuam, os mortos e os deficientes
existem na mesma e nestes, quase não se falou.
Nem tão pouco se
falou nos combatentes sepultados nas colónias e que
jazem em sepulturas ao abandono, como se tivessem
morrido ao serviço de outra pátria qualquer. Será
que isto não faz parte de “A GUERRA” ?
De positivo,
somente encontrei a afirmação dum militar presente,
dizendo que o 25 de Abril não foi feito para dar a
liberdade aos portugueses nem a libertação às
colónias, mas sim como medida contestatária à lei
que permitia aos oficiais milicianos passar à frente
dos do quadro. Como se nós já o não soubéssemos.
Cumprimentos.
Luís Cunha
----------------------------------------------------
António Carlos Loureiro Cadete
Alferes Mil.º
BCac17, GE803 e
GE805 – (ZOT), Moçambique Out72-Dez74
de: António Cadete
para:
UTW
data: 18 de Outubro
de 2007 às 08:20
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Meus caros,
Só ontem vi o
debate porque estou no estrangeiro e os responsáveis
pela RTP entendem que nós não devemos ver este tipo
de programas em directo na RTPi. Como aqui são mais
duas horas que em Portugal imaginem a que horas me
fui deitar já que o programa, embora gravado, é
emitido à mesma hora em que vai para o ar na 2ª
feira em Portugal. Na verdade mais valia ter estado
a dormir tal foi o nível do programa. De qualquer
modo felicito a Jornalista e a Direcção de programas
por esta iniciativa porque a Guerra do Ultramar
deveria, na minha opinião, ser devidamente debatida,
enquanto ainda por cá andam alguns dos
ex-combatentes, pelo menos por duas ordens de
razões:
1. Mostrar às novas
gerações, nossos filhos e nossos netos, o que foi
suportar 13 anos de guerra em três frentes de
combate com as parcas condições que se dispunha na
altura. Simultaneamente clarificar as razões
próximas e remotas do inicio da “luta armada”,
desmistificar alguns tabus, mostrar quais os
verdadeiros interesses que fomentaram e alimentaram
essa luta, etc.
2. Tentar corrigir
( mais vale tarde que nunca ) a profunda vergonha
nacional, o enorme escândalo sucessivamente
camuflado que foi e é o abandono de ex-militares
Portugueses, eu direi mais, o abandono de
Portugueses, que cometeram a insensatez de servir a
Pátria, de acreditar que a Pátria não os abandonava
e foram atraiçoados (é provavelmente esta a palavra
mais adequada para referir este abandono nojento de
pessoas boas à sua sorte – e que sorte que muitos
tiveram !!!)
O programa de facto
pouco servirá para isso. A primeira parte foi a
discutir se era guerra colonial, do ultramar ou de
libertação. Simplesmente ridículo. Quando eu fui
para a guerra, em 1972, fui para o ULTRAMAR. Era
assim que era designado. Portanto, para mim, eu
estive na Guerra do Ultramar, mas se quiserem podem
chamar-lhe outra coisa qualquer porque isso não tem
interesse nenhum. Se não fossem as intervenções do
ex-furriel Comando Guineense, do Ten.Cor. Brandão
Ferreira e de mais dois ou três intervenientes do
público, certamente que teria sido um debate
absolutamente desinteressante, completamente inútil
e fastidioso. A intervenção do Cor. Comando Matos
Gomes, pessoa de quem sou amigo e pela qual tenho
muita consideração independentemente de não vermos
algumas coisas do mesmo modo, foi interessante
embora seja, obviamente, no que se refere não aos
factos narrados mas às conclusões tiradas, uma visão
dos acontecimentos, a sua própria visão, que, embora
respeitável é discutível.
Mesmo assim venham
mais debates e mais reportagens. Desde que isso
possa levar a alguma coisa útil serão sempre bem
vindos.
Um abraço para
todos os combatentes, da guerra do Ultramar, da
guerra Colonial, da guerra de Libertação e de todas
as guerras. Nós somos aqueles que generosamente
demos o corpo ao manifesto enquanto outros esperavam
para tirar os proveitos logo que a coisa ficasse
calma.
