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Monumentos aos Combatentes e Campas

Em memória daqueles que tombaram em defesa de

Portugal na Guerra do Ultramar

 

Arcos de Valdevez

 

Para visualização dos conteúdos clique em cada um dos sublinhados

 

Listagem dos mortos naturais do concelho de Arcos de Valdevez

 

 

Senharei

 

Manuel Pereira

 

Soldado Atirador de Cavalaria, n.º 1793/65

 

Companhia de Cavalaria 1507

 

Batalhão de Cavalaria 1879 

«NA GUERRA CONDUTA MAIS BRILHANTE»

 

Moçambique: Fev a 11Jul1966 (data do falecimento)

 

IN MEMORIAM E HOMENAGEM HONROSA

Soldado Atirador de Cavalaria Manuel Pereira (n.º 1793/65)

Sirva este espaço para perpetuar a memória e render o mais profundo preito de homenagem ao Soldado Atirador de Cavalaria Manuel Pereira, um jovem filho de Portugal que, em cumprimento do seu dever militar, sacrificou a vida nas terras de Moçambique. Numa época de profundas provações, a sua conduta espelhou a abnegação e o estoicismo característicos dos valorosos Dragões que serviram na Província Ultramarina do Niassa.

Nota Biográfica

Manuel Pereira nasceu no ano de 1944, na freguesia de Senharei, concelho de Arcos de Valdevez. Filho de Olívia Pereira, cresceu no seio de uma comunidade minhota tradicional, de onde partiu, ainda solteiro, para responder à chamada da Pátria.

A sua incorporação e mobilização deram-se por intermédio do prestigiado Regimento de Cavalaria n.º 3 (RC3 – Estremoz), unidade herdeira das tradições dos históricos «DRAGÕES DE OLIVENÇA», cujo lema ancestral exalta a virtude guerreira: «...NA GUERRA CONDUTA MAIS BRILHANTE». O jovem Manuel Pereira foi integrado na Companhia de Cavalaria n.º 1507 (CCav1507), subunidade orgânica do Batalhão de Cavalaria n.º 1879 (BCav1879).

No dia 12 de Janeiro de 1966, na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, Manuel Pereira despediu-se do Continente, embarcando no Navio de Transporte de Tropas (NTT) ‘Vera Cruz’, com destino ao Teatro de Operações de Moçambique. Após semanas de navegação, desembarcou no porto de Nacala em Fevereiro de 1966. Sob o comando do Capitão de Cavalaria António Manuel Pinto Ferreira Gomes, a CCav1507 marchou em direcção ao Distrito do Niassa, onde rendeu, na localidade de Cobué, a Companhia de Caçadores n.º 694 (CCac694) «FIRMES E CONSTANTES», vindo a guarnecer também, por meio de pelotões destacados, as posições de N’Goo e Muhai.

A fatalidade colheu-o em pleno cumprimento da sua missão. No dia 11 de Julho de 1966, na região do Cobué, o Soldado Manuel Pereira faleceu em consequência de graves ferimentos recebidos em combate. Contava apenas 22 anos de idade.

Inicialmente, o seu corpo foi inumado no cemitério de Augusto Cardoso (Metangula). Décadas mais tarde, em Junho de 2012, numa justa acção de salvaguarda da sua memória, os seus restos mortais foram trasladados para o ossário da Liga dos Combatentes, edificado no cemitério de Nampula, em Moçambique, onde repousa em paz e com a devida dignidade militar.

Louvores Colectivos Nacionais

O sacrifício do Soldado Manuel Pereira e o esforço heróico dos seus camaradas de armas ficaram perpetuados nos louvores oficiais outorgados às suas unidades, publicados na Revista da Cavalaria, que atestam a dureza do sector e o brio daqueles militares:

"Louvo o Batalhão de Cavalaria n.º 1879 porque durante sete meses de vida intensa da Campanha da Região do Lago do Distrito do Niassa desenvolveu notável actividade, na destruição de acampamentos inimigos, na abertura de novos itinerários e melhoria de outros, facilitando assim o controle do território e vida das tropas, no agrupamento, defesa e melhoria das condições de vida das populações e em múltiplas tarefas de que foi incumbido.

