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Condecorações

Vasco Domingues Mendes, 1.º Cabo Pára-Quedista, da 1ªCCP/BCP21

 

"Pouco se fala hoje em dia nestas coisas mas é bom que para preservação

do nosso orgulho como Portugueses, elas não se esqueçam"
Barata da Silva
, Vice-Comodoro

 

 

HONRA E GLÓRIA

Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW

 

 

Vasco Domingues Mendes

 

1.º Cabo Pára-Quedista

 

Brevet n.º 4481

 

1.ª Companhia de Caçadores Pára-Quedistas

 

Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 21

 

«GENTE OUSADA MAIS QUE QUANTAS»

 

Angola: 1967 a 1969

 

Medalha de Ouro - colectiva - de Valor Militar com palma

 

Cruz de Guerra de 3.ª classe

 

 

 

 

 

 

Vasco Domingues Mendes, 1.º Cabo Pára-Quedista, titular do brevet n.º 4481, nasceu no dia 1 de Novembro de 1945, na Herdade Monte Novo de Palma, da freguesia de Santa Maria do Castelo, concelho de Alcácer do Sal.


Em Setembro de 1966 ingressa nas tropas-páraquedistas.


Em Dezembro de 1966 conclui no Regimento de Caçadores Pára-Quedistas (RCP-Tancos) o 38º curso de pára-quedismo, sendo-lhe concedido o brevet nº 4481.


Em 5 de Julho de 1967, tendo sido mobilizado para servir Portugal na Província Ultramarina de Angola, embarca em Lisboa no NTT 'Uige' rumo ao porto de Luanda, destinado a ficar integrado na 1.ª Companhia de Caçadores Pára-Quedistas do Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas 21 (1ªCCP/BCP21) «IRMÃOS DE MARTE».


Em 1969 regressa à Metrópole, sendo condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe por distinção em combate.
 

 

 

- «Passo os dias com imagens que desfilam na minha memória. Esquecê-las, não posso.


As matas no Norte de Angola eram densas, infectadas de mosquitos, serpentes, aranhas venenosas, milhares de macacos e outras espécies de animais, e cheias de vales, morros e rios igualmente perigosos, onde habitavam homens, mulheres, crianças e velhos que protegiam tipos armados que nós chamávamos 'turras'.


Sofri com a guerra e com a morte dos meus camaradas.


No Úcua, norte de Angola, no dia 6 de Julho 1968 o tenente Assoreira pediu-me para partir com ele, para uma operação com a 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21. Aceitei. Eu pertencia à 1ª Companhia.


No dia 7 de Julho de 1968, começou a operação. Saltámos de helicóptero sobre a Grande Rocha, no Úcua. Queimámos todas as cubatas em torno da Rocha.

 

Dia 8 de Julho de 1968, de manhã um pequeno grupo de sete soldados e três oficiais partiu para ver se havia vestígios do inimigo. A um certo momento, fomos atacados numa picada com fogo cruzado em rajadas. O nosso valoroso e corajoso tenente Assoreira foi gravemente ferido: morreu no helicóptero. A grande preocupação dele era o filho que ia nascer. Também foi ferido num pé o nosso tenente-coronel Rafael Durão.


No dia 10 de Julho de 1968, dois dias depois de ter morrido o tenente Assoreira, senti um novo sentimento de revolta ao perder mais três camaradas, também na zona da Grande Rocha. A companhia seguia dividida em quatro pelotões para melhor cercar e apanhar o inimigo. O pelotão que ia à nossa frente caiu numa emboscada: uma mina antipessoal matou três valorosos pára--quedistas: morreram os furriéis João Luís Barata, Caria Ramos e o soldado Luís Ferreira Salgado. Os corpos ficaram praticamente desfeitos.


Esta operação na Grande Rocha, que se prolongou por vários dias, foi a que mais mortos causou no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21.


Eu recebi um louvor e fui promovido a primeiro-cabo.


Noutra operação que se efectuou, também, na zona do Úcua, em que participou o 4º pelotão da 1ª Companhia, a que eu pertencia, voltou a tristeza e o sofrimento. Andávamos há três dias dentro de uma mata densa e com pouco contacto com os guerrilheiros. A água que procurávamos para beber estava quase toda envenenada pelo inimigo. Nós sabíamos que os guerrilheiros estavam na zona e andavam atrás de nós. Numa parte mais alta, junto a uma picada, montámos uma emboscada ao inimigo. Estávamos prontos - se eles surgissem. Assim aconteceu.