António Cadete
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Francisco José Branquinho de Almeida
Alferes Mil.º
graduado
BCac14 e GE201 –
(Cabo Delgado), Moçambique Ago68-Jan72
de: Francisco José
Branquinho
para:
UTW
data: 18 de Outubro de 2007 às 14:08
assunto: Prós e Contras da RTP
Caríssimo:
Fica a minha
opinião, muito sucinta e rápida sobre esse Programa:
Face às avalizadas opiniões já aqui expressas, pouco
mais teria a acrescentar, a propósito deste tema.
Revejo-me nas perspectivas da maioria dos que me
antecederam nos comentários, mormente as opiniões
esclarecidas dos primeiro e último intervenientes: o
Vítor Baião e o António Cadete.
Não deixei foi de, pela leitura que fiz de algumas
intervenções aqui postadas, de reforçar a convicção
que já ia tendo, passe a assumpção de que são
respeitáveis todos os pontos de vista pessoais, do
divisionismo que grassa no seio dos ex-combatentes,
com reflexos, dificilmente sanáveis, nas suas
organizações representativas.
Esquecemos o essencial, as dificuldades por que, na
maioria, passámos e da nossa dádiva à Pátria, quando
deviam ficar para outros patamares de discussão a
justeza ou injustiça daquela Guerra.
Quando, até, se lê por aqui terem sido os
"cantineiros" o odioso daquele conflito armado,
podemos bem aquilatar do disparate que grassa nas
mentes de alguns ex-combatentes. Como se alguém,
minimamente informado, pudesse "descobrir" nos
cantineiros espalhados pelo mato moçambicano, os
verdadeiros colonialistas!... É uma visão redutora,
injusta, verter nessa gente o ferrete duma guerra.
Como seria, alguém alijar esse labéu naqueles
desonestos militares que, sem escrúpulos, vendiam,
em proveito próprio, a esses mesmos "cantineiros do
mato", o azeite, as batatas, o bacalhau, o
gasóleo... destinado à logística das suas unidades!
Perdemo-nos com o acessório.
O essencial radica, como sempre defendi, que a
descolonização era inevitável. Falhou foi, duma
forma trágica e lesiva da consciência colectiva, no
tempo e no modo, porque, essa inevitabilidade que já
todos, ao tempo, reconheceríamos, não pressupunha
nem apontava para a forma atabalhoada, sem honra e
sem vergonha, como lhe demos desfecho, à revelia do
sentir das populações. Sem qualquer pressuposto
democrático, num país que, desde o 25A vem enchendo
a boca de Democracia.
Pior, bem mais humilhante, será a forma aviltante
como o Poder instituído, o mesmo que legisla e
decide em nome da Pátria, tem tratado os
ex-combatentes, os tais que lutaram em nome dessa
mesma Pátria (os Poderes mudam, mas a Pátria é a
mesma!...), os portugueses de sempre e os que o eram
nos territórios hoje independentes e que terceram
armas, sofreram e tombaram bem ao nosso lado, fosse
qual fosse a pigmentação da sua pele.
E, com os divisionismos já atrás aflorados, errando
os alvos, estamos claudicando perante aqueles que
não sabem, ou não querem, reconhecer a dívida que o
Estado tem para com os seus servidores que sofreram,
na carne e na alma, no cumprimento de uma missão que
a Pátria lhes impôs.
Saudações, companheiros... todos!
Francisco José Branquinho de Almeida
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José Maria Ribeiro da Silva Lessa
1º Cabo enfermeiro
CCac3513 – (Quiende),
Angola Abr72-Jun74
de: José Lessa
para:
UTW
data: 18 de Outubro
de 2007 às 15:45
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Para ser franco, só
tive paciência para ver cerca de uma hora o
programa.
Durante essa hora
disseram-se banalidades e procurou-se saber o “sexo
dos anjos”.
Guerra Colonial???
Guerra nas
províncias Ultramarinas???
