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NOTÍCIA - "Uma Trágica História da Guerra"

 

Para visualização dos conteúdos clique em cada um dos sublinhados que se seguem:

 

"Uma Trágica História da Guerra", in Jornal "Diário do Sul", do Major Velez Correia

 

"Crimes e Stress... de "guerra"", comentário e informação, de Abreu dos Santos, sobre "Uma Trágica História da Guerra"

 

 

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Enviado por Miguel Oliveira

 

Imagens extraídas do Jornal "Diário do Sul", de 27 de Janeiro de 2009

Rubrica: "Em Frente Marche!"

 

 

"Uma Trágica História da Guerra"

do Major Velez Correia

Presidente do Núcleo de Estremoz da Liga dos Combatentes

 

 

 

 

 

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Crimes e Stress... de "guerra", comentário e informação, de Abreu dos Santos, sobre "Uma Trágica História da Guerra"

 

 

Não conheço o sr. major Velez Correia. Será com certeza um homem bem formado. Mas está muito mal informado. E deforma a opinião pública, fazendo-se eco - mesmo que involuntário - de "opinião" que tem vindo a ser "publicada" sobre aquele crime de homicídio tentado seguido por suicídio.

A título de exemplo, mais um, do forçado nexo causal - entre um crime e seu agente ser veterano de guerra -, veja-se a 1ª página (e a pág.53 da "Local-Porto") do matutino "Público" editado em 2 de Junho de 2000...

- «Évora - Família vítima do "stress" de guerra: O stress pós-traumático é a possível causa para o acto de um antigo páraquedista, mobilizado para Angola em 1960, que ontem, em Évora, disparou sobre o filho, de 26 anos e depois se suicidou. O jovem foi evacuado para Lisboa em estado grave.»
... e atente-se na reflexão do docente universitário Luís Quintais, epigrafada
«Medicalização da Experiência e Intencionalidade: a Aceitação de uma Nosologia como Motivo e Justificação da História», que pode ser consultada em

http://ultramar.terraweb.biz/Livros/LuisQuintais/PTSD_LQ6.pdf

É a persistência na urdidura - e de boamente aceitar a fabricação - de nexos causais (no caso vertente indexados à categórica afirmação
«família vítima do "stress" de guerra», mas logo ressalvada pelas devidas cautelas jornalísticas consignadas na figura-de-estilo
«é a possível causa para»...), os quais lançam labéus sobre todo e qualquer "stressado de guerra" ou que aparente sê-lo.

Felizmente não necessito, não necessitará porventura a maioria dos paisanos que "foram à tropa" nem de suas famílias e círculo de amizades, de grandes explicações académicas para ter a convicção de que assim não sucede com grande parte dos camaradas-de-armas, directos ou indirectos. Seja, a condição de veterano de guerra não implica - não pode nem deve de modo algum implicar -, estar-se perante um indivíduo potencialmente perigoso, seja para outrém seja para si próprio. Mas há muito quem acredite, ou queira acreditar, em tudo quanto "está escrito" nos jornais, "foi dito" na televisão, etc, etc.

Ora, parte substancial do conteúdo de
«Uma Trágica História da Guerra» - desde logo condicionado pelo título -, ...

- «Quando a Força Aérea se instalou em Angola, em 1960, o General Pinto Resende pediu sete pára-quedistas e ele foi incluído nesse grupo. Estavam por conseguinte, em Luanda [...] quando, na noite de 04 de Fevereiro de 1961 se deram os primeiros actos terroristas na esquadra da Polícia e na Casa de Reclusão. Pois este homem que estava aquartelado na estrada de Catete, foi o primeiro a dar o alarme destes acontecimentos. E como, na altura, não existiam tropas especializadas em Angola, foi ele e o seus camaradas pára-quedistas a tomar parte nas operações do Norte de Angola. Está escrito em jornais da época que durante duas semanas, oito homens estiveram cercados na Jamba por centenas de terroristas. O que passaram, o que sofreram e como resistiram, só eles o souberam descrever. E um desses homens era o pára-quedista da nossa história; duas semanas mal alimentados, sem dormirem, porque o primeiro descuido seria o seu fim, é pavoroso, abominável. Mas salvaram-se; porém, com marcas profundas que os acompanharam pela vida fora. Percorreu o nosso herói todo o flagelado Norte de Angola dos anos 60, tendo passado mais tarde por Moçambique, Guiné, [...] Era um stressado de guerra que nunca foi devidamente
acompanhado. E um dia assassinou friamente
[...]


... revela ser adaptação da "narrativa" reproduzida na pág.53 supra citada:

-
«Natural do Alvito, o alegado agressor fez a recruta em Évora e ofereceu-se como voluntário para os pára-quedistas, tendo sido mobilizado para Angola em 1960. Foi um dos oito primeiros efectivos daquela arma que ali chegaram. Segundo costumava contar, terá sido ele que deu o alarme quando, na noite de 4 de Fevereiro de 1961, ali eclodiram os tiroteios iniciais da guerra, nas cercanias do aeroporto de Luanda. Numa
entrevista publicada há um mês
[antes de 2 de Junho de 2000] no jornal "Diário do Sul", o ex-soldado narrou que, "como não havia tropas especializadas em Angola", os oito pára-quedistas terão sido "os primeiros a tomar parte nas operações" que marcaram o início da guerra colonial. "Estivemos cercados durante duas semanas, porque fomos em auxílio de uns brancos", recordou, declarando que ele e os sete camaradas permaneceram isolados na Jamba, debaixo de constantes ataques de "mais de cinco mil pretos" até à chegada de reforços.»