Não obstante enormes dificuldades encontradas desde início motivadas pelas más condições de tempo, pois a Unidade entrou em Sector no mês de Fevereiro e iniciou a sua actividade no período das chuvas mais frequentes, mesmo com algumas deficiências e falhas nos seus quadros o Bat. Cav. 1879, cumpriu com muito acerto, entusiasmo e eficiência o seu dever e vai deixar nas terras do Niassa marca indelével e muito honrosa da sua passagem. É de salientar que muito embora o número de baixas em combate seja acentuado a Unidade continua a manter elevado moral.

O numeroso material apreendido ao In., a insegurança criada nos seus bandos e uma vigilância atenta e constante sobre o território e as populações, têm dificultado a actividade inimiga a ponto de desde há tempos os bandos terroristas terem vindo a perder progressivamente o controle sobre as gentes e a limitarem a sua acção à colocação de minas fugindo sistemàticamente ao contacto com os valorosos militares desta Unidade."

(O. S. n.º 38 de 30 de Setembro de 1966 do Comd. Sector A), in Revista da Cavalaria do ano de 1966, página 175

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"Louvo o Batalhão de Cavalaria n.º 1879 pelo espírito de disciplina de que deu provas durante a sua permanência de 14 meses numa das zonas mais afectadas do Niassa.

Foi esse espírito de disciplina aliado a um estoicismo notável dos seus oficiais, sargentos e praças que permitiu manter a posição de Estremoz a Nova (Miandica), apesar de invulgares condições de desconforto e de dificuldades de toda a ordem.

Esta a homenagem que o Comandante do Sector A, presta ao espírito militar da Unidade, que tantas baixas sofreu, no momento em que ela deixa a sua zona de acção ao fim de 14 meses de esforços e de canseiras."

(O. S. n.º 10 de 10 de Março de 1967 do COMSECA), in Revista da Cavalaria do ano de 1967 página 207

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"Louvo a Companhia de Cavalaria n.º 1507, pela compreensão e estoicismo com que, desde sempre, tem suportado as dificuldades resultantes das deficiências das instalações em que tem vivido.

Vinda duma zona de intensa actividade operacional em que actuou por forma altamente eficiente e tendo recebido um Aquartelamento pior que o antecedente contràriamente ao que sucedeu com as restantes Companhias, não se deixou vencer pelo desânimo e tem lutado para que as suas precaríssimas instalações se apresentem com a melhor ordem, limpeza e beneficiações possíveis nomeadamente no aspecto de obtenção de água cuja falta muito se faz sentir na Região."

(O. S. n.º 177 de 4 de Agosto de 1967 do Bat. Cav. 1879), in Revista da Cavalaria do ano de 1967, página 212.

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História e Actividade Operacional:

"Os Dragões do Niassa", da autoria do Tenente-Coronel Fonseca Lage, in Revista da Cavalaria do ano de 1967, páginas 284 a 286:

A dureza da guerra e o baptismo de fogo da subunidade de Manuel Pereira foram documentados na crónica militar contemporânea sob o título “Uma actuação de Companhias dos Dragões do Niassa (B. Cav. 1879)”, transcrita em conformidade com as fontes oficiais da época:

A Companhia de Cavalaria n.º 1507 ocupou, logo de início, as instalações de uma antiga missão, cuja igreja imponente domina o Lago, sendo avistada da vizinha ilha de Likoma, pertencente ao Malawi, onde se encontravam refugiadas alguns milhares de pessoas. A área sob a sua responsabilidade incluía as linhas de reabastecimento de forças hostis vindas da Tanzânia. As serras elevadas separam o Lago do interior, e o terreno era de difícil progressão. Nos vales dos rios e nas picadas, o capim atingia por vezes grande altura, dificultando a visibilidade e facilitando as emboscadas inimigas. As populações civis, sob coacção, tinham abandonado a paz e o sossego da sua antiga vida, vivendo refugiadas no mato, em Likoma ou na Tanzânia.

Determinada a quebrar este ciclo de insegurança, a Companhia de Cavalaria n.º 1507, reforçada com um Grupo de Combatentes da Companhia 1506 e liderada pelo seu comandante, Tenente Ferreira Gomes, recebeu a missão de destruir, capturar e aniquilar um importante acampamento inimigo oculto na densa vegetação.

