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Angola - Um Capitão Miliciano com o Valor Militar com
Palma (Prata)
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Informação do nosso
colaborador
Ilídio Costa
Fonte:
"Lanceiro-Mor",
online
in:
http://lanceiromor.googlepages.com/capmilricardoal%C3%A7ada
Capitão Mil.º de
Infantaria Ricardo Alçada
Comandante da
Companhia de Cavalaria 2441 (Angola)
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conteúdos clique nas palavras sublinhadas
Um Capitão Mil.º com o Valor Militar com Palma (Prata),
de Carlos Dias de Almeida
Nota da Redacção do "Lanceiro Mor", de J. M. Santos
Costa
Louvor
Recordar grandes amigos, de Rudolfo Lavrador
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Um
Capitão Mil.º com o Valor Militar com Palma (Prata),
de Carlos Dias de Almeida
No
editorial último jornal [lanceiro n.º 29/30], o director JM
Santos Costa à laia de despedida, refere que a revista nem
sempre lembrou os cavaleiros e lanceiros mortos em combate e
como tal deveriam ser lembrados, e refere alguns dos nomes que
foram esquecidos. Para se poder falar neles é preciso tê-los
conhecido e saber das circunstâncias em que morreram.
Relativamente ao capitão
Alçada que não morreu em combate, mas amargurado e só, duma
forma muito pouco honrosa e pouco dignificante, privei com ele
inicialmente em Angola e depois na vida privada. Por isso aqui
deixo a minha homenagem e o testemunho, relembrando a sua
actividade de combatente e a curta vida triste e angustiada.
O Ricardo Alçada formou-se em
Direito em Lisboa, onde foi aluno do Profº Marcelo Caetano por
quem tinha grande estima e admiração. Em 1963/64 é mobilizado
para os Dembos num Batalhão de Caçadores do “Lá vai aço” do
então Ten-Cor Pessanha, que depois vim encontrar cmdt do CIOE.
Ricardo Alçada depois de cumprida a comissão em Angola é
condecorado (Cruz de Guerra?) regressa à metrópole e vai para
chefe de gabinete do ministro Rui Patrício. A sua vida parecia
ser um “mar de rosas” com todas as mordomias e facilidades na
situação de privilégio a que acedera. Passados poucos meses com
uma vida de solteirão, de boémia e de noitadas, “morre de
amores” por uma fadista da alta roda lisboeta. Não é
correspondido, e abandona tudo em Lisboa e oferece-se para
voltar para Angola numa nova comissão militar. A seu pedido
volta para os Dembos e por conveniência operacional vai comandar
uma C.Cav do BCav. 1927 em Nambuongongo no Sector de Santa
Eulália. Por divergência de opinião e do modo de actuação
operacional, questiona e altera a directiva do comando, é punido
disciplinarmente e transferido do Batalhão. O Cmdt do Sector,
Brigº Castro Serrano (que cercou as Caldas no 16Março74) achando
que não deveria deixar sair do seu Sector um oficial que
conhecia bem a região e com bons resultados operacionais,
coloca-o na Fazenda Madureira entre Nambuongongo e Zala a pouco
mais de uma dúzia de quilómetros destes batalhões, como reforço
ao sector e na sua dependência directa.
É nesta altura em Outubro de
1968 que o venho a conhecer “para o bem e para o mal dos meus
pecados”. O cap Alçada vai escoltar entre Nambuongongo e Zala, a
coluna do 1º escalão dos maçaricos em que eu seguia com a minha
Comp 2430, a 2431 e CCS/ BCav2854. Fizemos depois várias
operações conjuntas e tive oportunidade de o conhecer melhor. De
Zala fui reforçar a Madureira durante um mês com 2GC e tivemos
uma actividade operacional conjunta com alguns resultados devido
à sua experiência e do seu guia Zacarias. Nos dias de descanso
na Madureira jogávamos xadrez, mas ele sem a “Rainha”, pois fora
campeão no Sporting. A sua actuação como combatente poderá ser
um pouco desmistificada, mas era um operacional eficiente, com
muita calma e muito original, e os seus homens consideravam-no,
apesar de ter chegado muito depois à Companhia. Antes de sair
para uma operação fazia uma encenação e mentalização
psicológica, com o som roufenho dum gira-disco a pilhas do MNF
com um disco de Wagner com trechos da Tanauser e Loengrin,
gesticulando como um maestro, chegando a haver homens que o
imitavam e se concentravam com os compassos da musica
wagneriana. No regresso da operação, Wagner era substituído
pelos discos do seu amor não correspondido Teresa Tarouca até
esgotarem-se as pilhas, com a voz da sua diva do fado.
