«A Figura
da foto inserida mais abaixo, nem
sempre teve o aspecto cansado de
agora. Foi no auge da Guerra do
Ultramar, um garboso e excelente
militar, muito pretendido e
disputado pela “fina flor” do
elemento feminino em idade de casar,
da cidade de Luanda. Talvez por isso
tenha casado tarde.
Não sei se será este o lugar mais
próprio, sem tempo nem espaço para o
poder descrever, mas apeteceu-me
hoje falar e colocar aqui, a foto de
um HOMEM e COMANDO que conheci em
Dezembro/Janeiro de 1961/62, no
Grupo de Artilharia de Campanha de
Luanda, onde funcionava um Centro de
Férias para praças destacadas no
“mato” onde podiam ir “passar 5 dias
de descanso operacional”. Sendo eu à
altura 1º Cabo Miliciano (portanto
ainda considerado praça), e
operacional no sector de Cabinda,
requeri as ditas férias, que me
foram concedidas.
Apresentado no CFO, foi-me negada a
utilização do improvisado
aquartelamento, instalado nas
traseiras do GACL, porque para os
responsáveis do Centro, eu já seria,
a par do CSM do meu ano vindo da
Metrópole, da classe de Sargentos,
pelo que não me foi permitido
permanecer no Aquartelamento. Não
sendo um dilema por-aí-além, não
quis deixar as instalações do GACL,
sem visitar o meu irmão a seguir a
mim, que para ali fora encaminhado,
juntamente com outros jovens que se
haviam voluntariado para a Força
Aérea, aspirações ingloriamente
cerceadas, sabe-se lá por quem, mas
sobretudo pelas necessidades mais
prementes da guerra. Todos eles
acabaram com especialidades
diferentes do desejado, sendo alguns
deles utilizados, antes de tempo
(ainda umas crianças), como
condutores auto e enviados para os
piores teatros da guerra daquela
época.
Ao primeiro recruta que encontrei,
indaguei onde poderia encontrar o
meu irmão Sidónio, tendo-me
respondido ser ele, o seu colega e
companheiro de beliche, prestando-se
de imediato a acompanhar-me ao local
certo na caserna. Entretanto, fiquei
a saber que este “recruta” se
chamava FERNANDOS e era vulgarmente
conhecido/tratado por CABINDA, por
ter vindo daquele enclave. Havia
portanto algo que nos aproximava,
meu irmão e Cabinda. A minha estadia
em Luanda prevista para 5 dias,
prolongou-se por mais de duas
semanas, dada a dificuldade de
transporte para o meu regresso,
aproveitada da melhor forma, sempre
que era possível, a companhia de meu
irmão e algumas vezes do Venâncio.
Não é difícil falar deste nosso
CAMARADA, difícil é conseguir
descrever como efectivamente é o
FERNANDO FERREIRA VENÂNCIO, pois é
dele que quero falar.
Fui sabendo novas deste recente
amigo através do meu irmão, da sua
passagem pela EAMA, em Nova Lisboa
onde foi frequentar o CSM e
posteriormente, que tirara o curso
de Comandos na Quibala Norte, por
onde eu já passara, mas só nos
voltamos a encontrar em finais de
1967, no Centro de Instrução de
Comandos em Luanda, já ele era
também 2º Sargento e instrutor, no
curso que eu iria finalmente, tentar
concluir e onde aprendi a conhece-lo
melhor.
Homem humilde sem ser subserviente,
honesto e respeitador, observador e
muito perspicaz, dotado de fino
humor, ligeiramente sarcástico
quando devido, amigo incondicional
de seu amigo (e tem tantos), sempre
disposto a ajudar sem que lho
solicitem, muitas vezes. Chefe de
família e pai extremoso englobando
nesse sentimento os filhos dos
camaradas, tendo já ajudado na
criação antes de ser, demasiado
tarde mas finalmente, agraciado por
Deus, com a alegria e ventura de uma
filha sua.
Naquele tempo na instrução, não
havia sorrisos, postos, sinais de
conhecimento ou aproximação, mesmo
nos intervalos. A exigência era
máxima, total e só depois da faze de
equipa, houve o abraço de
reconhecimento e um pouco de
aproximação. No final do curso e no
bairro para onde fui viver, também
ele como outros camaradas viviam e
era comum frequentarmos os mesmos
bares, cinema e até as casas de cada
um, reunindo-nos em paródias, onde
se juntavam os casais, como era o
meu caso, com família constituída e
já com três filhos. Mesmo depois de
alguns passarem à disponibilidade,
continuamos a morar no mesmo bairro.
