As palavras do Major-General João Afonso Bento Soares, no encontro de Antigos Combatentes do Ultramar, realizado em 18 de Outubro de 2009, em Meimoa:
Caros
Conterrâneos e Antigos Combatentes no
Ultramar:
Uma Palavra, hoje infelizmente tão esquecida, justificaria, só por si, a presença de todos nós neste Encontro.
Essa Palavra é PÁTRIA – a nossa Pátria, o
nosso Portugal.
Honrando e defendendo a sua existência – um
Legado dos nossos Avós –, honramos e
defendemos um Espaço Sagrado, cujas
fronteiras de mais de oitocentos anos, são
as mais antigas desta Velha Europa. Mas não
só! Dou a palavra ao historiador Michael
Harsgsor na sua obra “Portugal in Revolution”:
“Na verdade, desde o séc. III, Portugal
mantém as suas fronteiras continentais
praticamente intocáveis e consequentemente
as mais antigas do mundo” (fim de citação).
Mas, para além desse Espaço Sagrado,
lembramos e honramos prioritariamente - hoje
e aqui -, a Gesta Lusa que deu “novos mundos
ao Mundo”. Essa gigantesca Aventura, que foi
um Devir constante da Alma Lusitana, só foi
possível porque o nosso heróico Povo
conseguiu gerar de entre as suas gentes, os
Valentes Capitães que foram “da lei da morte
libertados” ao escreverem as páginas mais
gloriosas da nossa História.
Em linguagem dos nossos dias, a instituição
herdeira da Missão, Ideais e Valores legadas
por esses Valentes Capitães, reside nas
Forças Armadas Portuguesas, último garante
da soberania e independência da Nação.
Foi essa missão – por vezes tão dura, mas sempre nobre – que às Forças Armadas coube assumir ao longo de oito séculos de História.
Se nos concentrarmos apenas nos tempos mais
recentes – o já findo séc. XX em que
nascemos –, as Forças Armadas Portuguesas
foram chamadas a intervir, com nossos Avós,
na IGG (1914-18) e com nós próprios, décadas
depois, na Guerra do Ultramar (1961-74). E
estes foram anos bem duros, sem dúvida,
entre “perigos e guerras esforçados”, como
diria o nosso Épico imortal.
Ninguém contesta que a GUERRA – seja ela
qual for, onde for e contra quem for –
constitui sempre uma enorme calamidade, a
todos os títulos indesejável. Mas diz a
realidade histórica que é um fenómeno
recorrente e tão antigo quanto a própria
humanidade.
Muito bem vinda é sempre a PAZ, uma Paz
justa e duradoura. Porém, não esqueçamos que
já em 390 DC, o notável pensador romano
Publius Renatus (Publius Flavius Vegetus
Renatus) chamava a atenção para outra
realidade: “Si Vis Pacem Para Bellum”, que
quer dizer “Se queres a Paz, prepara a
Guerra”. Ora é bem sabido como mal andaram
os Povos que disso não tomaram boa nota.
Mas voltando ao que pessoalmente nos tocou
enquanto Antigos Combatentes no Ultramar,
nunca será demais lembrar que não foi
Portugal a iniciar esse último conflito em
que se viu envolvido durante 13 anos. É um
facto que não foi. Aconteceu antes uma
súbita acção de guerrilha que foi movida a
soldo da cobiça e interesses estranhos, a
qual levou o terror a portugueses indefesos
(e alguns deles saídos desta nossa aldeia).
A Nação foi obrigada a reagir pelo que a
todos viria a exigir grandes sacrifícios.
Para muitos exigiu mesmo a dádiva suprema da
própria vida.
Saibamos ser dignos deles, honrando a sua
memória com humildade e com respeito. É por
isso e para isso que aqui estamos!
Não há outra ilação a tirar destes Encontros
ou do tão representativo Painel junto ao
Adro da nossa Igreja Matriz.
Nem se misture o dever cumprido, que só nos
honra, com ilações ou controvérsias de
qualquer outra ordem.
Com efeito, não é a esse nível que se situam
estes nossos convívios de Antigos
Combatentes da Meimoa.
Situamo-nos seguramente ao nível dos Valores visando a exaltação da nobreza do nosso Povo. Povo esse que é o “detentor das virtudes da Raça” no feliz enunciado do eminente beirão, Dr. Jaime Lopes Dias.
Do que se trata, em suma, neste nosso
convívio é tão-somente de um Encontro com a
nossa História.
Não me foi possível estar presente nas
Reuniões anteriores por motivos graves de
saúde ou de carácter inadiável. Permitam-me
assim que, hoje perante vós e enquanto
membro mais antigo das FA, nascido neste
recanto serrano de pergaminhos milenares – a
nossa MEIMOA, Princesa hodierna da Cova da
Beira, como já o fora da Nutricience Romana
–, permitam-me, repito, que saúde
efusivamente a tão patriótica iniciativa que
vem dando lugar a estes eventos.
A todos nós que nos batemos em defesa da
nossa Pátria, qualquer que tenha sido o
posto, lugar ou condição, cabe o conforto do
dever cumprido. É a certeza deste sentimento
que poderá também dar sentido ao sacrifício
último dos que já não estão entre nós. E de
entre estes, a quem coube a dádiva suprema,
desejo evocar com especial emoção e o mais
profundo respeito os combatentes da Meimoa,
caídos no Ultramar ao serviço da Pátria. A
eles dediquei o Soneto, que aquando do 1º
Encontro, enviei ao nosso Presidente da JF,
Joaquim Cabanas.
Embora nessa altura já tenha sido
apresentado por especial gentileza do nosso
companheiro, antigo combatente Juiz
Desembargador Celestino Cabanas Bento, seja
permitido que pessoalmente o recorde e
reviva neste fraterno Encontro.
AOS ANTIGOS
COMBATENTES DA MEIMOA
Eu te saúdo Antigo Combatente
Como espelho da Pátria que contemplo;
Revejo em ti o Portugal Valente
E quão digno da
História é teu exemplo.
Aquém e Além-mar soubeste erguer
Mais alta ainda a Gesta Lusitana
Honrando o destemor e o querer
Das gentes rijas que este Povo irmana.
Seja este
humilde verso o pedestal
Que sendo teu, o deste a Portugal,
Dádiva dum sentir que em nós ressoa
Porque é orgulho de nossos Avós.
Cale bem fundo em cada um de nós
A gratidão dos filhos da MEIMOA!
Homenagem aos Antigos Combatentes da Meimoa,
lembrando os que tombaram no Ultramar ao
serviço da Pátria:
Em
Angola - Capitão Francisco Pires Bento, a
4JUL1918
Em Moçambique - Alferes João José Fonseca
Nabais, a 8FEV1974
Em Angola - Sargento Manuel dos Reis, 1961
(*)
João Afonso Bento
Soares
Major General
Meimoa aos 18 de Outubro de 2009
Monumentos aos Combatentes e
Campas