O que eu gostava
que ali fosse tratado era o problema dos
Companheiros com Stress de Guerra.
A reforma miserável
que deram aos antigos combatentes.
O abandono a que
estão entregues muitos (para não dizer todos) Ex.
Combatentes.
O abandono do Ex.
Combatentes pelas famílias, etc etc.
Por tudo isto o
programa foi desmotivante e eu preferi ir dormir
porque no dia seguinte tinha que trabalhar.
Felizmente tenho
uma família.
Felizmente não sou
“stressado de guerra” o que não impede de ainda
acordar por vezes “alagado em agua” com sonhos que
tenho…
Mas todo o mal seja
esse.
Orgulho-me do
trabalho que fiz em 27 meses de Angola, a minha arma
era a seringa que tanto tratava companheiros como
aldeões de cor. Nunca dei um tiro… nem para caçar.
Nada me mói na
consciência, se algo de errado fiz, foi beber, beber
muito para que o tempo passa-se depressa, felizmente
não fiquei com mazelas infelizmente muitos de nós
não podem dizer o mesmo.
Um abraço para
todos e que a vida seja benevolente com todos.
José Lessa
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Paulo
Enes N. C. Lage Raposo
Alferes Mil.º de
Infantaria (Minas e Armadilhas)
CCac2405
(4ºPelotão) – (Galomaro e Dulombi), Guiné
Ago68-Mai70
de: Paulo Raposo
para:
LG & Camaradas
data: 19 de Outubro
de 2007
Depois de ver o
programa, estou a enviar os meus comentários ao que
lá foi dito.
Guerra Colonial, do
Ultramar ou de Libertação: Foram as opções que nos
deram, mas o nome tem de ser consensual e nacional.
Uma coisa são os regimes, outra é a Pátria.
Realmente a nossa
Guerra em África teve o seu começo na II Guerra
Mundial. Se esta foi um grande terramoto, a nossa
foi a sua réplica.
Assim, comecemos. A
Alemanha teve sempre na mira duas coisas, as suas
grandes aspirações:
1 - A Gross
Deutschland, ou seja, crescer a Alemanha para leste:
para isso lançaram colonatos pela Rússia dentro e ao
longo do rio Volga.
2 - Ter um porto de
mar de águas quentes que estivesse fora do alcance
dos ingleses. O único porto, antes dos Pirinéus, com
essas características, é o porto de Bordéus.
Hitler foi tão
popular, porque prometeu ao povo alemão estes dois
objectivos e conseguiu.
Agora vejamos a
vaga de fundo que isto causou. Para o exército
alemão entrar na Rússia, o Estado Maior forjou umas
cartas trocados com o Estado Maior do exército
vermelho, dando a impressão que este facilitaria a
entrada dos alemães por território russo com última
intenção de derrubar o comunismo.
Arranjaram maneira
de que estas cartas chegassem às mãos de Estaline
por mero descuido. Estaline acreditou e em
consequência decapitou os seus oficias superiores,
ou seja, decapitou o seu exército.
A entrada dos
alemães pela Rússia foi pão com manteiga até... O
General Von Paulus chegou a S. Petersburgo e cercou
a cidade a sul, e a norte foi cercada pelos
finlandeses. Esperavam que a cidade se rendesse pela
fome.
Acontece que os
russos conseguiram, apenas por um fio, continuar a
alimentar a cidade que resistiu comandada por
Kruschef às ordens de Estaline. Neste premeio os
alemães convidaram Costa Gomes e Spínola a visitar
esta frente e possivelmente entraram em contacto com
Van Paulus.
E aqui, em S.
Petersburgo, levantou-se uma vaga de fundo que
arrastou os alemães até ao Rio Elba. Parou aqui
porque estavam as tropas inglesas e americanas,
senão só teriam parado em Bordéus.
Foi no levantar
nesta vaga de fundo que apareceu pela primeira vez a
palavra Descolonização. Pois à medida que os russos
avançavam iam descolonizando ou limpando os
colonatos alemães a leste.