Mas na supra reproduzida "narrativa" adaptada (e adoptada), se feita a adequada "triagem anti-stress de guerra", nela podemos confirmar inconsistências várias que nada têm a ver com stress, "de guerra"; talvez qualquer outro tipo de stress, resultante de vivências outras mas diversas, em exclusivo, da guerra dita "colonial". Quanto àquela, e a situações às quais terá nela sido sujeito o ex-Soldado Pára-quedista Luís de Sousa - ocasional pintor de automóveis na situação de desemprego e
«bastante conhecido em Évora»
-, desde sempre por aquela cidade falou do seu tempo "da tropa" e, quando entrevistado pelo "Diário do Sul" em Maio de 2000 - seja, cerca de um mês antes do acto tresloucado -, não teve "problema algum" em repetir as histórias por ali já conhecidas.

Ora a decência comum e o respeito pela verdade dos factos - designadamente os especificamente "narrados" -, implicam que aqueles sejam confirmados, também, para desmontar elocubrações jornalísticas e de outra ordem ou intuito.


1.
«Quando a Força Aérea se instalou em Angola, em 1960»: as infraestruturas da FAP começaram a ser instaladas em Angola, em meados de 1959; e cerca de um ano depois foi constituída a 2ª Região Aérea sob comando do brigadeiro Fernando Ferreira Pinto de Resende, o qual de imediato ordenou «a implementação em Angola do dispositivo aéreo, previsto e resultado dos estudos levados a efeito localmente dois anos
antes
[...], que na sua fase inicial disporia de duas unidades aéreas respectivamente em Luanda [BA9] e no Negaje [AB3]


2.
«O General Pinto Resende pediu sete pára-quedistas e ele [Soldado PQ Luís de Sousa] foi incluído nesse grupo»: um general não "pede", para mais, sendo comandante de uma Região Aérea; e o primeiro destacamento de pára-quedistas, oriundo do RCP-Tancos e colocado em Angola, era constituído por 11 binómios cinófilos que desembarcaram no aeroporto Craveiro Lopes em 21Dez60, sob comando do tenente pára-quedista Manuel Claudino Martins Veríssimo, com a missão de «assegurar a defesa próxima da BA9 e preparar a futura instalação dos pára-quedistas naquela província ultramarina».


3.
«Este homem que estava aquartelado na estrada de Catete, foi o primeiro a dar o alarme destes acontecimentos»: na madrugada de 04Fev61, o destacamento pára-quedista mantinha-se - desde que havia chegado a Luanda - acantonado no hangar do respectivo aeroporto, cumprindo a sua missão de vigilância (ainda lá não havia chegado a Polícia Aérea), sendo que o aeroporto é muito distante da Estrada de Catete; e quanto a ter sido "o primeiro a dar o alarme destes acontecimentos"...


4.
«Durante duas semanas, oito homens estiveram cercados na Jamba por centenas de terroristas. O que passaram, o que sofreram e como resistiram, só eles o souberam descrever. E um desses homens era o pára-quedista da nossa história.»: as referidas "duas semanas", foram o período 03-12Abr61; os "oito homens", eram 10 efectivos - incluindo o tenente Veríssimo (que penso estar ainda  entre o mundo dos vivos) d- comandante de um pelotão da 1ªCCP (do futuro BCP21) entretanto constituída; e o nome da povoação era Damba.


5.
«Duas semanas mal alimentados, sem dormirem, porque o primeiro descuido seria o seu fim, é pavoroso, abominável. Mas salvaram-se; porém, com marcas profundas que os acompanharam pela vida fora.»

Chegado o leitor a este ponto, faça-se então o seguinte exercício: se todos os rapazes-homens que, durante o tempo de missão no mato, tenham estado submetidos a "duas semanas mal alimentados, sem dormirem, porque o primeiro descuido seria o seu fim", e dessas circunstâncias tenham resultado sequelas "profundas que os acompanharam pela vida fora", temos então de considerar a seríssima hipótese, de o Estado vir a ser forçado a criar hospícios para acolher centenas de milhar de portugueses... cacimbados!

Como se a "casualidade" de ter sido "operacional na guerra colonial", conduza invariavelmente à "causalidade" de insociabilidade, ao alcoolismo e à droga, ao banditismo, ao assassinato, ao suicídio!
Por outro lado, além do labéu que alguns psi's e alguma comunicação social periodicamente relançam sobre a "comunidade dos ex-combatentes", há a questão do alarme social, questão essa que pode configurar crime público quando o seu agente propaga, ou intenta propagar, ideias de hipotético mas não demonstrado perigo iminente para a 'res publica'.

Não creio que a necessidade de chamar a atenção dos poderes públicos para a carência de estruturas de apoio aos veteranos de guerra, possa justificar a recorrência a todos e quaisquer meios - principalmente por parte de representantes de uma idónea instituição como é a Liga dos Combatentes -, para que tão nobre e justo objectivo seja alcançado e concretizado.

Habituais saudações veteranas,

Abreu dos Santos

 

 

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