«Peregrinação a Fátima nos dias 18 e
19 de Julho de 1968»
in: "Jornal do
Exército", ed. 104, Ago1968

Realizou-se
em 18 e 19 de Julho a peregrinação anual dos doentes e
mutilados, internados nos Hospitais Militar Principal -
Lisboa e Militar Regional N.º 1 - Porto.
Intenções da Peregrinação:
A realização anual da peregrinação de doentes militares
a Fátima, sob o alto patrocínio do Ministro do Exército,
para corresponder ao desejo manifestado pelos militares
feridos e mutilados em Africa, tem por finalidade depor
aos pés de Nossa Senhora as seguintes intenções:
- Sufragar as almas dos soldados caídos na defesa da
Pátria;
- Pedir a Nossa Senhora as melhoras e o conforto
espiritual de todos os doentes dos hospitais militares;
- Orar pela paz do nosso país e pelo Exército,
especialmente pelos militares que combatem no Ultramar;
- Suplicar a Nossa Senhora - Mãe da Igreja - que acolha
sob o seu manto maternal todos os cristãos.

Os peregrinos representarão, na Cova da Iria, junto de
Nossa Senhora, todos os militares doentes, feridos e
mutilados, hospitalizados ou não, espalhados por todo o
território nacional, desde os Hospitais Militares da
Metrópole e do Ultramar às enfermarias dos comandos de
zona ou sector, das Unidades ou destacamentos, onde
esperam a recuperação da sua saúde tantos dos nossos
bravos e heroicos militares.
Na Capelinha das Aparições, ajoelhados aos pés da Virgem
de Fátima, todos e cada um dos peregrinos elevarão à
Senhora da Saúde uma fervorosa prece, não só a
suplicar-lhe as suas melhoras pessoais mas também as de
todos os camaradas que, por doença ou pela distância,
não podem estar presentes na Cova da Iria.
Tomaram parte na Peregrinação:
- 300 doentes e mutilados do Hospital Militar Principal
- Lisboa;
- 50 convalescentes do Depósito dos Indisponíveis
-Lisboa;
- 50 doentes e mutilados do Hospital Militar Regional
N.º 1 - Porto, acompanhados por Oficiais-Médicos e
pessoal de enfermagem.

O Capelão-Mor das Forças Armadas, Bispo de Madarsuma,
proferiu perante os peregrinos a homilia que publicamos
a seguir:
Ao mesmo tempo que vos
trago a minha saudação muito cordial e comovida,
queridos doentes, desejo trazer-vos sobretudo, nestas
palavras simples e rápidas, a certeza da predilecção de
Deus por vós. Ele olha-vos, agora mesmo, com particular
solicitude - e ama-vos.
Ama-nos a todos, é evidente. O seu amor é universal, vai
de um extremo ao outro da Terra, não escolhe estes ou
aqueles, nem segundo os países ou as raças, nem segundo
as aparências da cultura, da beleza, da fortuna ou do
poder. A vasta mesa do banquete que ele veio para nos
oferecer está preparada e todos são convidados, sem
excepção. Mas, de entre todos, o Senhor não esconde a
sua preferência pelos pequenos e humildes e, antes de
mais nada, pelos enfermos. «Vinde a mim disse Nosso
Senhor Jesus Cristo - vós todos os que andais vergados
ao peso de qualquer fardo, e eu vos aliviarei» (Mt. XI,
28).
Por amor dos doentes, realizou Ele, como sabeis, a maior
parte dos seus milagres, limpando os leprosos, dando
movimento aos paralíticos, restituindo a vista aos
cegos, expulsando a febre dos que jaziam no catre,
roídos pela enfermidade. Quem não conhece as páginas do
Evangelho, que tão abundantemente nos falam da compaixão
do Mestre? Ei-lo que iniciou a sua vida pública e vai
passando, rodeado dos seus discípulos, de cidade em
cidade. E que faz Ele? São Mateus resume tudo nestas
duas linhas: «proclamando a Boa Nova do Reino e curando
toda a doença e enfermidade» (IX, 35). Ensina e cura. É
duplamente médico, na ordem do espirito, dando-nos a
conhecer o mistério da salvação, e na ordem do corpo,
restaurando a saúde perdida, sempre que esta, por
qualquer motivo, ainda a considerava necessária para
aquela.
Porque, na verdade, a saúde física, sendo um valor
precioso, não é o valor supremo. Mais preciosa do que a
vida do corpo é a da alma, à qual ela própria se
orienta. E se, como regra, um corpo são é garantia de
uma alma igualmente sã, bem pode às vezes suceder que o
não seja, antes pelo contrário lhe sirva de obstáculo,
limitando-lhe, estorvando-lhe ou mesmo impedindo-lhe por
completo o seu alento ascensional para Deus. Então mais
útil do que a saúde poderá ser a doença só Deus sabe! -,
porque a doença obriga o homem a recolher-se e, quando
aceite por um acto interior de conformidade, faz-lhe ver
e estimar, mais do que a vida, as próprias razões da
vida: o que autenticamente somos, mortais e imortais,
quer dizer, em face do tempo que impiedosamente passa,
mas também em face da eternidade, à qual nos sentimos
destinados e que não passa. Por isso, disse Jesus no
Evangelho: «Felizes os que choram, porque serão
consolados» (Mt. V, 4).
Ora, o amor de predilecção do Divino Mestre pelos
doentes não se manifestou apenas pelos milagres que
realizou. Manifestou-se principalmente por esta
admirável pedagogia. Curando-os ou não, o que Jesus não
deixou nunca de fazer foi ensinar-lhes que a doença não
é uma maldição nem um simples parêntese doloroso, mas um
estado, uma prova, urna experiência que poderá ser, se
nós quisermos, de uma incomparável fecundidade
espiritual.

