.

 

Início O Autor História A Viagem Moçambique Livros Notícias Procura Encontros Imagens Mailing List Ligações Mapa do Site

Share |

Brasões, Guiões e Crachás

Siga-nos

 

Fórum UTW

Pesquisar no portal UTM

Condecorações

José Manuel Costa Martins, Capitão Mil.º Graduado de Cavalaria

 

"Pouco se fala hoje em dia nestas coisas mas é bom que para preservação do nosso orgulho como Portugueses, elas não se esqueçam"

 

Barata da Silva, Vice-Comodoro

 

HONRA E GLÓRIA

Imagens enviadas por um colaborador do portal UTW

e site www.batalhaoasdeespadas.com

 

 

Jos-Manuel-da-Costa-Martins-350Valor-Militar-Colectiva-CG3classe-350José Manuel Costa Martins


Capitão Mil.º Graduado de Cavalaria


Comandante da

Companhia de Cavalaria 2635


Batalhão de Cavalaria 2899

«O ÁS DE ESPADAS»


Angola: 15Dez1969 a 27Fev1970 (data do falecimento)
 

Medalha de Prata de Valor Militar com palma, colectiva

(Título póstumo)

 

Cruz de Guerra de 3.ª classe

(Título póstumo)

 

Louvor Individual

(Título póstumo)

 

Para visualização dos conteúdos clique nos sublinhados existentes no texto que se segue:

 

A morte do Capitão Costa Martins (história n.º16/70)

 

Texto do veterano Casal Ribeiro, 1.º Cabo Enfermeiro

 

Premonição I

 

Quando fui chamado pelo Dr. Hasse Ferreira, para me dizer que, no dia seguinte, sairíamos para uma operação em larga escala numa zona de risco (pois esta era, a nível de companhias, a que englobava cerca de 130 homens), eu perguntei-lhe: “Não é melhor levar dois ou três frascos de soro, para o caso de haver feridos?”


“Não, não vale a pena, pois a evacuação dos feridos faz-se rapidamente e, quando um ferido não aguenta uma hora, é porque já não vale a pena ser socorrido.”

 

A flagelação

 

Saímos nessa madrugada, tomado antes o pequeno-almoço, em direcção ao rio Chicului, local que desconhecíamos totalmente. Andámos várias horas pela picada até chegarmos ao rio, seguindo a descoberto ao longo da margem. Ao entardecer, fomos alvejados, sem consequências. Pouco depois, começava o sol a pôr-se, parámos para passar a noite, em terreno descoberto.

 

Premonição II

 

No dia seguinte, o grupo do capitão, em que eu também estava inserido, passaria para a frente, enquanto outro pequeno grupo seguiria pelos lados, naquilo a que nós chamávamos de “bater mato”. Dirigi-me ao capitão e perguntei-lhe se não seria melhor eu mudar de grupo, para ficar mais resguardado, pois era o único enfermeiro: no caso de haver feridos e eu fosse um deles, não poderia valer-lhes. Respondeu-me que não, porque não ia acontecer nada. O certo é que permanecemos junto ao rio até depois das 10 horas.

 

A emboscada

 

Embrenhámo-nos no mato seguindo por um trilho e, cerca de 15 minutos depois, ouvem-se os primeiros tiros. Todos ao chão, e a seguir ouve-se o rebentamento de uma granada. Saltei para fora do trilho e, quando levo a G3 à cara e o dedo ao gatilho, noto que há alguns soldados a rastejar na minha direcção. Há gritos a chamarem-me, corro para a frente do grupo e vejo o capitão já a agonizar, pois tinha duas balas no peito, junto ao coração, e uma granada ofensiva que lhe tinha desfeito as partes e as pernas, um G.E. com um pulmão perfurado, feridos mais ligeiros e homens a chorar.


Assim que me debruço sobre o capitão, as minhas primeiras palavras foram: “Filha da puta de guerra de interesses, que nunca mais acaba!”


Abri o saco dos medicamentos e, enquanto tratava dos feridos, fui dando ordens para improvisarem macas, para o que dei o meu pano de tenda. Gritei ao Cavalinhos para pedir a evacuação dos feridos. Estava a tratar o G.E. - que, a seguir ao capitão, era o que estava em pior estado – quando me apercebi de que ele já tinha morrido (nota).


Regressámos de imediato para a clareira junto ao rio para evacuar os feridos nos helicópteros.

 

A evacuação

 

Já na clareira, e com a segurança montada, esperámos pelo helicóptero. Constatei, então, e definitivamente, que o capitão já morrera, mas o nosso (já falecido) Alferes Girão veio chamar-me, dizendo que lhe parecia ter visto o capitão mexer-se.


Fui com ele, descobri o capitão e disse-lhe: “Ò meu alferes não vê que o capitão está morto?!” Esta cena repetiu-se mais duas ou três vezes, ao Alferes Girão custava-lhe aceitar tão brutal acontecimento.


O facto é que as horas foram passando e, de helis, nem ruído.

