|
... ... ... ... ...
Em Portugal depois do 25 de Abril, fez-se um silêncio sobre a
guerra do Ultramar. Os que tudo sacrificaram em
nome do país foram ostracizados. Os heróis
passaram a ser os que por medo, fugiram para o
estrangeiro. Hoje dizem que foi por motivos
políticos e segundo me consta até recebem
subsídios por terem fugido a defender, certa ou
erradamente, o País. Espero que a informação
sobre este subsídio não se confirme. Seria a
maior aberração da nossa História.
No
final da 1ª Guerra mundial, com Portugal de
rastos economicamente, os ex-combatentes foram
recebidos como heróis e até gratificados. As
homenagens multiplicaram-se por toda a parte.
Apesar da mudança de regime, com a entrada em
cena de Oliveira Salazar, nesse aspecto nada
mudou. Não há uma cidade portuguesa que não
tenha pelo menos um monumento aos combatentes da
1ª Guerra Mundial. Quantos existem a homenagear
os ex-combatentes do Ultramar?
A guerra do Ultramar durou mais, foi mais violenta, provocou
mais baixas, deixou mais marcas nos portugueses.
Porquê a diferença de tratamento?
Fiz a guerra como miliciano. Verifiquei que apenas estes os
militares do Serviço Militar Obrigatório e só
estes, é que na realidade, viveram as
contingências mais atrozes da guerra.
Os grandes combates dos militares do quadro permanente
resumiram-se a lutar por mais uma comissão logo
que a actual terminava. A sua aproximação ao
perigo limitava-se ao inerente a quem vive numa
cidade ou, nos piores casos, dentro dos quartéis
situados no mato. A sua vida passava-se dentro
dos arames que cercavam os quartéis. Eram por
isso alcunhados de “aramistas”.
Foram alguns destes e não quem na realidade fez a guerra, que
fizeram o 25 de Abril.
Claro que o 25 de Abril recebeu apoio por parte de toda a
população, incluindo os ex-combatentes. No
entanto quem o fez nunca se preocupou
verdadeiramente com a situação dos
ex-combatentes porque nunca sentiu os problemas
destes. Não viveram, ao contrário do que a
população em geral pensa, os momentos amargos da
guerra. Hoje vivem o seu silêncio com as
chorudas reformas que o estado lhes concedeu,
não lhes ocorrendo sequer que existem
portugueses que vivem com os fantasmas da guerra
do Ultramar. Estarão a bem com a sua
consciência? Sim, porque na realidade não fazem
a mais pequena ideia do que seja efectivamente a
guerra.
Por outro lado, pouco tempo depois do 25 de Abril, o poder
foi tomado por indivíduos que tinham fugido, com
medo, para o estrangeiro. Esses homens
provavelmente também não estarão a bem com as
suas consciências. Isso claro, para os que a
têm! Inventam desculpas para a sua fuga, tecendo
mesmo elogios a quem o fez. Não dizem que os
ex-combatentes são criminosos, mas deixam que o
seu silêncio o insinue. Na realidade não pensam
isso. Sabem bem que os ex-combatentes foram
vítimas das circunstâncias e em situação de
extrema dificuldade, defenderam o seu país ao
contrário deles. São, sem sombra de dúvida, os
que melhor representam as qualidades e defeitos
do povo português. Foram os últimos dos
portugueses que nos fins do século XIV começaram
a escrever as mais brilhantes páginas da nossa
História.
Todos os países, até bem mais fracos economicamente que o
nosso, tratam os seus ex-combatentes com
dignidade. Na Rússia e no Brasil, por exemplo,
têm condições especiais para estes cidadãos.
Para não falar dos Estados Unidos em que os
assuntos relativos aos ex-combatentes são
despachados directamente pelo Presidente e todas
as condições foram criadas para que nada falte
aos “melhores americanos”. Em Portugal os
ex-combatentes são os “piores portugueses”. Os
melhores são aqueles que fugiram para longe
quando o país precisava. Os “melhores” são
aqueles que se servem do país e fugirão quando
houver que pagar a factura. Não será este mais
um dos motivos porque o país não progride?
Agora vem o actual Governo com medidas que dificultam ou
impossibilitam que os ex-combatentes recebam
tratamentos para doenças, adquiridas ao serviço
da pátria, com medidas a impedir o pagamento de
um subsídio, já de si miserável, cerca de 130
euros por ano (10 Euros por mês), aos
ex-combatentes.
É engraçado que estes mesmos senhores não impeçam que eles
próprios recebam reformas de milhares de euros
mensais, quando ainda estão no activo.
É engraçado que estes mesmos senhores não entendam que o país
tem problemas económicos tão graves que
impossibilitam que as empresas públicas paguem
vencimentos chorudos a quem nem sequer se
desloca à sede da mesma.
É engraçado que estes mesmos senhores não entendam que o país
tem problemas económicas tão graves que
impossibilitam que os seus representantes
adquiram automóveis de luxo para substituição de
viaturas que apenas têm dois anos de uso ou
mandem remodelar os seus gabinetes que tinham
sido remodelados pelo político anterior.
Quando as companhias militares se formavam, antes de irem
para o Ultramar, era-lhes atribuída uma divisa
de combate. Creio que no actual sistema político
apenas se pode aplicar a frase que terá sido
gritada por um companheiro de armas de D. Afonso
Henriques, no momento da sua morte violenta:
“É fartar vilanagem…”
Manuel Queimado
|