Não saía armado, apenas
levava um bordão e mais parecia um caminheiro ou um peregrino,
envolvendo-se num duplo cachecol camuflado que usava à maneira
da capa e batina. O seu guia com quem partilhava a arma e a
ração conhecia a maioria dos trilhos, e a fama e os resultados
do Cap Alçada devem-se fundamentalmente ao célebre Zacarias.
Lembro-me dum domingo à tarde
termos avistado do aquartelamento uma coluna de fumo na mata
Bala e o Alçada disse que ia mandar umas morteiradas aos turras.
Chamou a esquadra de morteiro 81 que reforçava a Madureira e só
fazia a limpeza das instalações, para fazer fogo para o local. O
pessoal do morteiro parecia desconhecer por completo o seu
material. O tubo e o bipé foram colocados no prato base sem
qualquer preparação no terreno, nem mesmo com sacos de terra.
Alertei para as condições precárias da segurança do prato-base e
da instabilidade do morteiro, mas a granada mesmo assim foi
lançada, o morteiro caiu e a granada foi noutra direcção e
atingiu a pocilga dos porcos nas imediações o que motivou
bifanas para o pessoal durante toda a semana.
O armamento capturado caso
fosse mais numeroso não era todo mencionado no relatório, e
sobrava para um saldo para a operação seguinte, obtendo assim
quase em permanência os melhores resultados do sector. Ao
próprio Brigadeiro parecia não incomodar este procedimento, e
condescendia para mostrar aos seus batalhões o empenhamento e a
eficiência operacional da sua companhia de reforço da Madureira.
Ao regressar novamente à
metrópole o dr Ricardo Alçada vai trabalhar como Chefe do
Departamento de Títulos do Banco de Angola na Rua da Prata. Em
Maio de 1969 venho a Lisboa por morte da minha mãe, e recebo uns
títulos da família para pagar o Imposto Sucessório. Não sabia o
que era um cheque e desconhecia totalmente o que eram Acções e
Obrigações. Fui à Bolsa situado no torreão contrário ao
Ministério do Exército, para a olhar “como um boi para um
palácio”, quando encontro o Alçada que saía da sessão da bolsa
desse dia. Disse-lhe ao que vinha e ele disse-me das suas
funções, e fi-lo meu gestor de títulos porque eu ainda estava em
Angola. Creio que depois ganhei muito dinheiro através do dr
Alçada, trocando as acções da minha carteira pela banca e
seguros. Entretanto vou para Moçambique e dá-se o 25 de Abril, e
foi tudo nacionalizado. O Alçada ficou sem o lugar no Banco e eu
fiquei sem as acções. Mandavam-lhe o vencimento todos os meses
sem fazer nada, que ele considerava ultrajante e humilhante.
Pensou por mais de uma vez voltar para Angola.
Em 10 de Junho de 1971 é
condecorado em Estremoz com a medalha de Valor Militar com Palma
pelo ministro da Defesa Silva Cunha. Eu estive integrado nas
forças em parada e depois do almoço dos VIP na Pousada, tive a
triste ideia de aceitar a sua boleia de regresso a Lisboa no seu
Mini Cooper, porque precisava de falar comigo. Passei tantos
sustos e arrepios na viagem com a velocidade e as
ultrapassagens, que antes de chegar a Montemor, inventei um tio
inexistente e a necessidade urgente de o contactar. Saí do carro
com tanta pressa que nem sei se me despedi. Antes de respirar
fundo para recuperar a calma e refazer-me dum estado de grande
nervosismo, não tive a capacidade de discernimento para
encontrar a estação de camionagem e não podendo esperar mais,
apanhei um de táxi para Lisboa. Sempre que passo pelo centro de
Montemor-o-Novo, lembro-me sempre desta viagem que felizmente
não teve consequências mas que eu não poderia continuar.
