António Luís Marinho
O livro:
"Operação
Mar Verde: um documento para a história"
título: "Operação
mar verde: um documento para a história"
autor: António Luís Marinho
editor: Temas & Debates
2ªed. Lisboa, 2006 (1ªed. Círculo de Leitores, 2005)
303 págs
25cm
dep.legal: PT-234462/05
ISBN: 972-42-3569-6
Recensão (1):
– «A "Operação Mar Verde", realizada em Novembro de
1970, foi uma das maiores e mais controversas missões
executadas pelas Forças Armadas portuguesas nas guerras
coloniais (1961-1974). Mas só agora vê rompido o
secretismo decorrente da falta de documentação nos
arquivos civis e militares oficiais e do seu não
reconhecimento pelo Estado.
António Luís Marinho, autor do recém-lançado livro
"Operação Mar Verde, Um Documento para a História",
contou ao DN que o seu trabalho de pesquisa documental
confirmou "a tradição de não dar aos arquivos os
documentos oficiais" produzidos.
O jornalista (e actual director de informação da RTP)
revela pela primeira vez um conjunto de textos oficiais
sobre aquela operação. Contudo, "não acredito que haja
uma discussão" sobre o assunto porque há "pouca
tradição, infelizmente, de discutir" as questões da
guerra colonial. "Parece que metemos a cabeça na areia,
que há vergonha" de a debater, lamenta o autor.
O livro começou a ser preparado há 11 anos, quando "o
entusiasmo" com que Luís Marinho ouvia o comandante
Alpoim Calvão falar do ataque por si liderado contra a
República da Guiné-Conacry "não [o] deixou indiferente".
"Percebi também que estava ali uma história que valeria
a pena contar", escreveu o jornalista no prefácio do
livro editado pelo Círculo de Leitores.
A importância de contar essa história era tanto maior
quanto o marechal António de Spínola (comandante-geral e
governador daquela colónia à data dos acontecimentos),
assumira perante o Centro de Estudos das Campanhas
Africanas (em 1989) que "o processo oficial sobre a
'Operação Mar Verde' foi destruído".
A obra, escrita em estilo de reportagem e com recurso a
fontes das duas partes em conflito, revela na íntegra 18
documentos de arquivos particulares, permitindo conhecer
as posições (tanto no plano político como militar) de
vários dos actores envolvidos. Além de divulgar a
solução do problema da Guiné preconizada pelo general
António de Spínola, o livro publica a "ordem de
operações" manuscrita daquela operação, o relatório
elaborado por Alpoim Calvão após a sua realização ou o
redigido pelo comandante do único dos navios que tinha
como missão "abicar em terra para desembarcar forças", o
primeiro-tenente Costa Correia (um dos poucos que
verbalizaram reservas à operação).
No livro, onde o jornalista lembra o contexto político,
diplomático e militar da época, e historia a preparação
e execução da "Mar Verde", sobressaem precisamente as
dúvidas e reservas existentes ao nível político e
militar contra a operação.
Esta foi pensada por Alpoim Calvão, que a apresentou a
Spínola em Agosto de 1969. O brigadeiro do monóculo
"ouve com visível agrado a proposta de Calvão e diz-lhe
para avançar com os preparativos", escreve Luís Marinho
na página 62. Mas só no fim desse ano é que a missão
ganha contornos definidos, quando dissidentes da
Guiné-Conacry (ligados aos serviços secretos franceses)
pedem apoio ao Ministério do Ultramar para derrubar o
Presidente Sékou Touré.
O autor diz, ainda na mesma página, que "as Informações
constituíram, desde o início, o 'calcanhar de Aquiles'
da operação, e uma constante preocupação para Alpoim
Calvão". Mas esta consciência, que a operação validaria,
não fez vacilar o chefe fuzileiro. E tanto ele como o
general Spínola deram ordem de prisão e fizeram ameaças
directas aos que ousaram exprimir dúvidas sobre a
exequibilidade da operação.
Outro aspecto singular da operação é que, já em Novembro
e a poucos dias do início da acção, "há passos decisivos
que não foram ainda dados" (página 86). Spínola, tendo
pareceres negativos dos ministros da Defesa, Sá Viana
Rebelo, e do Ultramar, Silva Cunha - o chefe da
diplomacia, Rui Patrício, desconhecia o assunto -,
"decide jogar o tudo por tudo e vai até ao limite",
escrevendo ao presidente do Conselho uma carta que manda
entregar por "um enviado especial" - o próprio Alpoim
Calvão, recebido por Marcello Caetano a 16 de Novembro.
