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Enviado por
Afonso M F Sousa
De:
AFONSO M.F.SOUSA
Enviada: terça-feira, 10 de Outubro de 2006 15:17
Para: ...; ...; ...;
UTW; ...; ...; ...;
Assunto: Porque é que os
da minha geração atraiçoaram leais servidores de
Portugal
De:
Fernando Cruz Gomes
- Canadá (Sol Português)
Uma “revolução sem sangue...”?
Já o sabíamos. Já o tínhamos escrito. Agora,
porém, é a toda poderosa RTP a dar o mote para, uma vez
mais... Mais políticos e mais altos militares, alguns
ainda vivos, se cobrirem de vergonha. Talvez não tanto
pelo que fizeram... Mas pelo que deixaram fazer.
Com testemunhos insuspeitos, preto no branco, ficámos a
saber que Portugal, enquanto Pátria, servida por uns
quantos políticos de pacotilha e por algumas patentes
militares de opereta... Entregaram, na Guiné, às forças
que em 75 passaram a dominar o País... Os soldados que
nos tinham sido fiéis. Entregaram-nos, pronto. Sem
cuidar de saber o que lhes iria acontecer. Pois... Umas
quantas centenas foram fuziladas. Ou nos campos de
futebol. Ou nas “fugas” inventadas dos terríveis campos
de concentração. Que Portugal permitiu. Que Portugal
“abençoou”, embora agora todos nós juremos a pés juntos
que não. Pragmaticamente até somos capazes de dizer
que... não havia mais nada a fazer.
O “25 de Abril”. Efeméride que, aos poucos, se vai
perpetuando nos meandros da História. Com razões de
glória. Com motivos de vergonha. Sobretudo quando os
apaniguados que ainda existem teimam em atirar aos ares
com atoardas que querem que fiquem na História. A falar
(só) de heroismo e a querer apagar coisas que a História
está a começar a alinhar. Neste caso, pelas mãos de quem
menos pensaríamos, como foi o caso da RTP.
Soldados guineenses que serviram Portugal nas Unidades
de Comandos. Entregues à morte por fuzilamento.
Entregues, afinal, por quem assinou as chamadas
“negociações” de Argel. Alguns dos poucos sobreviventes
aos “massacres” ainda têm forças para gritar frente às
câmaras televisivas o seu amor a Portugal. “Eu
jurei bandeira... Por Portugal”. “Sou leal a Portugal”.
“Sou ainda... português”. Por sobre tudo, o bacoco do
Nino Vieira a atirar mais umas quantas atoardas, ele que
tem também as mãos cheias de sangue, a dizer que “sim...
Que Portugal tem o dever moral de ajudar aquelas
famílias”.
Ouvimos. Pasmámos. E ainda temos dificuldade em entender
ser possível ouvir dizer – e ainda agora aconteceu – que
o “25 de Abril” foi uma revolução sem sangue. É que a
Guiné foi apenas um exemplo. Angola e Moçambique também
tem páginas... Que nos deveriam cobrir de vergonha.
Entregar soldados – que eram, tecnica e realmente
soldados de Portugal – aos seus algozes não é mais do
que “massacrar”.
O “25 de Abril” deu a Portugal algo de bom, sim. Mas a
meditação não deveria toldar-nos a mente para não vermos
que, de facto, a chamada “descolonização exemplar” nos
cobriu, igualmente, de vergonha. Uma vergonha que há-de
cair sobre a cabeça dos nossos filhos e netos. E mesmo
que se diga que Portugal respondeu a crimes feitos pelos
extremistas... Que não tinha outra solução senão fazer o
que fez... Entendemos que não há forma de entender... A
vergonha que é entregar à morte – todos deveriam saber
que era a morte que os esperava – milhares de soldados
guineenses, angolanos e moçambicanos, que serviram
Portugal. Que tinha jurado bandeira por Portugal. Que
tinham jurado fidelidade ao velho... Portugal.
Foi, então, uma “revolução sem sangue”? Com muitos
cravos vermelhos, não é? Talvez que em Portugal...
Talvez que nas fileiras das Forças Armadas lá no “puto”.
Talvez... Mas e os milhares que entregámos à morte? Não
se contabilizam? Não são gente...? Não têm sangue,
talvez!
Por mim... Continuo envergonhado! Angustiado! Com a
certeza de não saber explicar aos netos – se algum dia
eles me perguntarem –
porque é que os da minha geração atraiçoaram leais
servidores de Portugal.
E só não choro, porque de tanto amargor... As lágrimas
de há muito me secaram nos olhos. Talvez seja uma
meditação que muitos chamarão de “reaccionário” ou mesmo
“fascista”. É possível. Mas como também já houve quem
alinhasse, frente a mim, outros “istas” – mesmo esse que
está a pensar... – não me apoquenta o epíteto.
Apoquenta-me, isso sim, essa vergonha... Que
colectivamente me vai roendo as entranhas.
Fernando Cruz Gomes - Canadá (Sol Português)
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