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Condecoração

HONRA E GLÓRIA - Ismael da Estrela, Soldado de Infantaria

 

HONRA E GLÓRIA

 

Ismael da Estrela

 

Soldado de Infantaria

 

não me ensinaram que vim aqui para defender a Pátria ameaçada? Aqui estou a cumprir o meu dever

 

17Abr1885 > 18Nov1961

 

Medalha de Torre e Espada

 

Medalha de cobre da Rainha Dona Amélia

 

Medalha de prata de Serviços Distintos ou Relevantes no Ultramar com a indicação de «Homenagem nacional aos Heróis da Ocupação do Império - 1943» (Decreto n.º 35:855, de 9 de Setembro de 1946 - publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 204)

 

 

Com a devida vénia, os elementos que se seguem foram

extraídos do sítio «Avatares da Memória»

 

Em 17 de Abril de 1885 nasceu em Baldos [Moimenta da Beira] aquele que viria a ser intitulado um dos “heróis da epopeia africana”. Ismael Estrela se chamava. Faleceu na mesma aldeia de Baldos com 75 anos de idade. Era filho de Maria da Estrela. Casou com D. Dulce dos Prazeres Formoso, com quem teve seis filhos: Aurora de Jesus Gonçalves, que casou com Armando Marques Gonçalves; Camila de Estrela Bernardino; D. Maria da Piedade Formoso Costa; António Augusto Gomes; João Gomes Formoso; e José Augusto Gomes. A primeira veio a residir no Cacém e todos os outros irmãos vieram a morar no Rio de Janeiro.


Alistado em 18 de Outubro de 1905 na Arma de Infantaria, passou em 26 de Outubro do mesmo ano ao Regimento de Infantaria n.º 9. Em 9 de Fevereiro do ano seguinte, já pronto na instrução de recruta, foi enviado para o serviço no Ultramar, seguindo para Angola no dia 1 de Julho de 1906.

A sua intervenção no processo militar no sul de Angola deu-se quando Portugal procurava afirmar os seus direitos de soberania num período durante o qual outras potências europeias pretendiam apoderar-se, abusivamente, e com manobras políticas, desses territórios. Quando a Europa verdadeiramente percebeu que as possessões coloniais portuguesas em África eram ricas virou para lá o seu foco político e económico. Dos tratados que dessa “corrida a África” surgiram, Portugal perdeu alguns territórios e viu-se na necessidade de demarcar as fronteiras do sul com a colónia alemã, e de leste, com a Rodésia.

Foi durante esse processo de reafirmação da soberania portuguesa nalguns territórios africanos, ocorrido nos inícios do século XX, que Ismael Estrela terá sobressaído. “Conformidade nas privações, resistência às fadigas, disciplina na acção, impetuosidade nos momentos requeridos, voluntarioso sacrifício”, são as qualidades que lhe foram reconhecidas no Jornal Correio Beirão de 22 de Dezembro de 1961, que era então propriedade da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira, dirigido por Amadeu Baptista Ferro, editado por Alexandre Gomes Cardia, redigido por António Frias e administrado por Fernando Pina. E, numa linguagem típica e simpática ao Estado Novo, rematava essa notícia: “as tropas portuguesas davam nessas campanhas grande prova das suas qualidades nativas para a guerra, sempre que a Pátria se encontrava ameaçada”.

Os dissentimentos eram vários nesses territórios e Portugal achou-se obrigado a intervir militarmente em várias frentes. A acção de Ismael Estrela destacou-se nesse contexto. Fez parte da expedição portuguesa Roçadas que entrou no Cumato, desbaratou as aguerridas hordas e conseguiu denodadamente pacificar e efectuar demarcações no distrito de Huila. Integrou, portanto, a guarnição do Forte de Roçadas, intervindo na sua defesa nos dias 15 e 18 de Janeiro de 1907.

Existe uma história acerca desta personagem, que consta ser verdadeira. A dada altura, no decorrer de forte tiroteio do combate dos Cumates, o capitão Farinha Beirão, comandante geral da Guarda Nacional Republicana, sob o comando do qual estava Ismael Estrela, terá visto o seu subordinado a fazer pontaria em postura desusada, com o braço esquerdo a suster a arma e o olho esquerdo a visar. Abeirou-se dele a fim de indagar o porquê da insólita atitude. Com uma franqueza rude típica de beirão, Ismael, cheio de dores, e apontando para o braço que levara o tiro, retorquiu assim: “não me ensinaram que vim aqui para defender a Pátria ameaçada? Aqui estou a cumprir o meu dever”. Esta atitude de resistência e sacrifício, vista como corajosa e digna, valeu-lhe do capitão a condecoração com a Torre e Espada, galardão atribuído aos autores de feitos de valor nos campos de batalha por actos de abnegação e coragem cívica e por altos e assinalados serviços à Humanidade, à Pátria, ou à República.