Diz-se também que,
quando Von Paulus se rendeu, ele e o seu Estado
Maior começaram a trabalhar para os russos ocupando
o lugar dos oficias superiores russos executados.
Portanto a palavra
colonato ou descolonização está carregada de ódio
entre russos e alemães.
Não nos diz
respeito, aqueles são potências continentais e nós
estivemos sempre ligados às potências marítimas. É
outro campeonato.
Portanto, recuso
Guerra Colonial. Pode ser Guerra do Ultramar, está
mais correcta mas não é consensual. Guerra da
Libertação, muito menos. O nosso inimigo da altura
chamava-lhe luta da libertação, não guerra.
Pois guerra implica
duas forças beligerantes. De um lado estávamos nós e
do outro?
Também não lhe
chamaram Guerra Civil, porquê? Portanto acho para
ser mais consensual será Guerra de África , ou do
Ultramar, se quisermos incluir a invasão de Goa.
Vou tentar escrever
sobre cada um dos assuntos que foram tratados no
debate.
É a minha opinião
que é tão válida como outra qualquer.
Paulo Lage Raposo
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Francisco Anselmo Mota das Dores
Furriel Mil.º
CCac3554 – (Mucumbura,
Nura e Milange), Moçambique Jul72-Set74
de: Francisco Mota
para:
UTW
data: 20 de Outubro
de 2007 às 14:25
assunto: Debate "Prós e Contra" Guerra do Ultramar,
colonial ou de Libertação
Gostei do programa,
mas, perdeu-se muito tempo em discutir "Guerra do
Ultramar ou Guerra Colonial".
O que é que a nós Ex-Combatentes, isto, nos diz?
Nada, digo eu. Que há feridas abertas, há e muitas.
É GUERRA e mais nada, e, foi feita por nós contra a
nossa vontade.
Agora o 1º Episódio de "GUERRA", foi uma lição de
história, e eu espero pela próxima aula.
Assim dá gosto ver Televisão e pode-se afirmar que
isto é serviço público de televisão.
Em conclusão o meu grande apreço ao trabalho do
Joaquim Furtado.
Aguardo os próximos episódios.
Francisco Dores
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Manuel A. Barreira Mendes
Furriel Mil.º
CCac1480 – (Mueda,
Sagal e Montepuez), Moçambique Nov65-Nov67
de: Barreira Mendes
para:
UTW
data: 22 de Outubro de 2007 às 17:42
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Caros ex.
combatentes, companheiros e amigos
Vi o debate no
passado dia 15 de Outubro e como já esperava foi uma
desilusão. Não trouxe nada de novo.
Pouco mais quero
acrescentar ao que disse o nosso companheiro, ex. Fur. Mil.
António Pires, a não ser confirmar que a maior parte
da guerra foi suportada pelos milicianos, quer
fossem, oficiais, sargentos ou praças. Apesar de
"só" fazermos dois anos de comissão em África,
conforme um oficial do quadro disse nesse debate,
fizemos mais km no mato, que muitos deles em 4 ou 5
comissões. Para eles ficavam a maioria dos louvores.
Mas se já
antes pouco esperávamos dos governantes,
presentemente também pouco podemos esperar. Depois
de termos gasto saúde e energia, alguns de nós agora
deficientes vamos sentir na pele a retirada de
alguns benefícios fiscais que até agora tínhamos
direito.
Um abraço a todos
os ex. combatentes
Barreira Mendes
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Manuel dos Santos Araújo
Soldado
CCac3496 – (Negomano
e Chingune), Moçambique Mar72-Jun74
de: araujoleao
para:
UTW
data: 24 de Outubro de 2007 às 16:21
assunto: Debate RTP 1 Programa Prós e Contras
15OUT2007
Neste "tu cá tu lá" da guerra, há muitos "clientes
do Café Capri", muitos "Administrativos", muita
gente do "ar condicionado", muitos que nunca comeram
a ração no mato e muitos que nunca cheiraram o
trotil. À partida estes programas são muito bons
para os tais "papagaios" com muito tempo de lazer a
começar pelo jornalista Furtado que me parece também
nunca foi tropa (?). Veremos o resto que virá a
seguir!