Luís Marinho revela também o diário pessoal do
comandante da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), comodoro
Luciano Bastos, em que este revela "a fúria" de Spínola
com os resultados da operação. Tendo-o chamado ao seu
gabinete, o brigadeiro disse-lhe, "por vezes com grande
excitação, que o Calvão, embora tivesse planeado tudo
muito bem e que, sem ele, a operação não se realizaria,
havia falhado redondamente no campo da execução".
Spínola "acrescentou ainda que o Calvão actuara como
para realizar um golpe de mão, sem ter percebido que o
fundamental ali era o golpe de Estado", lê-se no diário
do comodoro.»
(Manuel Carlos
Freire, 17Abr2006, in
http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=639170
)
Recensão (2):
– «Este livro contribui significativamente para o
processo de encerramento da história colonial portuguesa
e do seu corolário, consubstanciado nas guerras de
independência, na opinião de uns, ou nas guerras
contra-subversivas, na opinião de outros. Seja qual for
a perspectiva, a verdade é que em Abril de 1974 não só
terminou um regime político, como se criaram pelo menos
mais quatro novos países em resultado directo do
abandono da potência colonial – Portugal. Também, mais
ou menos nessa data, se pôs fim à guerra em que Portugal
estava envolvido desde há treze anos nas suas colónias
africanas.
"Operação Mar Verde", foca especificamente o teatro de
operações da Guiné-Bissau e em particular um dos seus
mais marcantes episódios: a invasão da República da
Guiné-Conacri, país vizinho da Guiné-Bissau, que se
havia recentemente tornado independente da França. É
neste ponto que a importância maior deste livro se
revela. Por um lado, o facto de um país pequeno como o
nosso ter tido capacidade de protagonizar o acto de
guerra mais perigoso para qualquer força beligerante — a
invasão de outro país soberano. Por outro lado o facto
de até à data, nenhum órgão oficial do estado Português
ter admitido a existência deste acto de guerra, ou terem
sido libertados quaisquer documentos oficiais que o
comprovem ou desmintam.
Este assunto não é novidade para aqueles que, mais
irrequietos e perguntadores, investigam e se interessam
por este tipo de assuntos. Mas o livro de António Luís
Marinho, traz várias novidades. Em primeiro lugar, o
estilo jornalístico em que foi escrito (o que não
admira, pois o jornalismo é a profissão do autor)
permite a narração dos factos de uma forma interessante
e até desapaixonada, o que é importante quando o tema é
a guerra, com intervenção directa de alguns dos seus
verdadeiros protagonistas ainda sobreviventes. Em
segundo lugar, o autor conseguiu ir além do método
jornalístico — confrontação de fontes diversas para a
construção da história — apresentando um conjunto
impressionante de documentos relativos à operação
militar (115 páginas) Estes não têm origem na torre do
Tombo nem no estado-maior das Forças Armadas; vêm do
espólio particular de quem planeou e dirigiu a operação,
o comandante Alpoim Calvão. Em terceiro lugar, conta
ainda uma história inédita associada à operação de
invasão da Republica da Guiné-Conacri: a libertação de
quinze prisioneiros portugueses, que o governo de
Portugal da época nunca tinha admitido existirem e que
foram simplesmente engrossar a lista dos mortos e
desaparecidos em combate.
Assim, este livro consegue dar a conhecer um capítulo da
nossa história mais recente, e que parece quer
esconder-se, como se os treze anos de guerra em África
não passassem de páginas de calendário que se arrancam
quando chega o fim do mês ou que os mortos (número
incomensurável do lado africano) morreram apenas de
mal-estar. O autor prova com base no método jornalístico
e documental a existência e realização desta operação
militar portuguesa contra outro país soberano — e que
nessas guerras de África também existiram prisioneiros
portugueses, que outros portugueses heróis souberam
resgatar, sem que o governo alguma vez o tivesse
admitido.»
(Fernando M. Caria,
19Abr2006, in
http://criticanarede.com/html/lds_marverde.html
)