
São Juliao
Serafim Serra

2.º Sargento Mecânico Auto Rodas
Pelotão de Apoio Directo 926
Angola: 27Set1963 (data do falecimento)
Serafim Serra, 2.º Sargento
Mecânico Auto Rodas, natural da freguesia de São
Julião,
concelho
da Figueira da Foz, filho de Aires Serra e de Maria
da Conceição Moura, casado com Maria de Lurdes
Ferreira Loureiro Serra;
Mobilizado pelo Companhia Divisionária de
Manutenção
de Material (CDMM - Entroncamento) «QUE A FAMA NOS
EXALTE» para servir Portugal na Província
Ultramarina de Angola, integrado no Pelotão de Apoio
Directo 926 (PelA/D926);
Faleceu no dia 27 de Setembro de 1963, no itinerário
de Luanda para Nambuangongo, a 3 Km aquém da Beira
Baixa, em consequência de ferimentos em combate;
Paz à sua Alma.
Está inumado na campa n.º 23, da fileira n.º 1, no
talhão VII, do cemitério de Nambuangongo, na
Província Ultramarina de Angola.
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Fonte:
Revista "Domingo" do Correio da Manhã, de 28Mar2010
Do veterano Celestino Santos, do
PelA/D 926:
“A terrível
perda do bom amigo Serra”
Algo tão definitivo como a morte lhe roubaria a
futura e feliz contemplação da jovem esposa e da
linda criança que deixara em Portugal.
28 de Março de 2010 às 00:00
A caravana deixou a cidade às primeiras notas do
crepúsculo. Pôs-se em andamento – numa cadência
monótona e irritante – já quando o Sol, matizado de
vermelho, fazia a sua aparição no horizonte de
vegetação verde, onde ainda ecoavam os sons da
noite. A velocidade aumentou para depois diminuir,
diminuir sempre, devido às precárias condições do
terreno. Mais à frente, sessenta quilómetros
volvidos, a civilização deu lugar à selva, ao
intenso arvoredo em muitos pontos virgem. Foi então
que a odisseia dessa viagem começou – um lancinante
drama que a todos, indistintamente, envolveu.
Habituados desde sempre ao bulício das cidades mas
também à placidez romanesca dos campos, fácil foi
sermos surpreendidos pelo ‘ambiente’ desconhecido
que nos rodeava; um ambiente totalmente hostil,
inseguro, de que o cinema até não dera uma ideia
concreta. Um ‘clima’ de autêntica guerra para onde
tínhamos sido lançados como vítimas inocentes,
tochas humanas na alimentação indescritível e
inconcebível da fogueira imensa que lavra sempre em
universos de discórdia.
O Serra era um bom amigo, estimado sem excepção
pelos companheiros. A sua figura viva, propícia aos
ditos espirituosos, transmitia uma alegria que
contagiava e não ofendia. E era honesto. Ora contra
a sua maneira de ser, por forma que lhe era
inusitada, o Serra estava diferente naquele dia. Com
mais propriedade, desde a véspera que se lhe notava
certa modificação. Mais isolado, taciturno,
dir-se-ia obcecado por algo terrível. É que – vim
depois a saber – o nosso amigo temia a viagem que no
dia seguinte faríamos. Não porque de natureza fosse
temeroso, mas porque nesse dia uma voz estranha, que
lhe vinha do âmago do seu ser, lhe havia pressagiado
um mau acontecimento.
O pobre Serra confessou-nos o receio de que
ocorresse algo que o obrigasse a deixar o contacto
terreno; O afastasse eternamente do convívio dos
entes queridos que, longe, no seu rincão natalício,
o sentiriam partir. Algo por demais indizível, como
a morte, lhe roubaria a futura e feliz contemplação
da jovem esposa e da linda criança que deixara.
Imbuído nesses pensamentos pediu-nos que, se não
sobrevivesse, lhe enviássemos o corpo para a sua
terra. Nós, indiferentes, alheios à sua luta
interior, duvidámos do seu lúcido estado de espírito
e não nos apercebemos da missão ingrata que teríamos
de efectuar.
E partimos todos, unidos pela burocracia que nos
juntara, rumo ao ignorado e à perfeita aventura, sem
nos capacitarmos sequer de que já éramos personagens
de um drama. Se já não bastasse a distância de 180
mil metros que palmilhámos em mais de 23 horas pelo
terreno acidentado, as subidas íngremes e as
descidas em declive; A verificação de cultivos
devastadas, os muros abertos em ruínas, pátios
calcinados, a destruição, as condições péssimas em
que nos deslocávamos, sobre caixotes, aos
trambolhões, comendo pó em vez de alimento,
perfeitamente expostos à hostilidade da paisagem,
então bastaria a iniludível tensão que em nosso
redor pairava, onde se adivinha o perigo que poderia
surgir a cada momento.
O tempo sob as rodas poeirentas dos veículos lá foi
seguindo o seu curso, até que o dia se transformou
em noite. E esta, por sua vez, deu desfecho ao
pressentimento. Percorríamos uma prolongada elevação
quando se avistaram vários pontos brilhantes. Nós
seguíamos na cauda da coluna. Os tiros passaram-nos
sobre as cabeças. A um só tempo, todos saltaram para
o chão procurando o melhor abrigo e a melhor forma
de ripostar. O fogo, intenso do nosso lado, fez
calar a parte contrária. No entanto, e não obstante
a relativa escassez dos disparos adversos, o destino
impôs-se. Nessa altura era cedo ainda para que a
verdade nos atropelasse como um bólide. Só mais
tarde, depois do ferido ser conduzido à nossa
frente, depois de percorridos os últimos
quilómetros, é que nos detivemos ante a gélida perda
do nosso amigo. A perda de um amigo nascido dum
circunstancial convívio, propiciado pelas
circunstâncias da guerra, mas efectivamente um
amigo.
Como chefe de secretaria do pelotão, o meu primeiro
trabalho foi, infaustamente, o de velar o seu corpo.
Tenho a memória das lágrimas silenciosas que então
me rolaram pela face, depois repetidas, em raiva,
quando oficialmente negaram a sua trasladação para
Portugal. Hoje não choro, mas recordo.
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