O livro:
"A
Pátria ou a Vida"

título: "A
Pátria ou A Vida"
autor: Gertrudes da Silva
editor: Palimage
1ªed. Viseu, Fev2005
268 págs
21x14,8 cm
ISBN: 972-8575-77-7
Descrição:
Quem leu o anterior livro do autor – "Deus, Pátria e... A Vida" – não estranhará neste, nem o título nem o conteúdo. Se naquele se reflectia ironizando com a legenda do Estado Novo, em "A Pátria ou a Vida" ressoa uma clara réplica a um outro lema, esse profundamente revolucionário, feito grito de guerra que ecoou pela América Latina nos meados do século XX. Mas também dali parece vir como que a voz de um ladrão que, de arma na mão, nos exige "a bolsa ou a vida", que de algum modo era essa a real condição em campanha, depois da escolha, sempre dramática, num outro dilema, em sua mais grave formulação – a Pátria ou a deserção. E por aí entramos numa reflexão sobre a guerra, em geral, e sobre a Guerra Colonial, em particular.
Em "A Pátria ou a Vida" vive-se, sofre-se e morre-se sem heroísmos nem honrarias; caminha-se sempre sobre o arame que marca a fronteira entre dois valores que temos como sagrados. Porque a Pátria – lugar comum – nesses tempos era madrasta, tratando como estranhos os seus próprios filhos. Não de sua própria natureza, que essa era boa, e por isso sempre lhe fomos afeiçoados; mas por força dos homens a que, ilegitimamente, se foi entregando, todos com jeitos de abastados morgados, a largar-nos por aí, feitos filhos bastardos.
Apresentação de "A Pátria ou A Vida" - Porto,
Março de
2005 (David Martelo, Coronel)
A PÁTRIA OU
A VIDA
A editora Palimage, na colecção de obras a
que deu o nome de Imagens de Hoje, tem vindo a
oferecer ao público um conjunto de textos, de muito
meritória qualidade, sobre a guerra travada em África,
entre 1961 e 1974, entre as tropas portuguesas e os
movimentos de libertação de Angola, Guiné e Moçambique.
Convergindo, no essencial, com as obras de não-ficção
que têm sido publicadas sobre o mesmo tema, aquelas que
fazem parte da colecção em apreço – de que, confesso, só
li as de Gustavo Pimenta e as do autor aqui presente –
constituem um exemplo perfeito da literatura de guerra
que, mais do que registar e analisar as grandes
evoluções da situação política e militar e salientar as
figuras de topo do cenário envolvente, se dedica a
descrever, com fotográfica acuidade, a realidade vivida
pelo cidadão comum, acidentalmente militarizado. É esta
diferença da altitude de observação que proporciona a
particular riqueza de pormenores de natureza humana que
fazem deste tipo de textos um complemento essencial da
História pura e dura.
Feita, assim, esta breve introdução, é altura de falar
deste A Pátria ou a Vida. Sendo o autor um caro
amigo e camarada de armas de há mais de 41 anos,
correria o risco de ser levado à conta da amizade tudo o
que, sobre a sua obra, aqui viesse dizer. Assim, antes
de me alongar na apreciação deste seu segundo livro,
quero revelar, aqui, a apreciação que fiz, em carta
escrita no Verão de 2003, à obra com que iniciou a sua
carreira literária.
Caro Diamantino:
«Acabei de ler, [...] o teu Deus, Pátria e...A
Vida e quero que saibas quanto gostei deste rol
de recordações. Conhecemo-nos há quase 40 anos, tempo
mais do que suficiente para que grande parte das tuas
memórias – mesmo aquelas que se referem à tua
adolescência – tenham sido uma réplica de várias
conversas que, sozinhos ou com outros camaradas, tivemos
ao longo do nosso convívio. Mas o que me agrada
sobremaneira sublinhar é a forma como conseguiste
relatar as tuas memórias do ponto de vista literário.
Não tenho qualquer dúvida em afirmar que possuis o dom
da narrativa, isto é, a capacidade para escrever como se
estivesses a utilizar cores, sons e odores que nos
estimulam a imaginação, nos emocionam e tornam atraente
a leitura (e, no meu caso especial, a recordação de
tantas situações de que fui testemunha). Esse dom –
verdadeira dádiva do Criador –, ou se tem, ou se não
tem.»
Esta curta nota encerra, no essencial, o que gostaria de
transmitir aos que me ouvem sobre os méritos literários
de Gertrudes da Silva. Mas, naturalmente, há algo mais a
dizer sobre esta nova obra.
Concebida e articulada numa bem urdida sucessão de
imagens, como se de um argumento de cinema se tratasse,
A Pátria ou a Vida é, fundamentalmente, a visão
romanceada da experiência pessoal do autor como
comandante de uma Companhia de Caçadores, no contexto da
guerra na Guiné. É, também, a continuação da obra
anterior, e, assim o espero, a que anuncia a inevitável
chegada de outro título que materialize uma Trilogia
sobre a eterna questão da articulação dos valores da
Pátria com o usufruto da Vida.