Manuel Araújo
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Rui
Manuel da Silva Felício
Alferes Mil.º
CCac2405 (3º
pelotão) – (Galomaro e Dulombi), Guiné Ago68-Mai70
de: Rui Felício
para:
LG & Camaradas
data: 25 de Outubro
de 2007
Uma perspectiva
diferente da Guerra.
Foi nessa altura do
25 de Abril que os seus autores definiram e
estabeleceram os argumentos "politicamente
correctos" que ainda hoje, como no citado programa
Prós e Contras, são defendidos 'à outrance'
exactamente por muitos daqueles que, por força da
sua natureza de militares profissionais, maiores
responsabilidades tiveram nesse arrastamento da
guerra e na forma ignominiosa como lhe foi posto
fim.
Que não se veja
neste meu reparo qualquer intransigência na defesa
de qualquer tese específica sobre a guerra de
África, mas o que me custa aceitar é que nunca seja
feito o confronto e o contraponto às teses correntes
que é comum ouvir naquele tipo de programas.
Começa a angustiar
que os intervenientes nestes debates sejam sempre os
mesmos e conhecidos militares que a todo o preço
pretendem convencer-nos da sua heroicidade, do seu
profissionalismo (... foi ali dito por um militar de
Abril: "nós não perdemos a guerra"... ), da sua
resistência política ao anterior regime, como se
alguma má consciência os obrigue a constantemente se
autoelogiarem.
Por tudo isto,
considero que as teses explanadas pelo Paulo Raposo
deveriam ser debatidas. Daí, certamente muita da luz
que tem estado oculta pudesse vir iluminar as
consciências... ou pelo menos dar-lhes uma
perspectiva diferente e, quiçá, mais verdadeira das
razões da guerra.
Não esquecerei
nunca o que ouvi da boca do nosso camarada [Victor
José Anastácio] Junqueira que, no almoço da herdade
da Ameira, afirmou com orgulho e sem qualquer
preconceito aquilo que não se ouve nunca nestes
debates televisivos.
Se bem te lembras,
ele estava emigrado em França e 'de motu proprio'
regressou a Portugal para ser mobilizado para a
guerra de África, porque esse era o seu dever...
Bem poderia ele ter
ficado em França e ter escapado a esse sacrifício, à
semelhança de tantos que a ela fugiram e que agora
têm o desplante de se considerarem heróis por terem
tido essa coragem de fugir...
Mas o Junqueira
[alferes milº CCac2753 Guiné Ago70-Jun72], era um
homem de carácter. E essa é a diferença... E quantos
"Junqueiras" não haverá?
No Prós e Contras
não me lembro de ter sido convidado nenhum. Ou se o
foi, não foi ouvido...
----------------------------------------------------
Joaquim
Manuel de Magalhães Mexia Alves
Alferes Mil.º de Operações Especiais
CArt3492, PelCacNat52 e CCac15 – (Xitole,
Mato Cão e Rio Udunduma, e Mansoa), Guiné
Dez71-Dez73
de: Joaquim Mexia
Alves
para:
LG & Camaradas
data: 29 de Outubro
de 2007
assunto: Prós e
Contras
Em 17 deste mês
[Outubro de 2007] enviei o mail abaixo. Como não
obtive qualquer resposta e o assunto me parece ser
actual, fiquei na dúvida se o receberam.
Sei muito bem que
nem todos os mails que enviamos são objecto de
publicação e, seja qual for o critério dos editores,
concordo à partida desde já com eles.
Sei que este
assunto é polémico mas também sei que se não
enfrentarmos as coisas que vivem nas nossas vidas,
dificilmente alcançaremos a paz sobre o nosso
passado.
Nós não fomos
políticos, fomos apenas os soldados que foram
chamados a combater pela sua Pátria,
independentemente da razão ou não razão da mesma. Em
todas as guerras há sempre diversas visões e a maior
parte delas colidem umas com as outras. Para termos
paz, pelo menos eu, não podemos atribuir virtudes só
a um dos lados e o outro ser o condenado.