Resumindo cronologicamente o seu curriculum militar, dir-se-á que fez parte das operações levadas a cabo no Huila, de 18 de Agosto de 1906 a 31 de Outubro do mesmo ano. De 1 de Novembro a 31 de Março de 1907 esteve integrado na guarnição do Forte Roçadas. Em 27 de Janeiro de 1908, por questões de saúde precária, na sucessão dos ferimentos alcançados em combate, a Junta de Saúde Provincial fê-lo retornar à metrópole, na condição de reformado, nos termos do artigo 3.º do decreto de 19 de Dezembro de 1907, com direito a pensão máxima.

Recebeu várias condecorações, designadamente a já referenciada Antiga e Muito Nobre Ordem de Torre e Espada; a medalha de cobre Rainha D. Amélia; e foi ainda agraciado pelo então ministro das colónias, Prof. Marcelo Caetano, com a medalha de prata dos Serviços Distintos do Ultramar, na sequência da homenagem prestada em Maio de 1943 aos “heróis da ocupação do império”.

No já citado artigo que sobre esta figura escreveu o Jornal Correio Beirão, um histórico órgão de comunicação social moimentense que sempre deu destaque aos valerosos feitos que nas mais várias áreas foram protagonizados pelos seus conterrâneos espalhados pelas sete partidas do mundo, constava que o militar natural de Baldos era um homem do povo, simples, modesto, sem vaidades.

Era, por tudo o referido, profissional e pessoalmente, uma pessoa estimada, pelo que muitos foram os que, consternados com a sua morte, estiveram presentes e se fizeram representar nas suas exéquias fúnebres, sobretudo os moradores de Baldos, Cabaços e Vilar, tendo ainda de Moimenta da Beira comparecido uma representação da Mocidade Portuguesa pertencente ao núcleo do Externato Infante D. Henrique.


Trata-se, em suma, de um filho do concelho de Moimenta da Beira, cuja memória da sua vida e obra importa avivar, pois independentemente da legitimidade ou não das tarefas que profissionalmente foi chamado a desempenhar, foi uma personalidade reconhecida “fora da terra berço” e apresentado muitas vezes como um exemplo de determinação e coragem a seguir.

 

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(transcrição)

 

HOMENAGEM PÓSTUMA A UM HERÓI das campanhas do Ultramar


MOIMENTA DA BEIRA, 2. — Foi hoje prestada homenagem póstuma a Ismael Estrela, mais conhecido na freguesia de Baldas, pelo «Herói de Baldas», por ter tornado parte nas campanhas de Africa e pela sua acção na defesa do Forte Roçadas, de 15 a 18 de Janeiro de 1907. Em plena luta, foi atingido com um tiro no braço direito, de que lhe resultou, fractura, deixando-o sem movimentos. Pegando na arma com o braço esquerdo respondeu ao fogo. O então tenente Farinha Beirão, mais tarde comandante da G. N. R., foi junto dele e inquiriu porque estava fazendo fogo com a arma no braço esquerdo. Como resposta mostrou o braço direito:


- Vim para defender a Pátria! Cumpro como posso o meu dever.

 

Por tal feito e outros em campanha, foi condecorado com a Torre e Espada, medalha D. Amélia e medalha de prata de Serviços Distintos no Ultramar.


Compareceram á cerimónia, os delegados da M. P., major Romão Loureiro e capitão Gaspar, assistente religioso distrital, rev. Aurélio Vaz; reitor do liceu de Lamego, dr. Manuel Silveira. O presidente da Camara representava o governador civil do distrito.


O director do Externato, rev. Bento da Guia, depois de saudar todos os presentes referiu-se ao simbolismo do acto e o dr. António Lemos Gomes, director do centro local da Mocidade Portuguesa, exaltou os feitos do homenageado.


Depois houve missa rezada em Baldas, pelo rev. Sebastião Lopes, director do Centro da Mocidade Portuguesa, que proferiu uma oração patriótica. Seguiu-se uma romagem ao cemitério, onde a campa do «Herói de Baldas», ficou juncada de flores.


Terminadas estas cerimónias, foi servida uma merenda nos terrenos da barragem do Távora.

 

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