Custou-me cara, mas podia-me custar caríssima…
Ao longo do tempo almoçava com ele muitas vezes antes e depois
de 1974 e o seu tema preferido era os Dembos e a actuação das
nossas tropas, e depois a situação caótica de Angola e do País.
Nunca se sentiu constrangido por me ter feito perder ou ganhar,
nem falava nisso. A Bolsa era como uma guerra, ganhava-se e
perdia-se. Notava gradualmente algum excesso de bebida e cada
vez mais se insurgia e gesticulava em publico contra a situação
em Portugal e Angola, tornando-se a sua conversa demasiado
obsessiva.
Ricardo Alçada era
solteiro e vivia só com a mãe viúva na Avenida Manuel da Maia à
Alameda. Após a morte da mãe que o muito afectou, ficou sozinho
e amargurado, isolou-se ainda mais e passou a falar sozinho
chamando acintosamente a atenção de tudo e de todos, e foi
dispensado definitivamente de voltar às instalações do banco. A
sua vida foi-se deteriorando a tal ponto, e cada vez mais
isolado e com alguns excessos e com a saúde ressentida, foi
encontrado morto em casa pela mulher da limpeza numa manhã de
1980.
Carlos Dias de Almeida
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Nota da
Redacção do "Lanceiro
Mor", de J M Santos Costa
Nota da
Redacção: Conheci
o Ricardo, alguns tempos antes de morrer, através do
antigo lanceiro e nosso colaborador o saudoso Armando
Costa e Silva.
Aquando da apresentação, à mesa do restaurante, exclamou
de forma expontânea: "Afinal você tem um ar normal..."
(não sei o que lhe tinham contado a meu respeito, mas à
época eu era director do Cartão Unibanco).
Tinha um discurso directo, perspicaz e muito claro sobre
a situação que se vivia no nosso País e relativamente ao
Ultramar teve algumas saídas bem certeiras.
Contou que numa acção de rendição da sua companhia, um
Capitão "maçarico" quis montar guardas de flanco em
plena mata ao que ele retorquira:
«Ainda ensinam isso lá na
instrução? Aqui, se não quiser perder os seus homens,
anda-se em bicha de pirilau!...»
Lembrei-me deste comentário quando há tempos
li no livro "Capitães do Vento" de Pedro C (Ed. Roma), -
cuja crítica literária foi feita por João Sena no n.º
23 do "Lanceiro" - sobre a instrução desadequada dada a
tenentes milicianos depois de seis meses de guerra no
Ultramar.
Ente outros exemplos, cito:
«Logo no primeiro dia.
Dispostos em círculo [eram 42], o nosso tenente, num
grito de guerra arrebatado que ecoou pelas redondezas,
berrou:
- Rastejar até mim!
Ninguém se mexeu... O tenente nem queria acreditar.(...)
Um companheiro médico por sinal, dirigiu-se ao nosso
tenente em tom pedagógico.
- Olhe senhor tenente; não leve a mal a nossa atitude. É
que nós acabámos de chegar da guerra, coisa que o senhor
não conhece ainda, e rastejar não se usa por lá. Não faz
sentido. Isso é coisa de outros tempo. Lá a guerra é
outra. É diferente.»
No entanto, no meio destas "azelhices", também
havia uma ou outra orientação pertinente, como refere
neste livro a que lhe transmitiu o Cap Cav Taxa Araújo,
em Angola: «um dos
conselhos foi o da necessidade imperiosa de manter
sempre presente a hierarquia de comando (...). O facto
de todos os oficiais [da companhia] serem milicianos não
deveria constituir argumento para abdicar dessa regra».
JMSC
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Louvor
Capitão Miliciano de Infantaria
RICARDO ANTÓNIO DE FIGUEIREDO ALÇADA
da CCav 2441
— ANGOLA
Medalha de Prata de
Valor Militar c/ palma
«Condecorado com a medalha de
Prata de Valor Militar, com palma, nos termos do artigo
7.º, com referência ao § 1.º do artigo 51.º, do Regulamento da
Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, o Capitão Miliciano de
Infantaria, Ricardo António de Figueiredo Alçada, da
Companhia de Cavalaria 2441,
do Regimento de Cavalaria n.º 3, porque, durante a sua comissão
na Região Militar de Angola, demonstrou, exuberantemente,
possuir excepcionais qualidades de combatente, comprovada
capacidade de comando e forte determinação, traduzindo-se o seu
comportamento num invulgar espírito ofensivo, conjugado com
extraordinária calma debaixo de fogo, resultando que, tendo
comandado, sucessivamente, quatro companhias operacionais,
obteve sucessos espectaculares, dado que transmitiu ao pessoal
sob o seu comando aquelas características.
