"38 mil quilómetros em 7 meses
por terras de Angola"
Há silêncio na sala pequena que nos
recebe. Um silêncio que estimula os
olhos num devaneio atrevido pelas
paredes de tom suave, que exibem
recordações de uma África de fresca
data. Há um bronze de arte nativa
pura, há um crucifixo feito de
cápsulas de arma ligeira. Há
fragmentos de uma peregrinação de
muitos meses, por milhares de
quilómetros. Quantos foram?
— Ao todo, 38 mil. Voei 20 mil e
segui por terra outros 18 mil. Foram
sete meses de viagem. E mais teriam
sido se a vizinhança da morte de meu
pai não me tivesse feito regressar.
É a sr.ª D. Maria Estefânea
Anachoreta, presidente do Movimento
Nacional Feminino no Distrito de
Santarém. Por sua iniciativa
deslocou-se a Angola, terra que
queria percorrer no perigo.
— Há muitos anos que desejava
conhecer Itália — Roma, Florença.
Era um sonho antigo. E, para o
concretizar, havia juntado, a pouco
e pouco, uns dinheiros. Mas a
inquietação das muitas famílias do
meu distrito quanto à sorte de seus
filhos, levou-me a mudar de ideias.
Porque não havia de aplicar esse
pecúlio assim reservado numa viagem
a Angola?
Há um sorriso em rosto sereno.
— E foi deste modo que logo iniciei
uma preparação que se prolongou por
três meses. Percorri os 21 concelhos
do meu distrito recolhendo mensagens
gravadas de pais, irmãos, noivas ou
apenas amigos. Sabia que era essa a
melhor lembrança que podia levar da
Metrópole para os nossos soldados. E
não me poupei a esforços. No total,
reuni 1200 gravações correspondentes
a outras tantas famílias. Não houve
uma que não chegasse ao seu
destinatário. No regresso também
tive a satisfação de trazer outras
1200 mensagens-resposta, que fiz
questão em registar para
tranquilidade das famílias.
Um mapa da Província sugere-nos um
debruçar breve sobre as estradas e
trilhos caminhados peia delegada do
M. N. F. É D. Maria Estefânea
Anachoreta que nos indica cada etapa
da sua longa jornada com uma
precisão matemática.
— Nunca fizera nada de semelhante em
dias da minha vida. Quando parti,
sabia ao que ia, mas não sabia
precisamente o que podia fazer.
Tencionava demorar-me somente três
meses — era o meu plano inicial.
Afinal, só por força maior me vim
embora volvidos sete. Custou-me
muito o Leste. Mesmo assim, não
recuei. E tenho consciência de ter
feito o melhor que as circunstâncias
de momento me permitiam, nunca
virando cara ao perigo, pois sempre
fiz questão em só utilizar o avião
quando o percurso por terra fosse
absolutamente impraticável. De
resto, tanto quanto me autorizaram,
viajei por norma sem protecções
especiais e no primeiro carro da
coluna. Caso curioso, numa coluna em
que eu seguisse foi atacada. E
muitas vezes, locais por onde havia
passado, eram flagelados horas
depois.
— É necessária muita coragem, muita
resistência, sem lágrimas, D. Maria
Estefânea Anachoreta é ainda
recordação de horas amargas vivida
— É necessária muita coragem, muita
resistência, sem lágrimas, sem
lamúrias, sem medo de ir no carro da
frente. Irei agora à Guiné logo que
haja quem possa receber-me.
Termina:
— Uma ideia final trouxe desta
viagem: porque é que não se escreve
aos soldados?! Como se há-de dizer
às mulheres portuguesas para
enviarem canas aos nossos rapazes?!
Eles podem sofrer tudo e tudo
suportam — menos o não receberem uma
carta.
Quase se escoara a tarde. A mesma
sala de tons suaves. As mesmas
evocações de uma África recente.
Fora uma entrevista sem perguntas


Cambamba

Baca

Sanga Pongo

Quibala

Sá da
Bandeira