Por isso falo em
termos militares, puramente militares, pois apenas
vejo, (parece-me), grandes feitos de um lado, e
defeitos do outro, ao qual eu pertencia.
É muito dificil
explicar onde quero chegar, e sei, repito, que o
assunto é polémico, mas não há dúvidas que falta
essa análise sem vergonhas, nem sentimentos de
culpa.
Estarei enganado? É
possivel, mas a verdade é que sempre me incomodou
dar certas coisas como adquiridas, por isso digo que
se calhar ainda é cedo para uma análise
desapaixonada deste ponto de vista.
Repito que nada
disto implica com a condenação da guerra, (esta e
qualquer outra), que ainda bem terminou e nunca
devia ter acontecido.
[...]
Também assisti ao
Prós e Contras, mas confesso que me começou a faltar
a pachorra e fui-me deitar.
Como o Luís, também
acho que aquele formato de programa, já não dá. Fico
sempre com a impressão que o programa se podia
chamar "Fátima e os seus convidados", pois a maior
parte das vezes ela fala mais que os convidados e
constantemente interrompe o discurso e linha de
pensamento dos mesmos.
Bem esta é a minha
apreciação, outros verão de modo diferente!
Quanto ao debate:
Apesar de já ter passado muito tempo, provavelmente
ainda é pouco, porque se nota que as paixões estão à
flor da pele. Ou seja todo o debate está eivado de
política e por isso mesmo muitas vezes carece de
objectividade.
Claro que seria
difícil falar de uma guerra destas sem falar da
política ou do ponto de vista político, mas a guerra
não se resume apenas à política.
Passaram a maior
parte do tempo a discutir se a guerra era do
ultramar, se colonial, se de libertação.Ora,
abóbora, conforme o pensamento de cada um ela terá a
designação que cada um lhe quer dar: (i) Do
ultramar, porque uns acreditavam ou queriam
acreditar servindo os seus interesses, que aqueles
territórios eram parte integrante do "todo
nacional"; (ii) Colonial por aqueles que viam ou
queriam ver, servindo os seus interesses, aqueles
territórios como colónias; (iii) De libertação por
aqueles que, sendo desses países a fizeram, porque
aqueles que sendo desses países os apoiaram, mas
lembrando que alguns, sendo desses países, com ela
não concordavam, e por isso não seria para eles de
libertação.
Como foi chamada a
guerra das Malvinas? Do ultramar pelos ingleses,
colonial pelos argentinos, de libertação pela
população, ou alguma população?
Não me parece que
isso seja muito importante, pelo menos para mim não
é.
Agora pode-se
discutir esta guerra do ponto de vista político, do
ponto de vista militar e do ponto de vista
politico-militar.
Naquele debate
parece-me ter-se discutido apenas do ponto de vista
político e, como tal, deu em nada. Acaba por se ver
e ouvir sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas,
citando outros, mas sem grandes provas que eles o
tenham dito, servindo-se de frases muitas vezes
tiradas de contexto, etc, etc.
E os milicianos? E
aqueles que não eram militares profissionais e
oriundos de diversos pensares e vivências? O que
pensam eles? Alguém viu? Alguém sabe? Alguém quer
saber?
Afinal quem fez a
guerra, na sua esmagadora maioria, foram os
militares de carreira ou os milicianos?
Com isto não estou
de modo nenhum a colocar de lado os militares
profissionais, que os há e muitos, cheios de
competência e dignidade, e que me orgulho de ter
servido sob o seu comando.
Mas a verdade, e é
a minha opinião, é que a maior parte tenta sempre
demonstrar que a guerra estava perdida, e isso
cheira-me muitas vezes a uma qualquer justificação!
Claro que a guerra
estava perdida! Estava perdida politicamente, como
qualquer guerra daquele tipo, e pelo desgaste e a
pressão internacional, estaria também perdida
militarmente, pois demorasse o tempo que demorasse
acabaria na independência daqueles povos.
