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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

Ângelo Ribau Teixeira, ex- 2.º Sargento Mil.º

 

Companhia de Caçadores Especiais 306

 

Batalhão de Caçadores Especiais 357

 

Angola - Pangala (Agosto de 1962)

 

 

Aquartelamento de PANGALA (entre São Salvador do Congo e Buela)

 

Gente da Minha terra

 

Ah, agora me lembro! Quando no outro dia estive em São Salvador – pareceu-me ser um sonho – mas era uma realidade. Ouvi homens que falavam alto e riam, enquanto uma viatura todo o terreno manobrava em acrobacias apertadas, o que provocava o riso da assistência. O gajo anda todo vaidoso, pintei-lhe a carrinha toda de verde. Assim já se nota menos no meio da mata.

 

Aquela voz não me pareceu desconhecida. Aproximei-me do grupo, que ao ver um militar olha-los com ar inquiridor se calou olhando para mim, como sendo um indivíduo que veio atrapalhar a sua boa disposição. Nisto avança para mim um rapaz das minhas idades e interroga-me:

 

 - Tu és o Ângelo não és? Ainda incrédulo respondi: Sou!

 

 - E tu és o João Elias, pois és!

 

 -Que fazes tu aqui? Perguntei! Ele não fez esse género de pergunta, pois bastava olhar para mim: - o fato de combate cheio de pó, a FBP ao ombro era o suficiente para identificar o que fazia eu naquelas paragens.

 

Sentamo-nos numa pedra a conversar. Os outros afastaram-se, deixando-nos à vontade, para conversar. Fiquei a saber que, -ele que na nossa terra era pintor,- agora era condutor de longo curso. Tinha vindo de Luanda com abastecimento para São Salvador.

 

Era zona de guerra e dava mais dinheiro. Tinham vindo pela beira-mar e pelo Luvo, pois diziam ser zona de menor perigo na estrada!

 

 Perguntou-me onde eu estava. Disse-lhe. Ele torceu o nariz. Cuimba, é onde está o Batalhão a que em Luanda já chamam o “Rebenta”!

 

- Como é isso por lá?

 

- Não é nada bom, mas temos que ir andando! Já alguns dos nossos companheiros lá deixaram a vida. Estão ali no cemitério de São Salvador.

 

Fui convidado pelo João a jantar com ele. Os camionistas só viriam para baixo, quando tivessem protecção militar. Nós tínhamos de regressar ao acampamento, pelo que não tive o prazer de jantar com ele. Tive pena, pois houve muitas perguntas, algumas sem nexo, que ficaram por fazer, de parte a parte.

 

Só voltei a encontrar gente da minha terra muito mais tarde, em Cabinda. Tínhamos ido lá para fazer a segurança do Presidente da República, que ia em visita oficial aquelas paragens.

 

À minha secção foi atribuído o serviço de segurança ao depósito da agua da cidade. Era um ponto nevrálgico e tinha que ser vigiado, não fosse o IN envenenar a água… Ficava num alto, já fora da cidade. Por ali ficámos, corpo descontraído e espírito alerta. Tínhamos feito a viagem de Luanda num barco de guerra. O respirar da maresia parece que nos deu nova vida!

 

Mau mau! Que é agora isto? Reparámos num jipe que se dirigia para nós a grande velocidade. Não tínhamos rádio. Alguma ordem urgente, pensei, pondo no entanto o pessoal da secção alerta.

 

O jipe pára junto de mim – como era serviço oficial, tínhamos de usar as nossas divisas - o condutor salta da viatura, dirige-se a mim:

 

 -Eh Ângelo, que fazes aqui! E abraçou-me! Só então o reconheci:

 

 -Eh Zé da Neta, isso pergunto-te eu.

 

 -Olha estou destacado em Cabinda, sou condutor auto, soube pelo vosso pessoal que ficou de serviço na cidade, que estavas aqui e vim dar-ta “aquele abraço”. Já não via um gafanhão há muitos meses! Conversamos, dois minutos se tanto, mas já deu para “carregar as baterias” !

 

-Tenho de me ir embora que o capitão só me dispensou vinte minutos, e tenho de o levar não sei onde. Reciprocidade de boa saúde e poucos tiros, um até à vista, e lá se foi o Zé da Neta levantando novamente nuvens de poeira.

 

 A. Ribau Teixeira

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