 

O Alferes Canas disse-me que, quando os helicópteros chegassem, não divulgasse que havia mortos porque, senão, eles não os levariam, pelo que teríamos de carregá-los até ao quartel.


Ao fim de quatro horas, um dos G.E.s aproximou-se de mim e disse-me que o G.E. tinha morrido. Fui com ele e constatei que assim era, o desgraçado agonizara mais de quatro horas. Instalou-se em mim uma tal revolta que, quando o heli pousou, eu levantei-me ao mesmo tempo que dele saía o piloto, um tenente, e gritei-lhe:

 

“Temos dois mortos e três feridos, como é? Só agora é que aparecem?!”


Diz-me ele: “Calma, nós vamos levar os feridos a Serpa Pinto e regressamos para levar os mortos ao quartel.” Como eu já tinha sido avisado pelo nosso Alferes, retorqui-lhe: “Um momento!”. Dirigi-me aos nossos dois furriéis – creio que em deles era o Dias Pereira [Fernando Manuel Dias Pereira - Cruz de Guerra de 4.ª classe], que era aquele que estava em piores condições – e perguntei se não se importavam de esperar mais, talvez meia-hora, o que eles aceitaram de imediato. Virei-me para o Tenente e disse-lhe: “Agora vai levar os mortos ao Muié e depois volta aqui para levar os feridos, senão não sai daqui ninguém”. Foram mais ou menos estas as minhas palavras, que o piloto aceitou – levou o capitão e o G.E. para o quartel e regressou cerca de 30 minutos depois para levar os feridos.

 

O Cavalinhos

 

Depois de o helicóptero partir com os feridos, pusemo-nos em marcha, em direcção à picada, que ficava em frente a uma ponte destruída, sobre o Chicolui. Parámos já a noite ia longa, para descansar, comer e encher os cantis com água. Estava eu sentado a abrir uma lata de conserva quando o Cavalinhos me vem pedir o cantil; eu disse-lhe que não, que me desse ele os cantis que tinha, pois eu é que devia tratar disso. Ele insistiu e eu entreguei-lhe o meu, e lá foram uns quantos buscar água.


Pouco depois, ouviu-se um estrondo, a lata que eu tinha na mão voou para um lado e eu para o outro, à procura da G3, tiroteio infernal em todas as direcções. Eu nem sequer levei a mão ao gatilho, pois não se via nada, tal era a escuridão. Ouviam-se gritos vindos do lado do rio. O Cavalinhos tinha tropeçado numa armadilha e vinha ferido, não era grave, alguns estilhaços nas nádegas, que eu desinfectei como pude, à luz de isqueiros e por baixo de um pano de tenda.


Esta situação veio atrasar a nossa saída daquele local, que estava prevista para a meia-noite, em cerca de duas horas. Quando nos pusemos a caminho do quartel, sempre a corta-mato, o Cavalinhos [António Jacinto Cavalinhos, 1.º Cabo Radiotelegrafista, n.º 08629069] ia à minha frente e eu de vez em quando perguntava-lhe se queria parar para pedir a sua evacuação logo que rompesse o dia. Disse-me sempre que não, aguentando corajosamente as dores, debaixo de uma chuva diluviana. Um verdadeiro herói.


Ao chegar à entrada do quartel, o Leonel dirigiu-se me, perguntando: “Eh Casal, então?” Eu, que até aí me tinha aguentado, desatei num pranto convulsivo.


O Leonel abraçou-me e levou-me para o nosso quarto, onde então, mais tarde e mais calmo, lhe contei o que se tinha passado.

P.S. – Uns tempos depois, o Tenente-piloto esteve numa operação a nível de zona, a partir do Muié. Quando eu me dirigia para a pista, em uniforme normal e com as divisas de cabo nos ombros, ele, ao passar por mim, olhou-me insistentemente mas nada disse.

 

1.º Cabo Enfermeiro Casal Ribeiro

 

Nota:

 

O Soldado dos GE – referido pelo 1Cb enfº Casal Ribeiro –, pertencia ao GE335 instalado desde Set69 junto ao posto administrativo do Muié: além de publicamente se desconhecer a sua naturalidade (freguesia/concelho de Angola), também se não conhece o seu nome, sendo pois mais um dos Militares Portugueses que permanecem omissos, no Lapidário do Memorial Nacional aos Combatentes do Ultramar (sito nas imediações da Torre de Belém).


Solicitam-se aos veteranos da CCav2635, ou a quem tenha acesso à HU do BCav2899, a indicação do nome daquele malogrado camarada-d'armas e bem assim de outras informações, que se entendam pertinentes à sua identificação.

 

----------------------

A triste notícia na comunicação social

 

 A-triste-not-cia-na-comunica-o-social

 

 

 

 Jos-Manuel-da-Costa-Martins-920

 

 

© UTW online desde 30Mar2006

Traffic Rank

Portal do UTW: Criado e mantido por um grupo de Antigos Combatentes da Guerra do Ultramar

Voltar ao Topo