Mas agora, e era
isso que gostava de ver debatido com verdade e sem
paixões políticas e outras, verdadeiramente porque
se diz que a guerra estava perdida militarmente na
Guiné?
É uma afirmação
permanente, com a qual eu não concordo, e até agora
ninguém me demonstrou o contrário.
Com isto não quero
dizer que não fico muito feliz com a independência
da Guiné, (gostava de ver um país próspero e um povo
feliz), mas sim que se pode analisar a situação, não
por dois ou três lugares ou acontecimentos, mas pelo
todo.
Vejamos a titulo de
exemplo:
Estive de Dezembro
de 1971 a Dezembro de 1973 na Guiné e durante esse
tempo, que eu saiba, não houve nenhuma emboscada ou
ataque a qualquer coluna na estrada Bambadinca/Xitole,
ou Bambadinca/Bafatá, ou Xitole/Saltinho, ou, julgo
eu, Bafatá/Gabu (Nova Lamego)
Não houve, que eu
me lembre, qualquer ataque a barcos no Geba, entre o
Xime e Bafatá.
Em Mansoa estávamos
a abrir a estrada de Jugudul, (salvo o erro),
Portogole e a mesma avançava, claro que com algumas
acções de guerra, mas nada que a impedisse.
Montei várias vezes
protecções a colunas na estrada entre Mansoa e
Mansabá, na zona do Morés e as colunas passaram sem
incidentes.
Isto são só alguns
exemplos que logicamente não retratam também o que
se passava em toda a Guiné, mas parece-me que os
trágicos episódios de Gadamael, Guileje e Guidage
acabaram por determinar essa informação que a Guerra
estava perdida militarmente.
Em muitas guerras,
em muitos lugares, ao longo da história do mundo, se
perderam algumas praças, mas não se perdeu a guerra.
Em Angola a guerra
estava perfeitamente controlada e isto penso que é
opinião geral. Em 74 e 75 fiz milhares de
quilómetros no interior de Angola e nem um pequeno
incidente aconteceu. Assim o esforço militar que se
estava a fazer em Angola, podia ser desviado em
parte para a Guiné, mormente Força Aérea com outras
capacidades, o que poderia mudar muita coisa na
Guiné.
Com isto não estou
a dizer que queria que a guerra continuasse! Não,
nem tal me passa pela cabeça, ainda bem que acabou,
para todos nós, Guineenses e Portugueses!
Apenas quero dizer
que, na minha opinião, a guerra militarmente não
estava perdida, ou pelo menos ainda não mo
conseguiram demonstrar.
Sei que esta é uma
abordagem polémica, e que a análise que aqui faço,
(se é que se pode chamar análise a este arrazoado de
ideias), não demonstra coisa nenhuma, mas talvez
suscite discussão sã sobre os méritos ou deméritos
das Forças Armadas Portuguesas, às quais
pertencemos, embora alguns dos seus elementos nos
queiram esquecer.
----------------------------------------------------
De um veterano e colaborador deste portal
de: [...]
para:
UTW
data: 19 de Novembro de 2007 às 17:23
assunto: O Terrorismo, sem artifícios linguísticos.
Reaberta que foi de
forma indecorosa a caixa-de-pandora anticolonialista
– e mercantilista! –, será talvez o momento de
proporcionar aos visitantes da s/página (e
respectivos items, como por exemplo "A Guerra"),
umas quantas verdades incontornáveis (como "eles"
dizem agora), relativas aos iniludíveis malefícios
do terrorismo, politicamente maquilhado na linguagem
amaciada de "movimentos de libertação", o qual – no
que a nós portugueses afectou (afecta) – ficou
amplamente descrito e ilustrado em livro acessível
através do link
http://ultramar.terraweb.biz/06livros_HoracioCaio.htm
Saudações,
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João Bravo da Mata
Alf Mil.º de Cavalaria
ECav181 – (Furancungo), Moçambique Jul61-Out63
Opinião:
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