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NOTÍCIA - Stress Pós-Traumático

 Informação de José Martins

 

Terapia. Vencer os traumas da guerra com realidade virtual - vídeo

 

por Marta F. Reis, de 26Jan2010

 

Psicologia computacional avança em Portugal. Ferramenta virtual combate depressão

 

Para visualização do vídeo: Clique aqui

 

Depois do Ultramar, José Esteves Cabaço nunca teve o mesmo emprego durante mais de três anos. Tem 62 anos, as paredes de casa com quadros que pintou nos últimos 10 anos - um deles uma tela comprida, com castanhos acobreados e cor de vinho, estilhaços de explosões e crânios. Não tem título, "é uma batalha". São memórias, "mas não é o que eu sinto". A frase resume: viveu quase 40 anos com stress pós-traumático de guerra, sem tratamento até que, há dois anos e meio, procurou ajuda. O psiquiatra aconselhou-o a experimentar um programa de realidade virtual, parte de um projecto ainda experimental que está a ser desenvolvido pelo laboratório de psicologia computacional da Universidade Lusófona, em Lisboa. Aceitou, e dos 25 mil veteranos de guerra com stress de pós-traumático que se imagina haver em Portugal, está entre os poucos que sabem o que é melhorar da doença. Os resultados científicos do projecto liderado pelo investigador Pedro Gamito começam agora a sair. Num artigo publicado no final do ano na revista "CyberPsychology & Behavior" demonstram que, num pequeno estudo-piloto - em que participou José Esteves Cabaço - a realidade virtual reduz os sintomas de ansiedade e depressão associados ao stress pós-traumático.

Regressar à guerra A psicoterapia é considerada o tratamento mais eficaz das perturbações ansiosas e pressupõe que os doentes possam reviver as situações de trauma. Dentro dela, a realidade virtual permite uma exposição artificial às raízes do medo.

Se lá fora é um "nicho de mercado", explica Pedro Gamito, em Portugal passa pela "carolice" dos estudantes que há cinco anos se dedicam aos cenários virtuais. O processo é ponderado, mas simples: usam o motor gráfico Hammer do jogo de tiros Half-Life 2, "à venda por 49,90 euros." É alterado para tornar os cenários verosímeis - adaptaram os fardamentos à roupa dos comandos na década de 70, e reproduziram as espingardas do Ultramar. Depois, em 12 níveis e com uns óculos de realidade virtual, o objectivo é haver uma "imersão" no ambiente de emboscada, com tiros, explosões e salvamentos de helicóptero.

"É uma confrontação sempre com alguma violência emocional. A ideia é o doente conseguir perceber que as memórias traumáticas que tem se reportam a um tempo que passou", adianta Pedro Gamito. Com o mesmo princípio criaram cenários para o medo de andar de avião, de metro, ou para fobias de pombos ou cães. Até hoje tiveram uma experiência clínica no Hospital Júlio de Matos, no projecto-piloto com a APOIAR - Associação de Apoios aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra e esperam agora começar consultas numa clínica do grupo Lusófona, em Lisboa.

A explicação biológica para este tipo de perturbações ainda não está fechada, diz Pedro Gamito. "Quando a pessoa ouve uma palma repentina, a amígdala dispara e inunda o cérebro com adrenalina e noradrenalina. Na perturbação pós-traumática, pensa-se que estes mecanismos estão desregulados porque existe uma memória antiga que, à mínima pista, neste caso auditiva, é puxada para a frente", adianta o investigador. Estas hormonas fecham o lobo frontal, o sistema executivo do cérebro. "As pessoas não percebem que não estão na guerra."

No caso desta doença, a principal conquista é estabilizar o doente. José Esteves Cabaço é um bom exemplo. Esteve em Angola entre 1969 e 1971. "Aqui tinha estado 12 dias no mato a pão e água", lembra, enquanto aponta numa fotografia um rapaz bonito, de espingarda ao ombro. No regresso, quem era tinha mudado. Em Luanda atirava-se para o chão quando ouvia um estrondo, depois ficou isolado e instável. Além da terapia, toma um antidepressivo de manhã e um ansiolítico ao deitar. "Voltei a conseguir concentrar-me. Consigo controlar as situações", diz. Nos últimos meses leu Bolaño e Saramago. A realidade virtual rematou o tratamento: "Ajudou-me a arrumar as memórias, a fome e a sede, como as gavetas de um cemitério."

 

Fonte:

http://www.ionline.pt/conteudo/43640-terapia-vencer-os-traumas-da-guerra-com-realidade-virtual---video

 

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