Depois do
Ultramar, José Esteves Cabaço nunca teve o
mesmo emprego durante mais de três anos. Tem 62
anos, as paredes de casa com quadros que pintou nos
últimos 10 anos - um deles uma tela comprida, com
castanhos acobreados e cor de vinho, estilhaços de
explosões e crânios. Não tem título, "é uma
batalha". São memórias, "mas não é o que eu sinto".
A frase resume: viveu quase 40 anos com
stress pós-traumático de guerra, sem
tratamento até que, há dois anos e meio, procurou
ajuda. O psiquiatra aconselhou-o a experimentar um
programa de realidade virtual, parte de um projecto
ainda experimental que está a ser desenvolvido pelo
laboratório de psicologia computacional da
Universidade Lusófona, em Lisboa. Aceitou,
e dos 25 mil veteranos de guerra com stress de
pós-traumático que se imagina haver em Portugal,
está entre os poucos que sabem o que é melhorar da
doença. Os resultados científicos do projecto
liderado pelo investigador Pedro Gamito começam
agora a sair. Num artigo publicado no final do ano
na revista "CyberPsychology & Behavior" demonstram
que, num pequeno estudo-piloto - em que participou
José Esteves Cabaço - a realidade virtual reduz os
sintomas de ansiedade e depressão associados ao
stress pós-traumático.
Regressar à guerra A psicoterapia é
considerada o tratamento mais eficaz das
perturbações ansiosas e pressupõe que os doentes
possam reviver as situações de trauma. Dentro dela,
a realidade virtual permite uma exposição artificial
às raízes do medo.
Se lá fora é um "nicho de mercado", explica Pedro
Gamito, em Portugal passa pela "carolice" dos
estudantes que há cinco anos se dedicam aos cenários
virtuais. O processo é ponderado, mas simples: usam
o motor gráfico Hammer do jogo de tiros Half-Life 2,
"à venda por 49,90 euros." É alterado para tornar os
cenários verosímeis - adaptaram os fardamentos à
roupa dos comandos na década de 70, e reproduziram
as espingardas do Ultramar. Depois, em 12 níveis e
com uns óculos de realidade virtual, o objectivo é
haver uma "imersão" no ambiente de emboscada, com
tiros, explosões e salvamentos de helicóptero.
"É uma confrontação sempre com alguma violência
emocional. A ideia é o doente conseguir perceber que
as memórias traumáticas que tem se reportam a um
tempo que passou", adianta Pedro Gamito. Com o mesmo
princípio criaram cenários para o medo de andar de
avião, de metro, ou para fobias de pombos ou cães.
Até hoje tiveram uma experiência clínica no Hospital
Júlio de Matos, no projecto-piloto com a APOIAR -
Associação de Apoios aos Ex-Combatentes Vítimas do
Stress de Guerra e esperam agora começar consultas
numa clínica do grupo Lusófona, em Lisboa.
A explicação biológica para este tipo de
perturbações ainda não está fechada, diz Pedro
Gamito. "Quando a pessoa ouve uma palma repentina, a
amígdala dispara e inunda o cérebro com adrenalina e
noradrenalina. Na perturbação pós-traumática,
pensa-se que estes mecanismos estão desregulados
porque existe uma memória antiga que, à mínima
pista, neste caso auditiva, é puxada para a frente",
adianta o investigador. Estas hormonas fecham o lobo
frontal, o sistema executivo do cérebro. "As pessoas
não percebem que não estão na guerra."
No caso desta doença, a principal conquista é
estabilizar o doente. José Esteves Cabaço é um bom
exemplo. Esteve em Angola entre 1969 e 1971. "Aqui
tinha estado 12 dias no mato a pão e água", lembra,
enquanto aponta numa fotografia um rapaz bonito, de
espingarda ao ombro. No regresso, quem era tinha
mudado. Em Luanda atirava-se para o chão quando
ouvia um estrondo, depois ficou isolado e instável.
Além da terapia, toma um antidepressivo de manhã e
um ansiolítico ao deitar. "Voltei a conseguir
concentrar-me. Consigo controlar as situações", diz.
Nos últimos meses leu Bolaño e Saramago. A realidade
virtual rematou o tratamento: "Ajudou-me a arrumar
as memórias, a fome e a sede, como as gavetas de um
cemitério."