

Rui Joel Vilhena de Mascarenhas
Furriel Mil.º de Infantaria
Companhia de Caçadores 2306
Batalhão de Caçadores 2832
«EXCELENTE E VALOROSO»
Angola: 13Jan1969 a 03Mar1970
(Título póstumo)

Rui Joel Vilhena de Mascarenhas,
Furriel Mil.º de Infantaria, n.º 03678465, natural da freguesia da Sé
Nova, concelho de Coimbra, filho de Joel Esteves de Mascarenhas e de
Albertina Antónia Vilhena de Mascarenhas.
Mobilizado pelo Regimento de
Infantaria 2 (RI2 - Abrantes) para servir Portugalna Província Ultramarina de
Angola integrado na Companhia de
Caçadores 2306 do Batalhão de
Caçadores 2832 «EXCELENTE E VALOROSO».
Faleceu no dia 9 de Agosto de 1968 na
estrada Tomboco - Ambrizete, vítima de ferimentos em combate.
Está inumado no cemitério do Alto
de São João, em Lisboa.
No dia 10 de Junho de 1969,
representado pela Sra. sua Mãe, é condecorado com a Medalha de Prata de
Valor Militar, com palma, perante as Forças Armadas Portuguesas reunidas
em parada no Terreiro de Paço (Diário de Lisboa, n.º 16693, página 19,
de 11 de Junho de 1969).
Testemunho
Lisboa, 14 de Fevereiro de 1995
Testemunho oral de
João Pedro Baptista Carrilho,
agraciado com a Medalha de Prata de Valor
Militar com palma
Soldado atirador, nasceu em 1946. Serviu em
Angola (1968/1970)
Foi recepcionista numa empresa de camionagem.
Estava desempregado quando foi entrevistado,
in "A Guerra de África", um livro de
José Freire Antunes
(edição de 1995, Círculo de Leitores)
"O Furriel que ficou nu e de
braços cortados no meio da estrada"
«Em Agosto
tivemos o nosso primeiro grande contacto com o
inimigo. Por azar até calhou ao meu grupo. Ali
só havia tropa. Em cada semana vinha um pelotão
buscar reabastecimentos ao Ambrizete, que são
uns trezentos e tal quilómetros para cada lado.
Íamos num dia e vínhamos no outro. Nessa altura,
quando saímos do Ambrizete, na volta, aí
passados uns cento e cinquenta quilómetros, a
gente vinha na picada e eu vinha na minha
viatura com o nosso capitão, que tinha vindo
passar férias à Metrópole. Lembro-me
perfeitamente. Era um dia em que, lá em Castelo
de Vide, há uma grande feira, o dia de S.
Lourenço. Eu era apontador de morteiro e lá
vinha, cabisbaixo, com o meu municiador de um
lado e o capitão do outro, a dizer: «Meu
capitão, hoje lá em Castelo de Vide há uma festa
tremenda!» E nisto caímos numa emboscada. Tiros
para aqui e para acolá, e a gente mandou-se ao
chão.
