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ANGOLA
- IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em
sites próprios
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Daniel Pinho,
ex- Furriel Mil.º de Transmissões
Batalhão de Caçadores 1903 / RI16
Companhia de
Comando e Serviços
Angola 1967/1969
Nota:
Neste
Batalhão, cumpriu o seu dever militar:
Paco Bandeira
Info de
um Veterano |

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depoimento recolhido
por Maria Inês Almeida, in Revista "Domingo",
do "Correio da Manhã, de 13Jun2010
Fonte:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/a-populacao-pediu-para-nao-a-deixarmos

A minha guerra
“A
população pediu para não a deixarmos”
Passei pela guerra
sem a ver mas em Angola senti o valor da amizade, a
importância de ajudar o próximo e o reconhecimento dos
locais
Por: Daniel Pinho,
Angola (1967-1969)
Fizemos a viagem a
bordo do ‘Vera Cruz’. Chegámos a Luanda, em Angola, em
finais de Fevereiro de 1967. Era a Província Ultramarina
que eu mais queria conhecer.
Após a nossa chegada,
estivemos no quartel do Grafanil, onde permanecemos
cerca de uma semana, antes de nos dirigirmos para
Tomboco, que se situa no distrito de S. Salvador, no
Norte de Angola.
A viagem levou um
dia. O meu receio e a minha curiosidade andavam a par...
Era a primeira vez que saía de Portugal. O conhecimento
que tinha de Angola era através dos estudos e
principalmente de informações de colegas de escola
angolanos.
Chegados a Tomboco e
depois da saída das tropas que fomos render, fizemos
rapidamente a adaptação à zona onde iríamos permanecer
durante onze meses. Como era furriel miliciano de
transmissões, na Companhia de Comandos de Serviços do
Batalhão, não tive grandes preocupações, posso até dizer
que sinto uma certa saudade dos meus companheiros de
tropa. Para mim, a guerra não existiu, embora tivéssemos
feito a Comissão sempre em zona considerada de guerra, o
nosso batalhão teve apenas cinco mortos e em acidentes.
Em combate nem sequer feridos tivemos.
Quero realçar o papel
dos nossos superiores que desde a formação do Batalhão
até ao nosso regresso nos souberam conduzir. A
disciplina imposta, tanto no quartel como em operações,
foi a base do nosso êxito. É bonito ver os ex-militares
nos almoços de confraternização, que ainda hoje fazemos.
A união de todos
sempre fez a nossa força. E unidos, com respeito, uns
pelos outros, respeitávamos de igual modo as populações
das sanzalas, com quem convivíamos.
Recordo com grande
orgulho o dia em que deixámos o Tomboco, a caminho de
Santo António do Zaire – nossa segunda estada. Ao longo
da picada que atravessava a povoação, a população foi
despedir-se. Eram cinco horas da manhã mas ali estavam e
procuravam agarrar as viaturas que nos transportavam,
pediam-nos que não os deixássemos. Tivemos um aperto no
coração tão grande!... Muitos não contiveram as
lágrimas. Este momento, e outros idênticos, deixaram-nos
grandes recordações, marcas sobre o peso da amizade, o
valor do soldado português. A minha guerra não foi de
tiros ou combates. Ali ajudámos as populações. E mesmo
sem nos envolvermos nos palcos da morte, saímos de
Angola com a sensação do dever cumprido.
Foi quando estava em
Santo António do Zaire que recebi a pior notícia de todo
o período que estive em Angola. Não era de guerra mas
igualmente de desgraça – um irmão meu tinha morrido na
Metrópole, em acidente de viação. Foi a minha grande
derrota. Nunca poderei esquecer.
ÁGUA DO BENGO
O último período da
nossa permanência em Angola foi em Ambrizete, de onde
partimos para Luanda em princípios de Maio para o
embarque de regresso à Metrópole, onde chegámos no dia 3
de Junho de 1969. Passámos por Angola, sem espírito de
guerra, embuídos em valores humanistas. Por isso, fico
triste com a forma como a descolonização foi feita.
Atirou-se aquele povo dócil para uma horrível guerra
civil, sem comparação alguma com a guerra colonial.
Depois do meu
regresso já voltei várias vezes a Angola. É também o meu
país – talvez por ter bebido água do Bengo.
PERFIL
Nome: Daniel Pinho
Comissão: Angola
(1967/1969)
Força: Regimento de
Infantaria nº 16
Actualidade:
Industrial reformado, casado, com três filhas e dois
netos
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