Confirmadas, em
absoluto, as altas virtudes e méritos militares, já largamente
evidenciados na execução de seis importantes operações
realizadas na primeira parte da sua comissão, pelo que lhe foi
concedido justo galardão, conduziu intensa actividade
operacional, por vezes por sua própria iniciativa,
judiciosamente planeada e excelentemente comandada, da qual já
resultaram êxitos rotundos, tendo em atenção os efectivos
empenhos e as condições difíceis em que a mesma se desenrolou,
causando numerosas baixas ao inimigo, aprisionamento de
elementos hostis, captura de armamento importante e outro
material e a destruição de várias instalações dos rebeldes.
É de salientar
que, a certa altura, tendo a sua Companhia sido deslocada para
uma zona de menor actividade operacional, manifestou desejo de
regressar ao sector donde saíra, o que foi autorizado, afirmando
o seu empenho em continuar a conduzir as operações nas áreas
mais difíceis.
Não se furtando
nunca a esforços, desprezando o perigo e arriscando a vida com
frequência, o Capitão Alçada pôs em constante evidência as suas
invulgares qualidades de firmeza, audácia, grande decisão e
arrojo em frente do inimigo, tendo praticado actos
extraordinários de rara abnegação, contribuindo, de forma
manifesta, para o invulgar rendimento das operações que
comandou, das quais resultaram grande lustre e honra para o
Exército Português.
- Transcrição da Portaria
publicada na OE n.º 13 — 2.ª série, de 16 de Junho de 1970
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Recordar grandes
amigos, de Rudolfo Lavrador
«Fiz
o COM no EPC em 1961, integrado num pelotão da P.M. do
qual faziam parte 13 ou 14
licenciados em Direito, da especialidade de "assuntos
civis/governo militar".
O
nosso destino seria o Estado Português da índia se não
tivesse ocorrido a invasão.
Desse tempo guardo uma profunda amizade e uma grande
saudade pelo meu querido amigo
Armando Costa e Silva
[com o autor da carta, à sua esq., na Reunião
dos Antigos Oficiais Milicianos no RL 2, em 10/10/87],
que tão devotado foi ao Regimento de Lanceiros 2.
Tal
como ele não cheguei a servir no Ultramar, mas vivi
intensamente esse período.
Outro meu grande amigo, e colega de curso (e de
carteira) foi o dr.
Ricardo António de Figueiredo Alçada.
Este meu querido amigo cumpriu uma primeira comissão em
Angola e, depois, fez o curso para
Comandantes de Companhia em Mafra. E, assim poude, como
voluntário, cumprir uma
segunda
comissão em Angola, como Capitão Miliciano de
Infantaria.
Por
opção dele esteve todo o tempo em zona operacional, e
foi muito justamente condecorado
com as
mais altas distinções (Medalhas de "Valor Militar" e
"Cruz de Guerra", ambas com
palma). Os
louvores que recebeu (e que tinha pudor em deixar ler)
são extremamente
significativos. Era o miliciano mais condecorado do
Exército Português.
Faleceu, como se diz na "Nota" de abertura do n.° 29/30
de "Lanceiro". "...amargurado com o
desenlance
final do nosso Ultramar"...
Efectivamente não falava quase em mais nada, e sentiu
uma grande revolta por não poder valer
aos que
combateram a seu lado, como o pisteiro
Zacarias, a
quem nunca poupou elogios, e
cuja morte
trágica tinha por certa.
Creio, porém, que na "Nota" há um pequeno lapso. O
Ricardo era de Infantaria. Talvez a
confusão resulte de um seu primo, Morais Alçada, que
esteve em Angola, ser, ao que penso
oficial de cavalaria.
Escrevo imbuído do amargo prazer de recordar grandes
amigos, e pelo imperativo de repor a
verdade.»
Rodolfo Lavrador,
Advogado
NR: A
confusão resulta, como se infere do artigo ao lado, ao
facto de o Ricardo Alçada ter comandado uma CCAv
pertencente ao BCav 1927.
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