Para um cristão, a dor, queridos doentes, tem um sentido
profundamente positivo. Basta olhar o nosso crucifixo, e
logo o compreendemos. Para cumprir a obra que o Pai lhe
assinalara, ou muito simplesmente em linguagem militar,
para servir, Cristo ali está sofrendo a mais dolorosa
das mortes que algum dia foi dado sofrer a quem quer que
seja. Por obediência, Ele não se recusou o mínimo
sacrifício, e foi nessa obediência que nós, os homens,
eu, vós, todos, maravilhosamente achámos a nossa
salvação. Pois o doente, deitado na sua cama de
sofrimento, está como Cristo na Cruz. Se, em vez de
revoltar-se, souber unir-se a Cristo, juntar a sua
pequena gota de sangue ao sangue que Cristo derramou tão
largamente no Calvário, «dissolver», digamos, o seu
pequeno sacrifício no grande sacrifício do nosso
Redentor, também ele, o doente, do fundo do seu quarto
ou da sua enfermaria de hospital, ignoradamente,
silenciosamente, humildemente, está ajudando os outros
homens a salvarem-se e contribuindo para que o mundo (a
roda dos seus amigos, a sociedade em que vive, a pátria
a que pertence) se torne melhor segundo o Evangelho.
Desta forma, a dor é escola de virtude e os que sofrem
devem justamente considerar-se, não uns inúteis, corno
às vezes ouvimos dizer erradamente, mas ao contrário os
mais úteis dos homens - construtores com o seu Mestre de
uma vida mais pura.
Por isso - acrescentamos -aqueles que porventura se
aproximam dos enfermos, visitando-os, é numa atitude de
infinito respeito, de infinita delicadeza, que o deverão
fazer. Pois quem visitam? Somente um homem em
necessidade? Somente um igual? Somente um irmão? Muito
mais do que isso. É um semelhante a Jesus Cristo que
visitam. Mais rigorosamente, um outro Cristo. O
Evangelho o afirma expressamente, na descrição do
julgamento final: «Então dirá o Filho do Homem aos da
sua direita: Vinde, benditos de meu Pai... porque eu
estive doente e visitastes-me. E os justos perguntarão:
Quando é que te vimos doente e te visitámos? O Senhor
responderá: Em verdade vos digo: sempre que o fizestes a
um destes meus irmãos, dos mais pequeninos, a Mim o
fizestes (Mt. XXV, 35-40).
A Vós próprios, queridos doentes, se aplicam à letra
estas palavras. Viestes a Fátima, acolhidos sob o manto
maternal da Santíssima Virgem, pedir a Deus a vossa
cura. E com justificado fundamento o podeis fazer,
porque o Senhor é bom, Ele, que tantas curas operou,
como vos disse, enquanto caminhou visivelmente no meio
dos homens. Agora invisível, continua em nossa
companhia, «não nos deixou órfãos» (Jo. XIV, 18), e a
força da sua misericórdia permanece intacta. Tendes,
portanto, o direito de vos aproximardes d'Ele com
inteira confiança, e suplicar-lhe como outrora o leproso
do Evangelho: «Senhor, se quiserdes, podeis curar-me!» E
se Ele realmente vê que, para vós, a saúde é melhor do
que a doença, certamente responderá hoje, como naquele
dia: «Quero; estás curado» (Mt. VIII, 2-3). Assim
esperamos fervorosamente que suceda convosco.

Mas, entretanto, confortem-vos, alegrem-vos as palavras
que há pouco ouvistes: «Estive doente e visitastes-me».
Vós sois um outro Cristo, noutra humanidade, é certo,
mas Ele mesmo, misticamente prolongando em Vós o seu
sacrifício redentor. A esta luz, como são mesquinhas e
pobres as nossas expressões habituais! Os que tombam
doentes, aqueles a quem as circunstâncias amarraram à
cama por tempo mais ou menos prolongado, não digamos que
ficam diminuídos ou inválidos. Fisicamente, sim, valem
menos para a acção ou para o trabalho. Mas, em si
próprios, como homens, na sua dimensão sobrenatural e
até terrena, valem incomensuravelmente mais. Aos olhos
de Deus, não estão diminuídos, mas engrandecidos.
Não esqueço que alguns dos presentes são feridos ou
mutilados em campanha, e só esta razão chegava para que
fossem grandes, porque é sempre grande o que aceita
sofrer para servir. Todos vós, porém, queridos doentes,
partilhais em Cristo (se é vivo, como suponho, o vosso
espírito de fé), de uma grandeza ímpar. Se nós
tivéssemos os olhos de Deus, bem diferentes vos
veríamos, na imensa dignidade que se oculta debaixo das
tristes aparências do vosso sofrimento. E então
compreenderíamos, com sua gloriosa exactidão, o paradoxo
daquela bem-aventurança que o Senhor proclamou e que já
vos pronunciei: «Bem-aventurados os que choram!»
Que neste santuário, hoje, possais ter encontrado um
pouco mais deste conforto, desta alegria, desta paz!