Entretanto, descontente, abandonei a
vida militar e o Venâncio, pouco
depois, aceitou uma proposta do
Governador da Lunda (outro Comando),
e transitou para a Defesa Civil
daquele Distrito.
Entretanto outros graduados comando,
para lá tinham partido e não
descansaram enquanto não me levaram
também. Deixaram-me escolher o
sector para trabalhar (onde ficasse
mais perto de assistência para os
meus filhos), por sinal o de maiores
perigos e constantes acções
subversivas, tendo-se de imediato o
Venâncio oferecido para partilhar os
perigos comigo. O trabalho a
desenvolver (promoção socioeconómica
das populações rurais) a defesa das
populações, com os enquadrantes
oriundos dos comandos, abertura e
alargamento de novos itinerários,
solidificação do seu piso,
construção de raiz e definitos,
novos aldeamentos para os
apresentados, sendo uma necessidade
premente, era uma exigência a que se
não podia alhear responsabilidades,
demasiadas para um só responsável. O
Venâncio demonstrou-se sempre
solidário e infatigável, nunca olhou
a meios para cumprirmos prazos,
darmos instrução aos milícias,
levarmos os géneros aos
enquadrantes, criar-lhe as condições
para o cultivo de arroz ou,
evacuá-los em caso de doença. Não
houve naquele tempo, tempo para
descanso ou férias, nem tempo para
nos lamentarmos da falta de tempo.
Todo este trabalho desenvolvido nos
espaços mais conhecidos dos
Comandos, onde as companhias
ganharam Cruzes de Guerra,
enfrentando o perigo das minas e dos
ataques constantemente, acorrendo
aos aldeamentos sem vacilar, quando
o rádio nos avisava de estarem a ser
atacadas. Apesar de tudo, o
Venâncio, teve tempo para uma só
coisa, Casar com a Madalena.
Chamado a Lisboa para receber no 10
de Junho, uma das suas medalhas de
Cruz de Guerra, optou por ir à
Madeira conhecer a que já era sua
namorada. A Mim calhou tratar de a
pedir ao Pai e empurra-lo, nas horas
difíceis da espera pela chegada da
esposa.
O Fernando Ferreira Venâncio, foi é
e será sempre um homem de acção.
Comando de corpo e alma, desde o
tempo dos Grupos, dos primeiros a
dar instrução às Companhias que
passaram pelo CIC, desde a 1ª, pelo
menos à 25ª. Por ele passaram
oficiais, hoje superiores ou
Generais. Viajou operacionalmente
por parte de algumas das companhias
que instruiu. Chefe capaz de ir
resgatar sem hesitar um Grupo
perdido na mata. Dos primeiros a
percorrer sozinho, as picadas
paralelas ou que se cruzam com o Rio
Cassai, zona de muitos sobressaltos,
para os comandos que efectuaram
operações naquela zona.
Regressamos juntos a Luanda apos o
25 de Abril, continuamos a viver
perto um do outro. Só o período que
antecedeu a vinda para Portugal,
dava um livro. Aqui arranjamos
emprego no mesmo dia e trabalho, foi
dos primeiros na formação da
Associação de Comandos da qual é
Sócio Fundador e Membro Vitalício do
Conselho Superior. Dos que primeiro
partiram em busca de elementos para
a formação das companhias que
fizeram o 25 de Novembro. Dos
primeiros que se apresentaram na
Amadora nessa época conturbada. Fui
testemunha da sua apresentação ao
Jaime Neves e do trabalho de que
este o carregou. Nunca o vi falhar o
que quer que fosse, nunca defraudou
as missões pedidas, e nunca
cumpriram o que lhes prometeram.
Serviu sempre com os olhos postos no
bom nome e dignidade quer dos
Comandos Portuguese, quer da
Associação de Comandos.
Estou portanto à vontade para falar
deste meu amigo, e de muitos, que
talvez o não conheçam tão bem e só
se lembrem da imagem e do esforço de
ser o Porta Guião da Associação,
como à vontade me encontro para
PEDIR: A TODOS OS COMANDOS SEM
EXCEPÇÃO, DE ÁFRICA Á AMADORA, OU DA
CARREGUEIRA, O RESPEITO QUE LHE É
DEVIDO E O FAZ MANTER-SE
ORGULHOSAMENTE VIVO.
Venâncio, o meu respeito e o meu
abraço da amizade.
Mama Sume»
Victor M
Santos