No dia 23 de Fevereiro, pelas 16h45, a força partiu numa lancha LDP, tomando como medida de decepção a direcção Norte. Ao anoitecer, pelas 19h00, rumou em direcção à costa, efectuando um desembarque bem-sucedido na Baía correspondente ao objectivo. Concluídos os preparativos essenciais — estabelecimento de ligações rádio, planeamento minucioso da progressão, reacção imediata em caso de ataque e acções directas sobre o objectivo —, a força iniciou a marcha em coluna, por um, guiada por Augusto, um habitante local que fugira dos insurgentes.

A progressão fez-se sob condições extremas. A distância entre os homens nunca era superior a um metro, reduzindo-se ainda mais em virtude da escuridão e da vegetação cerrada. O movimento realizou-se no maior silêncio, sentindo-se apenas o roçar do mato e os ruídos característicos da selva africana. Aqueles homens partiam para a sua primeira missão de guerra; se sentiam medo, jamais o revelaram.

Por volta das 03h45 do dia seguinte, a vanguarda da força atingiu o posto da sentinela inimiga, que se localizava a cerca de um quilómetro do acampamento principal. O objectivo foi alcançado às 04h15, sendo de imediato adoptado o dispositivo de ataque, com o comando posicionado ao centro e um Grupo de Combate em cada flanco. A distância que os separava do acampamento era de escassos 60 metros. Contudo, a sentinela adversária detectou a presença das tropas portuguesas e abriu fogo, disparando uma rajada de três tiros de pistola-metralhadora.

Imediatamente foi dada a ordem de abrir fogo com grande potencial. O inimigo, apanhado de total surpresa, pôs-se em fuga desordenada, enquanto tiros de morteiro flagelavam a sua retaguarda. Terminado o fogo inicial, o 1.º Grupo de Combate avançou com rapidez sobre o objectivo, ficando o 2.º Grupo em apoio directo. Conquistado o acampamento, montou-se a segurança do perímetro e efectuou-se uma batida minuciosa na direcção Sul-Norte.

A surpresa da acção foi de tal ordem que o adversário abandonou todo o seu material, registando vários mortos e feridos no local. O acampamento encontrava-se dissimulado sob árvores frondosas de copas fechadas, possuindo um engenhoso sistema de alarme constituído por latas suspensas de uma árvore a dois metros do chão, interligadas por um cordão de 70 metros para o lado Sul.

Do material capturado pelas forças portuguesas, destacaram-se os seguintes itens:

  • 1 Metralhadora «Peça»;

  • 1 Espingarda semi-automática chinesa;

  • 1 Carabina automática chinesa;

  • 2 Pistolas-metralhadoras «Pepochê»;

  • 4 Pistolas-metralhadoras «Mat»;

  • 2 Pistolas russas com coldre;

  • 11 Espingardas 7,7 russas;

  • 2 Espingardas 7,7 «Lee-Enfield»;

  • 31 Granadas de mano defensivas chinesas;

  • 2 Granadas de mano ofensivas;

  • Muitos carregadores e mais de 4000 cartuchos.

Por impossibilidade física de transporte no terreno adverso, muito outro material logístico foi integralmente aniquilado no local. Conforme registado pelo Tenente-Coronel Fonseca Lage, esta brilhante acção militar constituiu um grave revés para as forças inimigas e gravou a primeira página da história dos Dragões da 1507, sublinhando também a magnífica contribuição do Grupo de Combate da 1506 e o papel fundamental do guia Augusto, que pelo seu valor viria a ser agraciado com o título de «Dragão».

Considerações Finais

É neste contexto de exigência extrema, coragem silenciosa e constante perigo que se inscreve a folha de serviço e o sacrifício do Soldado Manuel Pereira. A sua dedicação à Pátria, paga com o bem mais precioso, confere-lhe um lugar de honra imperecível na história da Cavalaria Portuguesa e na memória colectiva da sua terra natal, Arcos de Valdevez. Que a sua memória continue a ser lembrada como exemplo de nobreza e cumprimento do dever.

Paz à sua Alma

A fotografia foi extraída da Revista da Cavalaria do ano de 1966, página 52, e que foi posteriormente processada por inteligência artificial.

 

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