A insistência da expressão Pátria nos títulos das
duas obras até agora publicadas tem, naturalmente, uma
importância – direi mesmo uma pertinência – que julgo
dever sublinhar, especialmente para aqueles que, pela
sua juventude, não viveram em idade adulta a época da
nossa história aqui abordada. Educados rigidamente no
pressuposto de que, como rezava o artigo 2.º do Acto
Colonial, pertencia à «essência orgânica da Nação
portuguesa a missão histórica de possuir e colonizar
territórios ultramarinos, e de civilizar as populações
indígenas que neles se compreendam», era na defesa deste
dogma que se justificava por inteiro o conceito de
Pátria oficializado pelo regime do Estado Novo. Perante
vozes discordantes, chamando a atenção para o
anacronismo da dominação colonial, quando, entretanto,
outras potências – bem mais poderosas do que Portugal –
procediam à emancipação dos povos que tutelavam, logo se
inventou o definitivo mandamento que estipulava, de
forma irredutível: A Pátria não se discute,
defende-se! E, claro, quem insistisse em continuar a
discussão, era traidor.
Tenho, para mim, que este slogan patriótico foi de uma
eficácia extraordinária. Se é certo que alguns poucos
jovens abandonaram o país, furtando-se ao cumprimento
dos deveres militares, porque não conseguiam viver com a
ideia de ir para a guerra, muitos mais terão aceite a
mobilização porque não conseguiam viver com a ideia da
deserção, isto é, com a falta ao chamamento da Pátria.
O grau de heroicidade que esta atitude encerra é
sublinhado pelo autor, com amargo humor, quando, a p.
154, nos descreve o capitão, a dizer aos seus
subordinados que «Uma vez que aceitaram vir para
aqui, então eram todos voluntários». Claro que se
tratava de uma heroicidade sem epopeia. Habituados ao
aforismo de que «quem vai à guerra dá e leva», os heróis
desta história rapidamente constatavam a inevitabilidade
táctica de se “levar” muito mais do que o que se
conseguia “dar”. Podia o leitor desprevenido, alimentar
algumas dúvidas sobre a genuinidade dos cenários e das
emoções descritos neste livro. A História que atrás
designei por “pura e dura” não consente uma tal dúvida.
Uma personalidade insuspeita como o general António de
Spínola – que era, na época da narrativa, Governador e
Comandante-Chefe na Guiné –, haveria de traçar, da tal
guerra sem epopeia, no seu livro Portugal e o Futuro,
este retrato de uma missão sem glória:
«Sobre os alicerces herdados da História, temos perante
nós um futuro de prosperidade que é preciso construir.
Na defesa desses alicerces se consome a Nação e, se não
podemos aceitar a ideia de que seja em vão tanto
sacrifício, tão pouco podemos admitir que hoje se morra
apenas para que amanhã continue a morrer-se.»
Feito este retrato da atmosfera em que decorre a acção,
importa prevenir o leitor de outra curiosidade muito
relevante. Pode parecer que, neste cenário sombrio em
que decorre a acção, se deveria esperar uma narrativa
angustiada, melancólica e plena de dramatismo. Optou o
autor – e muito bem, na minha opinião – por verter para
o texto os contornos daquele tipo de sublimação, tão
próprio do povo português, que permite enfrentar as
piores situações sem perder um certo tipo de sentido
crítico, recheado de humor, ironia e sabor a fado (mesmo
quando está em jogo mais a Vida do que a Pátria).
Utilizando uma notável riqueza de expressões e a
musicalidade própria de um irreverente linguajar
popular, Gertrudes da Silva estruturou a história de uma
forma quase cinematográfica, utilizando como narradores,
alternadamente, algumas das principais personagens do
seu livro. Como curiosidade muito conseguida, anoto que
uma parte importante da narração é confiada a uma
espécie de “voz colectiva”, a qual representa a
“unidade” – termo aqui empregue em estrito sentido
militar, isto é, a Companhia de Caçadores em que a acção
decorre.
Antes de concluir este meu comentário, permitam-me que
sublinhe, aqui, um inesperado dom literário com que o
autor nos brinda na p. 231 e sgs.. Refiro-me à cena do
furriel Antunes e do sistema de armadilhas. Na descrição
dessa passagem, deparam-se-nos todos os condimentos que
costumamos encontrar nas mais famosas obras de cinema de
acção – ritmo de narrativa, pormenor de movimentos,
incerteza e ansiedade prestes a explodir e frenético
galope de emoções. Atrevo-me a alvitrar que quem
escreveu esta cena pode, querendo, enveredar por outros
tipos de literatura.
Termino fazendo votos para que esta obra tenha, junto do
público, o êxito que amplamente merece, e que não tarde
o complemento que nos traga, agora, a evocação do
reencontro festivo da Pátria com a alegria de Viver.
David Martelo
Porto, 9 de Março de 2005
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