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NOTÍCIA

 

ESQUECIDOS - Ex-Combatentes sem apoios

Parte de um artigo publicado na edição de Maio do Jornal “O Condense”, da autoria de Manuel Queimado

 

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Em Portugal depois do 25 de Abril, fez-se um silêncio sobre a guerra do Ultramar. Os que tudo sacrificaram em nome do país foram ostracizados. Os heróis passaram a ser os que por medo, fugiram para o estrangeiro. Hoje dizem que foi por motivos políticos e segundo me consta até recebem subsídios por terem fugido a defender, certa ou erradamente, o País. Espero que a informação sobre este subsídio não se confirme. Seria a maior aberração da nossa História.

 

No final da 1ª Guerra mundial, com Portugal de rastos economicamente, os ex-combatentes foram recebidos como heróis e até gratificados. As homenagens multiplicaram-se por toda a parte. Apesar da mudança de regime, com a entrada em cena de Oliveira Salazar, nesse aspecto nada mudou. Não há uma cidade portuguesa que não tenha pelo menos um monumento aos combatentes da 1ª Guerra Mundial. Quantos existem a homenagear os ex-combatentes do Ultramar?

A guerra do Ultramar durou mais, foi mais violenta, provocou mais baixas, deixou mais marcas nos portugueses. Porquê a diferença de tratamento?

 

Fiz a guerra como miliciano. Verifiquei que apenas estes os militares do Serviço Militar Obrigatório e só estes, é que na realidade, viveram as contingências mais atrozes da guerra.

Os grandes combates dos militares do quadro permanente resumiram-se a lutar por mais uma comissão logo que a actual terminava. A sua aproximação ao perigo limitava-se ao inerente a quem vive numa cidade ou, nos piores casos, dentro dos quartéis situados no mato. A sua vida passava-se dentro dos arames que cercavam os quartéis. Eram por isso alcunhados de “aramistas”.

Foram alguns destes e não quem na realidade fez a guerra, que fizeram o 25 de Abril.

Claro que o 25 de Abril recebeu apoio por parte de toda a população, incluindo os ex-combatentes. No entanto quem o fez nunca se preocupou verdadeiramente com a situação dos ex-combatentes porque nunca sentiu os problemas destes. Não viveram, ao contrário do que a população em geral pensa, os momentos amargos da guerra. Hoje vivem o seu silêncio com as chorudas reformas que o estado lhes concedeu, não lhes ocorrendo sequer que existem portugueses que vivem com os fantasmas da guerra do Ultramar. Estarão a bem com a sua consciência? Sim, porque na realidade não fazem a mais pequena ideia do que seja efectivamente a guerra.

 

Por outro lado, pouco tempo depois do 25 de Abril, o poder foi tomado por indivíduos que tinham fugido, com medo, para o estrangeiro. Esses homens provavelmente também não estarão a bem com as suas consciências. Isso claro, para os que a têm! Inventam desculpas para a sua fuga, tecendo mesmo elogios a quem o fez. Não dizem que os ex-combatentes são criminosos, mas deixam que o seu silêncio o insinue. Na realidade não pensam isso. Sabem bem que os ex-combatentes foram vítimas das circunstâncias e em situação de extrema dificuldade, defenderam o seu país ao contrário deles. São, sem sombra de dúvida, os que melhor representam as qualidades e defeitos do povo português. Foram os últimos dos portugueses que nos fins do século XIV começaram a escrever as mais brilhantes páginas da nossa História.

 

Todos os países, até bem mais fracos economicamente que o nosso, tratam os seus ex-combatentes com dignidade. Na Rússia e no Brasil, por exemplo, têm condições especiais para estes cidadãos. Para não falar dos Estados Unidos em que os assuntos relativos aos ex-combatentes são despachados directamente pelo Presidente e todas as condições foram criadas para que nada falte aos “melhores americanos”. Em Portugal os ex-combatentes são os “piores portugueses”. Os melhores são aqueles que fugiram para longe quando o país precisava. Os “melhores” são aqueles que se servem do país e fugirão quando houver que pagar a factura. Não será este mais um dos motivos porque o país não progride?

 

Agora vem o actual Governo com medidas que dificultam ou impossibilitam que os ex-combatentes recebam  tratamentos para doenças, adquiridas ao serviço da pátria, com medidas a impedir o pagamento de um subsídio, já de si miserável, cerca de 130 euros por ano (10 Euros por mês), aos ex-combatentes.

É engraçado que estes mesmos senhores não impeçam que eles próprios recebam reformas de milhares de euros mensais, quando ainda estão no activo.

É engraçado que estes mesmos senhores não entendam que o país tem problemas económicos tão graves que impossibilitam que as empresas públicas paguem vencimentos chorudos a quem nem sequer se desloca à sede da mesma.

É engraçado que estes mesmos senhores não entendam que o país tem problemas económicas tão graves que impossibilitam que os seus representantes adquiram automóveis de luxo para substituição de viaturas que apenas têm dois anos de uso ou mandem remodelar os seus gabinetes que tinham sido remodelados pelo político anterior.

 

Quando as companhias militares se formavam, antes de irem para o Ultramar, era-lhes atribuída uma divisa de combate. Creio que no actual sistema político apenas se pode aplicar a frase que terá sido gritada por um companheiro de armas de D. Afonso Henriques, no momento da sua morte violenta:

 

“É fartar vilanagem…”

Manuel Queimado

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