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Em memória daqueles que tombaram em defesa de

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Monchique

 

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Listagem dos mortos naturais do concelho de Monchique

 

Monchique-freguesia

 

Monchique

Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW

 

Manuel-da-Silva-CCav2300-350Manuel da Silva

 

Soldado Atirador de Cavalaria, nº 04842767

 

Companhia de Cavalaria 2300

 

Batalhão de Cavalaria 2830

«OS CENTAUROS»

 

Angola: 13Jan1968 a 18Mai1968 (data do falecimento)

 

Manuel da Silva, Soldado Atirador, n.º 04842767, natural do lugar de Chã da Casinha, da freguesia e concelho de Monchique, filho de Manuel da Silva e de Maria Manuela, casado com Maria da Glória Costa José;

 

RC3Mobilizado pelo Regimento de Cavalaria 3 (RC3 – Estremoz) «DRAGÕES DE OLIVENÇA» - «…NA GUERRA CONDUTA MAIS BRILHANTE» para servir Portugal na Província Ultramarina de Angola;

 

No dia 4 de Janeiro de 1968, na Gare Marítima da Rocha do Conde Óbidos, em Lisboa, embarcou no NTT 'Vera Cruz', integrado na integrado na Companhia de Cavalaria 2300 do Batalhão de Cavalaria 2830 «OS CENTAUROS», rumo ao porto de Luanda, onde desembarcou no dia 13 de Janeiro de 1968;

 

Faleceu na noite de sábado do dia 18 de Maio de 1968, em consequência de acidente de viação nas imediações da Fazenda Tentativa (Caxito).

 

Os seus restos mortais ficaram inumados em Angola, na campa n.º 337 do talhão militar do cemitério de Santana (Estrada de Catete).

 

Que Deus o guarde.

 

 

 

Com a devida vénia, transcrevemos o texto da autoria do

Alferes Mil.º de Cavalaria Manuel Carlos F. Costa,

da CCav2300/BCav2830, in facebook

 

De: Manuel Carlos F. Costa
 

As primeiras lágrimas


Chamava-se Manuel da Silva. Só assim, dessa maneira simples, vulgar, bem portuguesa. Soldado algarvio natural de Monchique, o Manuel da Silva era timorato, discreto, falava pouco, mal se dava por ele, contrariamente ao que parece ser característico dos algarvios. Era baixote e magro, a tez pálida, os olhos tristes e doces como as tardes cálidas e silenciosas da serra que o embalavam desde menino. E era um dos três militares casados do meu Pelotão.


Regressávamos de uma operação de oito dias nos Dembos, montados em vários Unimogs. O nosso era o primeiro da coluna. Era noite cerrada. As coisas tinham corrido bem na mata, pois daquela vez não houvera contacto com o inimigo. Somente o cansaço, a debilidade física e o sono nos ameaçavam agora, a pouco mais de 50 Km. de Luanda, perto da “Fazenda Tentativa”, no Caxito. Estávamos relaxados, pois naquela zona já não havia guerrilheiros.


Sentado no banco de madeira instalado no meio do Unimog, eu colocara a G-3 sobre os joelhos e segurava-a com uma mão, enquanto com a outra me amparava nas costas do banco, tocando ao de leve a camisa camuflada do Manuel da Silva, que viajava a meu lado, na ponta. Os outros dois ocupantes do nosso lado iam calados, tal como os quatro sentados no banco por trás de nós. Olhávamos ausentes o vazio morno da noite. Observávamos como autómatos os troncos claros das árvores gigantescas que os faróis do Unimog iam fazendo desaparecer da berma da estrada, como num filme de ficção. De vez em quando, olhávamos com nostalgia algumas estrelas bruxuleando num céu muito negro por cima da floresta que nos circundava.


Rolávamos a alta velocidade, desejosos de chegar ao Quartel, no Grafanil, mas eis que, a súbitas, surge uma bifurcação na estrada. É então que o Celestino, o condutor, dá uma guinada brusca e forte ao Unimog. Estávamos em Angola havia pouco tempo, o Celestino ainda não conhecia bem o percurso. Mais tarde haveríamos de passar por ali dezenas de vezes, mas naquela ocasião o Celestino hesitou, o pequeno Unimog bailou perigosamente, fazendo sacolejar a esmo homens e equipamento. Agarrámo-nos por instinto uns aos outros, aos suportes de ferro do banco, e por fugazes momentos esbracejámos como náufragos em mar encapelado. Mas naquele segundo, naquela fracção irreal de um segundo, vi que o Manuel da Silva voara desamparado do Unimog. Na serenidade da noite, ouviram-se gritos, travagens,
ordens, imprecações, correrias, obscenidades. Fardas camufladas abraçadas às G-3 correram então ofegantes pela estrada alcatroada num torvelinho de angústia e maldição. Um vento quente arrulhava nas copas das árvores. Acendeu-se um isqueiro que cheirava a gasóleo e encontrámos na escuridão um corpo enrolado, inerte, torcido, a cabeça sangrando desfigurada por um pedregulho escondido no capim junto à berma. Uma bota de lona sem par, uma G-3 num abandono triste e sem préstimo. Aproximámos o isqueiro do rosto do Manuel da Silva. Ofegava. O queixo tremia-lhe um pouco, um sedimento terroso na língua, uns dentes brancos espreitavam entre uns lábios brancos. Alguém agarrou num cantil e verteu umas gotas de água sobre eles. A água escorreu lentamente pelo canto da boca, brilhou no tendão e sumiu-se na camisa camuflada. Um olho aquoso entreabriu-se numa dúvida jamais explicada e escutámos incrédulos uma derradeira frase expelida num sopro ténue e enrolado “quando o meu pai souber mata-se”. A meu lado alguém rezava uma Ave-Maria soluçada.


A uns metros da “Fazenda Tentativa”, desceram pelos nossos rostos jovens, duros e barbudos as primeiras lágrimas. Misturaram-se no capim com o sangue derramado pelo Manuel da Silva, meu companheiro, meu camarada, meu irmão de armas.


Foi a primeira baixa do meu Pelotão, faz hoje precisamente 50 anos. Que Deus o tenha.
 

(Ex-Alferes Miliciano de Cavalaria)

 

 

 

 

 Manuel-da-Silva-CCav2300-920

 

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