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O português que ajuda famílias a
recuperar restos mortais de
ex-militares
Fonte:
«Diário
de Notícias»,
de 12Mar2018

«Militares
de Volta»
O português
que ajuda famílias a recuperar restos mortais de
ex-militares
Carlos Rosa passou os últimos seis anos a seguir o rasto
de ex-militares, cujos restos mortais nunca chegaram a
ser recuperados pelas famílias. "Portugal devia ter
feito mais. Ninguém deixa ninguém para trás", defende
O português Carlos Rosa chegou a Angola em 2009, para
trabalhar numa construtora, mas os últimos seis anos
foram também passados a seguir o rasto de ex-militares
cujos restos mortais nunca chegaram a ser recuperados
pelas famílias, em Portugal.
Também fui militar, não
lutei, mas cumpri o meu dever. E estes senhores todos
que estão aqui é que são os heróis. E os heróis devem
ser honrados.
O primeiro caso que, a partir de Luanda, ajudou a
resolver, foi concluído em dezembro último, com a
chegada a Portugal dos restos mortais de um soldado
paraquedista, e o segundo deverá avançar nas próximas
semanas.
"Também fui militar, não lutei, mas cumpri o meu dever.
E estes senhores todos que estão aqui é que são os
heróis. E os heróis devem ser honrados", desabafa à
agência Lusa, durante a visita a um antigo cemitério do
Sassa, no Caxito, na província do Bengo, a mais de 60
quilómetros de Luanda.
Por ali, entre o som dos pássaros e da floresta, os
muros do cemitério já foram tomados pelo mato, o portão
não funciona e no interior é possível encontrar pratos
de comida e restos de animais em decomposição.
Entre o capim, com mais de um metro de altura, as cruzes
brancas que assinalam as campas dos ex-militares
portugueses, totalmente ao abandono e vandalizadas, são
as primeiras a ser avistadas, ao longe.
Mais de perto, as sepulturas, todas alinhadas - pelo
menos as que são possíveis de identificar entre o capim
- variam nos nomes, datas e companhias em que os
militares prestaram serviço, mas todas terminam, em
letras em bronze que ainda se conservam, com a frase:
"Por Angola".
"É triste. É triste porque foi alguém que lutou por uma
causa, bem ou mal, e que ficou para trás e ficou
abandonado", confessa.
Além das dificuldades, por
falta de documentação ou autorizações, a trasladação dos
restos mortais de cada militar pode chegar aos 8.000
euros
Desde 2012 que Carlos Rosa, hoje com 49 anos, percorre
cemitérios angolanos, recebendo informações de
familiares de antigos militares através das redes
sociais. No terreno, trata de confirmar a localização
das campas, antes de avançar com o pedido de
documentação nas autoridades angolanas e os contactos
com as funerárias locais, para assegurar o difícil
processo de trasladação.
É uma vergonha para o Estado
português e para os portugueses ter esta situação, visto
que noutros países, como na Guiné ou em Moçambique, se
conseguiu fazer todas as trasladações
Além das dificuldades, por falta de documentação ou
autorizações, a trasladação dos restos mortais de cada
militar pode chegar aos 8.000 euros, custos que têm sido
as próprias famílias e grupos de ex-militares a
suportar.
"Faço isto como uma parte humana, no sentido de ajudar
essas pessoas, sem lucro nenhum, sem qualquer intenção
de mais nada e como português. Acho que é uma vergonha
para o Estado português e para os portugueses ter esta
situação, visto que noutros países, como na Guiné ou em
Moçambique, se conseguiu fazer todas as trasladações",
conta, inconformado.
Só neste pequeno cemitério no Caxito é possível
identificar duas dezenas de sepulturas, ao abandono, com
lápides partidas, de antigos militares, todos dos anos
1960, do início da guerra colonial em Angola.
A 60 quilómetros de distância, já no centro de Luanda,
no sobrelotado cemitério de Santa Ana, um talhão militar
guarda as sepulturas abandonadas de outras dezenas de
militares portugueses.
Carlos Rosa rejeita
responsabilizar Angola por este cenário: "Não censuro
Angola, a culpa é portuguesa. Portugal devia ter feito
mais, como português acho que isto não foi correto.
Ninguém deixa ninguém para trás"
Incluem-se comandos e paraquedistas, algumas também
vandalizadas ou abertas, como a Lusa constatou.
Ainda assim, Carlos Rosa rejeita responsabilizar Angola
por este cenário: "Não censuro Angola, a culpa é
portuguesa. Portugal devia ter feito mais, como
português acho que isto não foi correto. Ninguém deixa
ninguém para trás".
Foi de resto neste cemitério, próximo do centro de
Luanda, que este expatriado português confirmou a
presença da sepultura de António da Conceição Lopes da
Silva, um soldado paraquedista morto em combate em
Angola em 1963.
A pedido da filha do antigo militar, o processo de
trasladação, recordou, levou praticamente cinco anos a
concluir, até à chegada dos restos mortais ao concelho
de Tondela (distrito de Viseu), em dezembro último.
Sem adiantar mais pormenores sobre o segundo processo de
trasladação que está a concluir, este antigo militar, da
Marinha portuguesa, confessou que se sentiu honrado por
ter ajudado até agora, mas também admite, revoltado, que
o Estado português "é que se devia preocupar" com a
situação destas sepulturas ao abandono.
O que me levou a abraçar
esta causa, ao fim e ao cabo, é ser português, ver quem
lutou por um país e que ficou para trás e dos quais o
Estado português nunca mais se lembrou
"Mas o que vemos é o desinteresse de Portugal", atira.
Enquanto está em Angola, a "tarefa" a que Carlos Rosa
deu corpo é fazer a ponte com as famílias dos antigos
militares, em Portugal. Uma espécie de "elo de ligação",
que também descreve como uma "missão patriótica e
pessoal".
"O que me levou a abraçar esta causa, ao fim e ao cabo,
é ser português, ver quem lutou por um país e que ficou
para trás e dos quais o Estado português nunca mais se
lembrou. E os familiares, todos eles perderam os seus
entes queridos, filhos, irmãos. E se fosse comigo também
gostaria que alguém me ajudasse", conclui.
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