Ao final da manhã, aproximaram-se dois. Nós fizemos explodir a armadilha. Um morreu. O outro ficou ferido e conseguiu fugir. De imediato, tentámos capturá-lo. O nosso camarada José Pinto, que ia já em cima dele, foi gravemente atingido por uma rajada. Ficou com uma perna quase desfeita. O Pinto foi evacuado de helicóptero para o Hospital Militar de Luanda, onde esteve uns tempos. Os médicos conseguiram salvar-lhe a perna. Foi submetido a múltiplas cirurgias. Depois, foi transferido para os Açores, de onde era natural.


No leste de Angola, a 1ª Companhia também sofreu mais duas baixas - na zona do Gago Coutinho, mais precisamente em Ninda. Esta região tinha mais planície e capim - ao contrário do norte, com mais mata.


Numa operação em que estávamos empenhados, e antes de chegarmos ao objectivo, o inimigo, às primeiras horas da manhã, fez fogo com armas automáticas. Perdemos mais um camarada - o nosso sargento Vasco. Foi atingido por uma bala na cabeça. Teve morte imediata. Faltavam-lhe uns 15 dias para acabar a comissão em Angola e voltar para a Metrópole. Mas o destino quis o contrário. Era um excelente combatente.

 

A 1ª Companhia, a minha, voltou a ser atacada, em Ninda, numa picada. O inimigo atacou-nos com granadas e armas automáticas. O nosso camarada, o ‘Barbeiro', como nós lhe chamávamos, perdeu a vida. Era um pára-quedista de corpo inteiro, sempre pronto para ajudar os seus camaradas.


Esta operação, com o nome de código 'Dinamite', estendeu-se por dois meses no leste de Angola. Era desencadeada a partir de uma base em Ninda e envolveu várias acções de combate. Ninda era uma pequena povoação. Lembro-me da escola e da casa do administrador - um branco que mais tarde foi preso por cumplicidade com os guerrilheiros. O resto eram barracões.


A operação 'Dinamite' começou com a partida, em camiões, até um certo ponto. Depois, marchámos horas e horas. Acampámos, à noite, junto de um grande lago. No outro dia, de madrugada, vimos um indivíduo acompanhado por um adolescente. O homem foi feito prisioneiro, mas o adolescente fugiu para avisar o inimigo da nossa presença. O prisioneiro foi interrogado. Disse que sabia onde se encontrava o inimigo. Era preciso andar rapidamente para chegar ao objectivo. Eu disse ao comandante do pelotão, o tenente Vilas Boas: "Parto à frente com o prisioneiro ligado a mim por uma corda". Andámos em picada rodeada de mata, outras vezes de capim. A certa altura, chegámos a uma grande clareira. Mais longe, novamente a mata. Quando atravessava a clareira com o prisioneiro, surgiram seis guerrilheiros com fardas amarelas. Todos estavam armados. Encontrava-me a 25 ou 30 metros, sozinho. De imediato, compreendi o que estava a acontecer: eles estavam a preparar uma emboscada aos meus camaradas, que seguiam atrás de mim. Três dos guerrilheiros fizeram o gesto de abrir fogo com as armas que traziam à bandoleira. Empurrei o prisioneiro para o chão - e fiz fogo de rajada. Guardei algumas balas para fazer tiro-a-tiro. Matei um inimigo e deixei outro ferido. Consegui fazer abortar a emboscada e salvaguardei a minha vida e as vidas dos meus camaradas.


Nesta operação, fui condecorado com a Cruz de Guerra de 3ª classe.


Fui novamente louvado pelo comandante da 2ª Região Aérea de Angola.


Ao Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21 foi atribuída a Medalha de Ouro - colectiva - do Valor Militar com palma.


Quero dedicar os louvores e a Cruz de Guerra, aos meus camaradas do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21 caídos no campo de batalha. Ainda hoje os choro. No ano passado, estive no Memorial aos Mortos na Guerra, erguido perto da Torre de Belém, em Lisboa. Li os nomes de todos eles. Os meus olhos ficaram rasos de lágrimas.


Com estas memórias, digo aos meus camaradas e amigos desaparecidos: "Até ao nosso próximo encontro"
.»¹
 

¹ (depoimento recolhido por Carlos Marques)

 

 


 

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