"Massacre do Chão Manjaco": dia 20 de Abril de 1970 (16H00)
Enviado por Afonso M. F. Sousa

Tenente-Coronel Joaquim Pereira da Silva
(Major à data da sua morte)
De:
AFONSO M.F.SOUSA
Enviada: quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 1:35
Para:
fguilherme
Assunto: Ten.
Coronel Joaquim Pereira da Silva - Cemitério de Galegos
(Penafiel)
Caro Senhor F. Guilherme
Antes de mais os meus respeitosos cumprimentos.
Quero, desde já, agradecer-lhe, bem como a seu pai e irmão, pela simpatia com que me atenderam no passado Domingo, quando, de certa forma, anonimamente, me desloquei até ao cemitério paroquial de Galegos para um singelo preito a um bravo ex-militar que honrou de forma tão relevante a sua pátria e a sua família.
Eu acho que tinha esta obrigação, não só por isso mas também por uma espécie de dívida de memória.
No longínquo 6 de Maio de 1970, quando em Bissau, embarcávamos no "Carvalho de Araújo" rumo a Lisboa, depois do cumprimento da missão na Guiné, fomos colhidos de alguma surpresa quando, de cima, olhando para o porão vimos (paralelamente) 4 urnas. Alguém nos confidenciou em tom leve: são três majores e um alferes.
A vivência da guerra ensinou-nos, para estes casos, o respeito pela contenção, pelo silêncio. Nunca soube quem eram nem em que circunstâncias teria ocorrido esta fatalidade.
Graças este extraordinário repositório de testemunhos de guerra que é o "BLOG LUIS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ" foi possível clarificar esta interrogação que transportei comigo. Chegámos a Lisboa a 13 de Maio de 1970, nós e também aqueles que tão generosamente deram a sua vida por algo a que se comprometeram pelo juramento.
O seu tio (e padrinho) foi um exemplo de militar, segundo os vários escritos e testemunhos. Como o seu pai (irmão do Major Pereira da Silva) me transmitiu, esta era a 3ª e sua última comissão de serviço no ultramar ( uma em Angola e duas na Guiné). Estava, inclusivamente, já combinado com ele que a sua (vossa) casa iria ser inaugurada quando ele chegasse. Esse acto não se consumou e foi, pura e simplesmente, suprimido para sempre.
Relativamente ao Blog "Luis Graça & Camaradas da Guiné" ele é já um dos trabalhos (online) (*) mais exaustivos sobre a história da guerra colonial na Guiné (1963-1974), através de testemunhos e documentos apresentados por ex-combatentes (até mesmo de alguns que militavam no campo contrário) que se constituiram em "Tertúlia da Memória da Guiné".
Em anexo envio-lhe uma listagem, dos muitos documentos que têm vindo a ser editados no blog, e que continuam a crescer todas as semanas.
Ao atingir-se a capacidade do primeiro Blog, foi necessário passar-se a um segundo, a partir de 02.06.2006.
Na listagem apresentada, existe uma data à direita, a qual serve de referência para encontrar o documento - identifica a data em que este foi colocado no blog.
Chamava-lhe à atenção para os "posts" referidos na folha 2, do documento Guiné - Blog.xls, que intitulei de "Área Chão Manjaco" e que reportam os documentos inerentes à área de actuação do Major Joaquim Pereira da Silva, como o "post" CCCXIII, de 25 de Novembro 2005, da autoria de João Varanda, que faz uma abordagem ao triste acontecimento de 20 de Abril 1970, na picada Pelundo – Jolmete.
E não resisto também a transcrever-lhe outro texto magnífico do então alferes João Tunes, em comissão no Pelundo e que teve o privilégio de conhecer e até conviver com os três desafortunados majores:
"Meto-me no jipe e faço-me à
estrada que liga Pelundo a Teixeira Pinto (hoje Canchungo).
...dá para encher os olhos com o verde vivo do arvoredo
cerrado e as milhentas espécies de aves de muitas cores...
...a zona é segura mas
aqueles sítios são magníficos para uma emboscada. Olá se
são.
...Os oficiais convidam-me para almoçar, o que já contava.
Aceito com gosto. Malta porreira e com pessoas que é um encanto
conversar. Para mais, em Teixeira Pinto, a comida era óptima
para os padrões da colónia. Spínola tinha levado, para Teixeira
Pinto, a sua elite de oficiais, na aposta de transformar o "chão
manjaco" num caso de sucesso de adesão das populações à sua
política e de contenção da guerrilha.
O comando era ocupado pelo Coronel Paraquedista Alcino, um
bonacheirão e homem que muito sabia de guerra. Abaixo dele,
havia o Major Passos Ramos, responsável pelas operações, o Major
Pereira da Silva, responsável pelas informações militares e o
Major Osório, condecorado com Torre e Espada e várias Cruzes de
Guerra, que era o homem dos combates.
