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Maio 2010 - 15h55
A minha guerra
“Implorava aos
santos e à N. Sra. de Fátima”
Do
lado do inimigo morreu o mercenário
Margot Cruz. Enterrámo-lo. Na lápide
lia-se: “Que a terra lhe seja leve e o
cimento também”
Estávamos em Dezembro de 1968, eram
pouco mais das 10 horas da manhã, um dia
de sol radioso, como tantos. Vivia-se
uma calmaria sufocante, a humidade de
Cabinda, só por si, criava em nós,
continentais, um estado doentio. De um
momento para o outro tudo se alterou; da
densa e quase intransponível floresta do
Maiombe soavam sons de rajadas de
metralhadoras, tiros, muitos tiros,
rebentavam granadas e bazucadas que nos
provocavam suores.
Em
breves instantes os nossos lábios
ficaram secos e frios, trocávamos
olhares de espanto entre os camaradas.
Assaltou-nos o medo. Seguiram-se
momentos de incerteza. Em poucos
segundos, talvez minutos, o
radiotelegrafista dava-nos conta de um
ataque a caminho do Sangamongo
(destacamento que se situava a poucos
quilómetros do local onde a selecção de
futebol do Togo caiu numa emboscada
quando, no ano passado, se deslocava
para o Campeonato das Nações Africanas,
em Luanda).
Corremos em busca das espingardas,
subimos para as viaturas e aí fomos nós,
o 3º e 4º pelotões em ajuda dos nossos
camaradas. Estaríamos a cerca de 12
quilómetros e, à chegada, assistimos a
um cenário de guerra arrepiante.
Rebentamentos, gritos de dor dos que não
morreram, viaturas em chamas... Cada um
de nós, como pôde, procurava dar
conforto aos feridos, como se de
familiares se tratasse.
Veio
a ordem para abrirmos fogo de defesa e,
após segundos de puro silêncio, os
mortos, em número de cinco, e os muitos
feridos foram encaminhados para as
viaturas e conduzidos ao nosso
aquartelamento, no Chimbete.
Desta emboscada
resultou, da parte deles, um morto
confirmado que, supomos, seria um
comando "mercenário" de nome Margot
Cruz, que sepultámos no nosso
aquartelamento com uma lápide onde se
podia ler: "Que a terra lhe seja leve e
o cimento também. Tchimbete 22.12.1968".
(sublinhado
nosso)
A imagem que se segue foi cedida por um
Veterano à equipa do UTW

Organizada a retirada daquele inferno,
iniciámos o regresso ao quartel. Sem
darmos por isso, eu, o soldado que
carregava a bazuca e o meu amigo furriel
vimo-nos na frente da coluna porque,
entretanto, as viaturas que nos
protegiam seguiram com outra velocidade,
em socorro dos feridos. Eu implorava a
todos os santos e a Nossa Senhora de
Fátima e o meu amigo à Rainha Santa, por
ser de Coimbra. Lá nos amparámos um ao
outro.
Já no
aquartelamento, foi o transporte dos
feridos para o helicóptero, rumo à
cidade. Restavam os mortos.
VOLUNTÁRIOS
Chega-nos entretanto a ordem de que os
mortos deverão seguir naquela noite, de
22 de Dezembro, para Cabinda, a cidade.
"Aceitamos voluntários para os
acompanhar", disseram. Entre ficar no
aquartelamento, onde reinava a tristeza
profunda, ou acompanhar os mortos,
aceitei ser voluntário. Partimos ao cair
da noite, foram 230 quilómetros de
picada até Cabinda, em Berliet
improvisada de carro funerário. Chegámos
pelas cinco horas da manhã à morgue de
Cabinda. Quando a morgue abriu,
entregámos os corpos ou parte deles.
Dia e
meio depois, foi o regresso ao inferno
do Chimbete, onde estava o nosso
aquartelamento. Pelas 22 horas da
véspera de Natal de 1968 fomos recebidos
com uma ‘anormalidade’, que ainda hoje,
passados 41 anos, me causa arrepios . De
Luanda tinham-nos enviado o ‘Conjunto
João Paulo’ para nos confortar.
Nunca
os esquecerei. Nem os mortos, nem os
vivos.
PERFIL
Nome:
Custódio Pouseiro
Comissão: Angola (1968/70)
Força: Companhia de Caçadores 2356
Actualidade: 63 anos. É empresário
Custódio Pouseiro, Angola
(1968-1970)