«... Nessa tarde de 19 de Junho a coluna das viaturas
que transportava a 1.ª Companhia de Paraquedistas a que
eu e o Ricardo (Joaquim Manuel Raimundo Ricardo),
pertencíamos, entrou na Vila que percorreu até ao fim da
sua avenida central, depois retrocedeu e as viaturas
começaram a deslocar-se paralelamente umas às outras.
Foi quando houve uma pequena paragem da coluna em que a
viatura que transportava a subunidade de combate que eu
comandava ficou lateral àquela em que ia o Ricardo e eu
fiquei mesmo em frente dele que o incidente se deu.
O
Ricardo olhou para mim de uma forma que denotava algo de
muito grave, porque se apercebeu que o misto-retardador
de um detonador tinha incendiado.
O Ricardo depois de
ter olhado para mim com muita aflição dobrou-se sobre o
porta granadas que cobriu com o seu corpo e, ato
contínuo, deu-se a deflagração de todas as granadas
elevando muitos metros acima da viatura como que um
pequeno cogumelo atómico que desfez o corpo do meu
malogrado amigo.
Um pedaço maior do seu corpo foi parar
a vários metros de distância, um outro pedaço veio bater
contra o meu peito e o restante do corpo do meu amigo
ficou espalhado por um raio de muitos metros.
Eu fui um
dos seus companheiros de armas que se empenharam a
juntar o que restou do seu corpo. A viatura ficou
semi-destruida e à volta dela um estendal de corpos.
Dois deles passaram a fazer parte dos milhares de
mutilados graves de guerra, uma herança fatídica que
coube em sorte a uma parte da juventude portuguesa do
século XX, os restantes ficaram feridos com mais ou
menos gravidade mas todos se salvaram.
Na viatura que
transportava a minha subunidade de combate, do lado em
que eu e mais quatro combatentes estávamos lateralmente
com o Ricardo e a cerca de entre dois e três metros de
distância do ponto da deflagração, apenas sofremos a
expansão dos gases mas nenhum ficou, sequer, ferido.
Tal deveu-se ao facto de o Ricardo ter decidido, in
extremes, abdicar do seu próprio corpo para nos salvar a
vida. Pelo que melhor que mais ninguém constatei, o
Ricardo é, quanto a mim, um herói de que a sua cidade
deve orgulhar-se e guardar memória. No mínimo deveria
ter o seu nome ligado a uma rua da cidade.
REQUIEM POR RICARDO
Na abdicação suprema do teu
corpo
nos asseguraste a vida
e com tua fulminante
e austera morte
te tornaste inesquecível
e imortal.
Tua dádiva suprema
e teu exemplo
inscreveram o Infinito
em nossos corações.
Lá longe, fraterna e
heróica,
tua vida se esvaíu,
mas, aqui, neste padrão,
viverás, eternamente,
nosso e presente.
Proferido pelo teu
eternamente reconhecido amigo Matos Serra, junto ao
PADRÃO DOS COMBATENTES DA TUA CIDADE DE PORTALEGRE.»