Na parte guerreira, vários oficiais fuzas, todos eles recheados
de condecorações por bravura em combate. A seguir ao almoço,
havia sempre um convívio relax no bar de oficiais, onde dava
para se descontraírem as conversas, pondo-se a escrita em dia
enquanto se bebiam uns (infindáveis) digestivos.
Não me diziam grande coisa os oficiais de combate. Com eles, as
histórias andavam por repetição de feitos em golpes de mão
ocorridos algures. Ainda por cima, agora tinham pouco para
contar, porque a zona estava tranquila e as operações especiais
eram só de quando em vez para os casos de haver informações de
movimentos entre bases da guerrilha ou de infiltração
desta nalguma aldeia. Até se mostravam um pouco nervosos com a
inércia a que estavam amarrados.
Um dos dois tenentes fuzileiros (ia na terceira comissão na
Guiné, sempre como voluntário) dizia até que, se aquilo
continuasse assim, não queria mais Guiné e ia mas era
oferecer-se como voluntário para o Vietname. Ele gostava e
queria guerra. Ambos os tenentes fuzileiros (Brito e Benjamim)
haveriam de fazer, mais tarde, outras guerras em serviço
spinolista como a célebre sublevação de 11 de Março de 1975 e,
depois, entrariam nas operações do MDLP sob a direcção de Alpoim
Galvão.
Quanto ao Major Osório, sempre de t-shirt branca, pouco falava
mas era muito respeitado. Aquilo era gente de acção e quando a
não tinham, cediam à espera tensa e ansiosa de mais acção. Em
resumo, eram guerreiros em descanso forçado.
O Major Pereira da Silva, de enormes bigodes revirados, não
parecia um militar. Mal enfiado dentro da farda, o homem era um
intelectual. Falava todos os dialectos usados na zona, conhecia
de fio a pavio todos os usos e costumes das tribos da Guiné,
andava sempre pelas aldeia a completar os seus conhecimentos e a
farejar informações úteis. Em colaboração com a Pide, dirigia a
rede de informadores e era o negociador com os cisionistas
do PAIGC, dispostos a entregarem-se. Era um comunicador
excelente e um homem completíssimo em cultura(s) africana(s).
Dava gosto ouvi-lo e aprender com ele, tanto mais que tinha,
para com os africanos, uma autêntica reverência cultural,
particularmente quando se tratava dos manjacos.
O Major Passos Ramos era o crâneo do comando militar. O pensador
de toda a estratégia e o homem que fazia as sínteses do
cumprimento da missão para toda a zona.
Excelente
conversador e homem culto, o Major Passos Ramos irradiava
encanto e inteligência. Era um oposicionista manifesto e
assumido ao regime e tinha, inclusive, participado na Revolta da
Sé. Quando encontrava um miliciano chegado de fresco ou vindo de
férias, ele imediatamente rumava a conversa para as actividades
oposicionistas e pedia previsões sobre quando o regime iria
cair.Spínola estava encantado com o andamento das coisas no
“chão manjaco”.
Tudo ia bem ou parecia andar. E os oficias de Teixeira Pinto
eram mesmo a sua nata. Eram militares profissionais de primeira
água que faziam a guerra o melhor que sabiam e podiam. A meio da
tarde, regressei a Pelundo. Sem problemas. Apenas com mais suor
que aquele que tinha levado na ida. Mas sem rolas, porque
faltara pachorra para caçadas. Passado pouco tempo,
desterraram-me para o Sul da Guiné, onde a guerra era bem mais
quente. Efeito subsidiário da pena de prisão de três dias que
apanhara por me ter recusado a cumprir a ordem de um
Tenente-Coronel para bater num Cabo.
Fiz, então, a última viagem
de jipe do Pelundo até Teixeira Pinto para apanhar o avião que
me levaria, em trânsito, até Bissau. Mas, antes de embarcar no
avião, não faltaram os três majores na pista para darem abraços
de despedida (e de solidariedade).
O adeus do major Passos Ramos foi o mais emotivo porque tinha
ganho uma especial empatia comigo, alimentada de cumplicidade
política e de estima pessoal. Ainda hoje me parece sentir nas
costas o toque afectivo das palmas das suas mãos. Foi a última
vez que vi Pelundo e Teixeira Pinto. E os três majores.
Já colocado em Catió, tive notícias dos três majores e meus
amigos. Notícias que correram mundo.Toda a guerrilha do PAIGC,
no "chão manjaco" e noutras zonas do norte,” tinha
decidido” render-se e passar para o lado do exército colonial.
Era a cereja no cimo do bolo. Estava tudo tratado até ao
pormenor. Havia fardas portuguesas já prontas para os
guerrilheiros vestirem logo que chegassem a Teixeira Pinto e
estava tudo tratado sobre patentes e instalações das famílias.
