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Angola - in "Correio da Manhã""A minha guerra" - 16Mai2010

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Fonte: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/implorava-aos-santos-e-a-n-sra-de-fatima

 

Custódio Pouseiro

Companhia de Caçadores 2356 / Regimento de Infantaria 2

Angola 1968/1970

depoimento recolhido por Maria Inês Almeida

16 Maio 2010 - 15h55
A minha guerra

“Implorava aos santos e à N. Sra. de Fátima”

Do lado do inimigo morreu o mercenário Margot Cruz. Enterrámo-lo. Na lápide lia-se: “Que a terra lhe seja leve e o cimento também”

Estávamos em Dezembro de 1968, eram pouco mais das 10 horas da manhã, um dia de sol radioso, como tantos. Vivia-se uma calmaria sufocante, a humidade de Cabinda, só por si, criava em nós, continentais, um estado doentio. De um momento para o outro tudo se alterou; da densa e quase intransponível floresta do Maiombe soavam sons de rajadas de metralhadoras, tiros, muitos tiros, rebentavam granadas e bazucadas que nos provocavam suores.

Em breves instantes os nossos lábios ficaram secos e frios, trocávamos olhares de espanto entre os camaradas. Assaltou-nos o medo. Seguiram-se momentos de incerteza. Em poucos segundos, talvez minutos, o radiotelegrafista dava-nos conta de um ataque a caminho do Sangamongo (destacamento que se situava a poucos quilómetros do local onde a selecção de futebol do Togo caiu numa emboscada quando, no ano passado, se deslocava para o Campeonato das Nações Africanas, em Luanda).

Corremos em busca das espingardas, subimos para as viaturas e aí fomos nós, o 3º e 4º pelotões em ajuda dos nossos camaradas. Estaríamos a cerca de 12 quilómetros e, à chegada, assistimos a um cenário de guerra arrepiante. Rebentamentos, gritos de dor dos que não morreram, viaturas em chamas... Cada um de nós, como pôde, procurava dar conforto aos feridos, como se de familiares se tratasse.

Veio a ordem para abrirmos fogo de defesa e, após segundos de puro silêncio, os mortos, em número de cinco, e os muitos feridos foram encaminhados para as viaturas e conduzidos ao nosso aquartelamento, no Chimbete. Desta emboscada resultou, da parte deles, um morto confirmado que, supomos, seria um comando "mercenário" de nome Margot Cruz, que sepultámos no nosso aquartelamento com uma lápide onde se podia ler: "Que a terra lhe seja leve e o cimento também. Tchimbete 22.12.1968".

(sublinhado nosso)

A imagem que se segue foi cedida por um Veterano à equipa do UTW

Organizada a retirada daquele inferno, iniciámos o regresso ao quartel. Sem darmos por isso, eu, o soldado que carregava a bazuca e o meu amigo furriel vimo-nos na frente da coluna porque, entretanto, as viaturas que nos protegiam seguiram com outra velocidade, em socorro dos feridos. Eu implorava a todos os santos e a Nossa Senhora de Fátima e o meu amigo à Rainha Santa, por ser de Coimbra. Lá nos amparámos um ao outro.

Já no aquartelamento, foi o transporte dos feridos para o helicóptero, rumo à cidade. Restavam os mortos.

VOLUNTÁRIOS

Chega-nos entretanto a ordem de que os mortos deverão seguir naquela noite, de 22 de Dezembro, para Cabinda, a cidade. "Aceitamos voluntários para os acompanhar", disseram. Entre ficar no aquartelamento, onde reinava a tristeza profunda, ou acompanhar os mortos, aceitei ser voluntário. Partimos ao cair da noite, foram 230 quilómetros de picada até Cabinda, em Berliet improvisada de carro funerário. Chegámos pelas cinco horas da manhã à morgue de Cabinda. Quando a morgue abriu, entregámos os corpos ou parte deles.

Dia e meio depois, foi o regresso ao inferno do Chimbete, onde estava o nosso aquartelamento. Pelas 22 horas da véspera de Natal de 1968 fomos recebidos com uma ‘anormalidade’, que ainda hoje, passados 41 anos, me causa arrepios . De Luanda tinham-nos enviado o ‘Conjunto João Paulo’ para nos confortar.

Nunca os esquecerei. Nem os mortos, nem os vivos. 

PERFIL

Nome: Custódio Pouseiro

Comissão: Angola (1968/70)

Força: Companhia de Caçadores 2356

Actualidade: 63 anos. É empresário

Custódio Pouseiro, Angola (1968-1970)

 

 

 

 

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