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Condecorações

Fernando Ferreira Venâncio, 2.º Sargento Mil.º de Artilharia 'Comando'

 

"Pouco se fala hoje em dia nestas coisas mas é bom que para preservação do nosso orgulho como Portugueses, elas não se esqueçam"

 

Barata da Silva, Vice-Comodoro

 

HONRA E GLÓRIA

 

e

 

nota de óbito

Homenagem do veterano J C Abreu dos Santos

e

Texto de Victor M Santos

 

 

Faleceu no dia 15 de Maio de 2025, na Suiça, o veterano

 

 

Fernando Ferreira Venâncio

 

2.º Sargento Mil.º de Artilharia 'Comando'

 

Angola: 1962 a 1975

 

Escola de Aplicação Militar de Angola
«PARA SERVIR-VOS BRAÇO ÀS ARMAS FEITO»


Grupo de Artilharia de Campanha 1


Regimento de Infantaria 20 «P’RA FRENTE»


Centro de Instrução 25


Grupo de Comandos “OS MAGNÍFICOS”


1.ª Companhia de Comandos «AUDACES FORTUNA JUVAT»


Centro de Instrução de Comandos «A SORTE PROTEGE OS AUDAZES»


Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil de Angola

 

Cruz de Guerra de 1.ª classe, Colectiva

(1.ª Companhia de Comandos)

 

Cruz de Guerra de 1.ª classe, Colectiva

(20.ª Companhia de Comandos)

 

Cruz de Guerra de 3.ª classe

 

Cruz de Guerra

 

Medalha de Cobre de Serviços Distintos com palma

 

 

 

"OS HERÓIS DE QUEM NINGUÉM FALA ..."
 

Texto da autoria do veterano Victor M Santos (sobre o autor da narrativa clique aqui)

 

 

«A Figura da foto inserida mais abaixo, nem sempre teve o aspecto cansado de agora. Foi no auge da Guerra do Ultramar, um garboso e excelente militar, muito pretendido e disputado pela “fina flor” do elemento feminino em idade de casar, da cidade de Luanda. Talvez por isso tenha casado tarde.


Não sei se será este o lugar mais próprio, sem tempo nem espaço para o poder descrever, mas apeteceu-me hoje falar e colocar aqui, a foto de um HOMEM e COMANDO que conheci em Dezembro/Janeiro de 1961/62, no Grupo de Artilharia de Campanha de Luanda, onde funcionava um Centro de Férias para praças destacadas no “mato” onde podiam ir “passar 5 dias de descanso operacional”. Sendo eu à altura 1º Cabo Miliciano (portanto ainda considerado praça), e operacional no sector de Cabinda, requeri as ditas férias, que me foram concedidas.


Apresentado no CFO, foi-me negada a utilização do improvisado aquartelamento, instalado nas traseiras do GACL, porque para os responsáveis do Centro, eu já seria, a par do CSM do meu ano vindo da Metrópole, da classe de Sargentos, pelo que não me foi permitido permanecer no Aquartelamento. Não sendo um dilema por-aí-além, não quis deixar as instalações do GACL, sem visitar o meu irmão a seguir a mim, que para ali fora encaminhado, juntamente com outros jovens que se haviam voluntariado para a Força Aérea, aspirações ingloriamente cerceadas, sabe-se lá por quem, mas sobretudo pelas necessidades mais prementes da guerra. Todos eles acabaram com especialidades diferentes do desejado, sendo alguns deles utilizados, antes de tempo (ainda umas crianças), como condutores auto e enviados para os piores teatros da guerra daquela época.


Ao primeiro recruta que encontrei, indaguei onde poderia encontrar o meu irmão Sidónio, tendo-me respondido ser ele, o seu colega e companheiro de beliche, prestando-se de imediato a acompanhar-me ao local certo na caserna. Entretanto, fiquei a saber que este “recruta” se chamava FERNANDOS e era vulgarmente conhecido/tratado por CABINDA, por ter vindo daquele enclave. Havia portanto algo que nos aproximava, meu irmão e Cabinda. A minha estadia em Luanda prevista para 5 dias, prolongou-se por mais de duas semanas, dada a dificuldade de transporte para o meu regresso, aproveitada da melhor forma, sempre que era possível, a companhia de meu irmão e algumas vezes do Venâncio.


Não é difícil falar deste nosso CAMARADA, difícil é conseguir descrever como efectivamente é o FERNANDO FERREIRA VENÂNCIO, pois é dele que quero falar.


Fui sabendo novas deste recente amigo através do meu irmão, da sua passagem pela EAMA, em Nova Lisboa onde foi frequentar o CSM e posteriormente, que tirara o curso de Comandos na Quibala Norte, por onde eu já passara, mas só nos voltamos a encontrar em finais de 1967, no Centro de Instrução de Comandos em Luanda, já ele era também 2º Sargento e instrutor, no curso que eu iria finalmente, tentar concluir e onde aprendi a conhece-lo melhor.