Cada antigo guerrilheiro teria casa e comida e o soldo
correspondente à sua nova patente e em igualdade com os
militares europeus. Aquela seria a grande vitória política e
militar do General Spínola. Precisamente na altura em que
quase toda a gente considerava a guerra na Guiné como já
perdida.
Os guerrilheiros colocaram uma única condição. Fariam a sua
rendição em plena mata, junto a Pelundo, mas os oficiais
portugueses que fossem receber os guerrilheiros teriam de
comparecer desarmados. Como prova de confiança. Várias fontes
confirmam que Spínola quis ir em pessoa presidir à rendição e só
foi disso dissuadido no último minuto. A delegação para
aceitar a rendição das forças do PAIGC foi constituída pelos
Majores e meus amigos Osório, Pereira da Silva e Passos Ramos.
Foram ao encontro dos guerrilheiros, ultraconfiantes, sem
armas, num jipe vulgar e sem qualquer escolta. Felizes pelo
sucesso iminente.
Chegados ao local de encontro, os três majores foram retalhados
a tiro de kalashnikov e acabados de matar à catanada. Sem
dignidade e com requintes de barbárie.
Spínola, o seu estado-maior e os majores tinham-se enganado sobre o PAIGC. A manha e a paciência dos guerrilheiros tinha sido maior que as tecidas pelas melhores inteligências do exército colonial e da Pide. Spínola perdeu os seus três melhores oficiais na Guiné de uma única vez. Eu perdi três amigos. Sem honra nem glória".
Dos pormenores que gentilmente me relatou desta trágica ocorrência, constatam-se, por vezes, uma ou outra ligeira divergência ou omissão nas diversas crónicas sobre o assunto.
Referiu-me:
- Ao chegarem ao local, o jipe com os 4 oficiais foi "esburacado" com dezenas/centenas de tiros. Surpreendidos, os oficiais envolveram-se em luta desesperada e como que a quererem interrogá-los para esta conduta. Aí, o confronto desenrolou-se à catanada. A um dos majores foi, sanguinariamente, cortada a cara e o seu tio foi neutralizado com uma catanada no estômago. O outro major ainda conseguiu fugir mas foi apanhado 200/300 metros à frente.
Por fim deram, a cada um, um tiro na cabeça.
- No dia seguinte, foi Ramalho Eanes que procedeu ao levantamento dos corpos. Li algures que esse levantamento teria sido feito for forças da CCAÇ 2586, sob o comando do Ten. Coronel Romão Loureiro.
Como tem uma relação de amizade com o Gen. Ramalho Eanes, se se proporcionasse, talvez pudesse averiguar isto, assim como tentar localizar (através do Google Earth) o sítio exacto (na picada Pelundo-Jolmete) onde terá ocorrido este acontecimento. Seria uma informação importantíssima para esta "memória da guerra da Guiné". Seria nas proximidades do Pelundo ou de Jolmete ?
- Também uma referência a Spínola que não compareceu a este fatídico encontro, não por prévia intuição ou aconselhamento, mas porque dois dias antes tinha sido chamado a Lisboa, por Marcelo Caetano.
- Referiu-me o seu pai (Prof. Primário Aposentado) que o irmão (leia-se Major Pereira da Silva) quando foi para este derradeiro encontro (o décimo, creio eu) teve um pressentimento que algo de mau ia a acontecer e deixou escrita uma carta à esposa com esse presságio. A carta viria depois a ser entregue à sua tia juntamente com o restante espólio. Seria também interessante saber se a viúva estaria concordante com a sua publicação ou apenas a parte onde refere esse sinal de mau prenúncio. É um documento relevante, pois pode ter um significado mais profundo relativamente ao desenvolvimento da Op. Chão Manjaco. Também o seu pai me referiu a possibilidade de me enviar, por seu intermédio (e-mail) a fotografia do Major Joaquim Pereira da Silva.
Para concluir, aproveito para lhe enviar as fotografias que tirei no cemitério bem como outra em que, através do G. Earth, procuro fazer a sua implantação dentro da Freguesia de Galegos.
Igualmente, anexo outros documentos relacionados com este trágico desfecho da "Operação Chão Manjaco".
Mais uma vez, agradecendo a vossa gentileza, envio-vos um fraternal abraço.
Afonso M. Ferreira Sousa
NOTA: O Major Pereira da Silva, à data da sua morte, tinha 38 anos (nasceu a 5 de Outubro de 1931), foi promovido a Tenente-Coronel, a título póstumo
(*) Tendo como "manager do blog", Luís Graça (Dr.) - http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/
As Imagens:
Mapa da Guiné-Bissau
Pelundo (pormenor da picada)

Jolmete e a picada para sul

Fim trágico Op. Chão Manjaco - Estrada (picada) Pelundo - Jolmete
Cemitério Paroquial de Galegos
Igreja Paroquial de Galegos
Jazigo onde está depositada a urna
Morto, ao serviço da Pátria, na Guiné