Eu levava cinco cunhetes de granadas de
morteiro. Mas levava sempre uma na mão, com o
morteiro 60. Os tiros estavam a vir de um lado e
do outro, mas nisto apercebi-me de uma zona onde
estava uma arma automática a atirar para cima de
nós. E mandei para lá uma morteirada, o mais
perto possível, mas que não apanhasse a nossa
zona. Eu estava farto de fazer fogo com aquilo,
por acaso até era mesmo bom com o morteiro. E
aquilo calou-se. Nisto, acabaram-se-me as
munições, e eu pedi-as ao meu municiador. Mas o
gajo era um daqueles pretos muito medricas e não
quis ir. E eu estava ali, numa valetazinha, e
disse-lhe: «A minha vontade é dar-te já um
tiro!» Nós, os apontadores de armas pesadas,
tínhamos sempre uma pistola para defesa pessoal,
urna Parabellum. Então deixei a minha arma no
chão, mandei um salto, a rebolar e fui ao Unimog
que estava parado no meio da picada. Quando ia,
senti um gajo a mandar-me uma rajada contra o
Unimog. Meti-me entre o pneu do Unimog e puxei
um cunhete de granadas lá de cima. E houve um
tiro que me passou entre os braços e furou um
dos suportes dos bancos do Unimogs. Então o meu
comandante gritou: «Sai daí, que eles estão a
ver-te!» Consegui levar o cunhete e fiz mais uma
data de tiros. Mas era já ao lusco-fusco e,
quando as armas faziam fogo, via-se aquela chama
a sair do cano. Senti os tiros virem de detrás
de mim mas não estava a ver de onde, porque
tinha o Unimog na minha retaguarda. Mas nisto
olhei para cima - aquilo era já à entrada de uma
floresta - e comecei a ver os tiros a serem
feitos de cima da árvore. Puxei da minha pistola
e fiz uns três ou quatro tiros. Conforme fiz o
segundo - não sei se apanhei o tipo que lá
estava - senti um vulto aos rebolões pela árvore
abaixo, por aquelas lianas todas. O indivíduo
caiu lá em baixo. Fomos lá depois mas não o
vimos, alguém o levou. Então dei o resto dos
tiros e os gajos começaram a afastar-se. Aquilo
durou uns vinte minutos. Nem tanto, uns
dezasseis ou dezassete no máximo. Ficou tudo
assim meio cabisbaixo, as pessoas ficaram todas
surpreendidas.
Nós tínhamos um furriel, o Mascarenhas, cujos
pais eram doutores na Universidade de Coimbra e
viviam muito bem. Mas era um homem que vivia a
tropa porque era obrigado, e não ligava muito
àquilo. Tinha a mania de levar uma Mauser para
caçar. A viatura dele era uma Berliet, que
levava mais géneros, e ficou para trás. Foi ela
precisamente que caiu na emboscada. Como todos
os outros tinham armas boas, as G-3, foram
conseguindo chegar-se ao pé da gente, lá com
rajadas, etc. Mas ele, como tinha a outra arma,
coitadito, teve azar, não sei como, ninguém
sabe, e ficou para trás. Aquilo dava-se um tiro
e depois tinha de se puxar aquela coisa para
trás. Foi liquidado. Foi a primeira baixa que a
gente teve. Então, quando acabaram os tiros,
agarrei numa arma de um gajo qualquer, que
estava meio desmaiado, e fui ver o que se
passava lá atrás. Nem pensei no perigo, porque
se estava um gajo ali no meio do capim
atirava-me mesmo à queima-roupa. Mas depois de
andar uns vinte metros, qual não foi o meu
espanto quando vi um homem - era lusco-fusco,
mas dava ainda para ver - um homem branco todo
nu, caído no meio da estrada. Veio-me assim uma
coisa... Fui lá. Quando ia a pegar nele, vi que
tinha os braços cortados. Senti um arrepio pela
espinha, e deu-me na ideia que alguém ainda
estava ali à espera que eu me levantasse para me
liquidar. Disparei assim umas rajadas e corri
para trás. Depois fornos lá todos e vimos: ele
estava nu. Tiraram-lhe as botas, tiraram-lhe a
roupa toda e tiraram-lhe - já não me lembro bem
- ou 80 ou 120 contos que ele trazia, que a mãe
tinha mandado lá para o SPM de Ambrizete. Parece
que eram 60 para ele e 60 para outro furriel,
que era o furriel Melo e Castro, que a mãe,
coitadita, também mandou. Tiraram-lhe tudo -
dinheiro, documentos. Lá o levámos para o
quartel. Aquilo custou-nos muito, e eu quando me
lembro disto dá-me vontade de chorar. Então, no
outro dia, o meu comandante disse-me assim: «Carrilho,
olha, vou propor um louvor para ti ao comandante
de batalhão.» E eu disse: «Está bem. Eu não
fiz mais do que o meu dever.» Depois aquilo
passou. Até me comovem, estas coisas... A gente,
como éramos militares, continuou a vida na
mesma, a fazermos as nossas coisas. Dali para a
frente, a gente até parece que se sentia mais
intensa, aquela coisa, aquela raiva, estávamos
ali obrigados, etc., mas aquilo passou. Perdemos
aquele grande amigo, mas aquilo passou.»
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Nota: No
texto - sublinhado nosso e linkado.