Homem humilde sem ser subserviente, honesto e respeitador, observador e muito perspicaz, dotado de fino humor, ligeiramente sarcástico quando devido, amigo incondicional de seu amigo (e tem tantos), sempre disposto a ajudar sem que lho solicitem, muitas vezes. Chefe de família e pai extremoso englobando nesse sentimento os filhos dos camaradas, tendo já ajudado na criação antes de ser, demasiado tarde mas finalmente, agraciado por Deus, com a alegria e ventura de uma filha sua.


Naquele tempo na instrução, não havia sorrisos, postos, sinais de conhecimento ou aproximação, mesmo nos intervalos. A exigência era máxima, total e só depois da faze de equipa, houve o abraço de reconhecimento e um pouco de aproximação. No final do curso e no bairro para onde fui viver, também ele como outros camaradas viviam e era comum frequentarmos os mesmos bares, cinema e até as casas de cada um, reunindo-nos em paródias, onde se juntavam os casais, como era o meu caso, com família constituída e já com três filhos. Mesmo depois de alguns passarem à disponibilidade, continuamos a morar no mesmo bairro. Entretanto, descontente, abandonei a vida militar e o Venâncio, pouco depois, aceitou uma proposta do Governador da Lunda (outro Comando), e transitou para a Defesa Civil daquele Distrito.


Entretanto outros graduados comando, para lá tinham partido e não descansaram enquanto não me levaram também. Deixaram-me escolher o sector para trabalhar (onde ficasse mais perto de assistência para os meus filhos), por sinal o de maiores perigos e constantes acções subversivas, tendo-se de imediato o Venâncio oferecido para partilhar os perigos comigo. O trabalho a desenvolver (promoção socioeconómica das populações rurais) a defesa das populações, com os enquadrantes oriundos dos comandos, abertura e alargamento de novos itinerários, solidificação do seu piso, construção de raiz e definitos, novos aldeamentos para os apresentados, sendo uma necessidade premente, era uma exigência a que se não podia alhear responsabilidades, demasiadas para um só responsável. O Venâncio demonstrou-se sempre solidário e infatigável, nunca olhou a meios para cumprirmos prazos, darmos instrução aos milícias, levarmos os géneros aos enquadrantes, criar-lhe as condições para o cultivo de arroz ou, evacuá-los em caso de doença. Não houve naquele tempo, tempo para descanso ou férias, nem tempo para nos lamentarmos da falta de tempo. Todo este trabalho desenvolvido nos espaços mais conhecidos dos Comandos, onde as companhias ganharam Cruzes de Guerra, enfrentando o perigo das minas e dos ataques constantemente, acorrendo aos aldeamentos sem vacilar, quando o rádio nos avisava de estarem a ser atacadas. Apesar de tudo, o Venâncio, teve tempo para uma só coisa, Casar com a Madalena.


Chamado a Lisboa para receber no 10 de Junho, uma das suas medalhas de Cruz de Guerra, optou por ir à Madeira conhecer a que já era sua namorada. A Mim calhou tratar de a pedir ao Pai e empurra-lo, nas horas difíceis da espera pela chegada da esposa.


O Fernando Ferreira Venâncio, foi é e será sempre um homem de acção. Comando de corpo e alma, desde o tempo dos Grupos, dos primeiros a dar instrução às Companhias que passaram pelo CIC, desde a 1ª, pelo menos à 25ª. Por ele passaram oficiais, hoje superiores ou Generais. Viajou operacionalmente por parte de algumas das companhias que instruiu. Chefe capaz de ir resgatar sem hesitar um Grupo perdido na mata. Dos primeiros a percorrer sozinho, as picadas paralelas ou que se cruzam com o Rio Cassai, zona de muitos sobressaltos, para os comandos que efectuaram operações naquela zona.


Regressamos juntos a Luanda apos o 25 de Abril, continuamos a viver perto um do outro. Só o período que antecedeu a vinda para Portugal, dava um livro. Aqui arranjamos emprego no mesmo dia e trabalho, foi dos primeiros na formação da Associação de Comandos da qual é Sócio Fundador e Membro Vitalício do Conselho Superior. Dos que primeiro partiram em busca de elementos para a formação das companhias que fizeram o 25 de Novembro. Dos primeiros que se apresentaram na Amadora nessa época conturbada. Fui testemunha da sua apresentação ao Jaime Neves e do trabalho de que este o carregou. Nunca o vi falhar o que quer que fosse, nunca defraudou as missões pedidas, e nunca cumpriram o que lhes prometeram. Serviu sempre com os olhos postos no bom nome e dignidade quer dos Comandos Portuguese, quer da Associação de Comandos.


Estou portanto à vontade para falar deste meu amigo, e de muitos, que talvez o não conheçam tão bem e só se lembrem da imagem e do esforço de ser o Porta Guião da Associação, como à vontade me encontro para PEDIR: A TODOS OS COMANDOS SEM EXCEPÇÃO, DE ÁFRICA Á AMADORA, OU DA CARREGUEIRA, O RESPEITO QUE LHE É DEVIDO E O FAZ MANTER-SE ORGULHOSAMENTE VIVO.


Venâncio, o meu respeito e o meu abraço da amizade.
 

Mama Sume»

Victor M Santos

 

 

 

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