Nasceu
no dia 21 de Novembro de 1949 na aldeia de S. Fagundo,
concelho de Tábua, distrito de Coimbra. Aos onze anos
foi viver para Lisboa. Foi operário na construção civil,
trabalhou numa oficina de carpintaria e foi engraxador
nas ruas. Aos dezoito anos alistou-se nas Tropas
Pára-quedistas, onde permaneceu quatro anos. Mobilizado
para Moçambique, combateu nalgumas das mais importantes
operações militares contra os guerrilheiros
nacionalistas. No regresso a Lisboa, viveu como
trabalhador-estudante. Nos primeiros anos, durante o
dia, trabalhou como gerente de supermercados e inspector
de vendas numa multinacional; durante a noite, estudou
no liceu até à conclusão do 12º Ano. Entrou para a
Faculdade de Direito de Lisboa, onde concluiu a
licenciatura em Direito na área de Ciências
Jurídico-Económicas. Foi director de multinacionais com
responsabilidade nacional e internacional, formador de
marketing certificado pelo IEFP, consultor de gestão e
organização de empresas. Integrou cursos e estágios de
formação dentro e fora do país. Colaborou em jornais de
Moçambique e Portugal, escreveu para televisão, e
publicou o romance “Olhos de Caçador”, baseado nas suas
vivências africanas na guerra de guerrilhas.
conta-nos a história do tenente Romão, o aviador que
enfrenta a morte nos céus de Moçambique durante a
guerra, quando o seu avião é atingido por um míssil
terra-ar. Na costa oriental de África vem a tropeçar
no rasto de outro português, agente do rei de
Portugal, que por ali passou séculos atrás. A
descoberta arrasta-o do passado para o futuro
seguindo uma enigmática pista, anteriormente
perseguida pela Inquisição. Envolve-se numa perigosa
cruzada onde se entrelaçam o insólito e o
inexplicável, a política de Estado e as intrigas das
organizações clandestinas, a procura do sagrado e o
conhecimento profano. Descobre que o mesmo céu que
percorreu de avião, foi durante séculos alvo do
interesse de outros homens com outros propósitos.
Movidos pela força da fé e a curiosidade da razão,
afrontaram os fanáticos dos dogmas e da ordem
estabelecida. Em O céu não pode esperar,
cruzam-se a ciência divina do Novo Mundo e o
obscurantismo religioso, a Restauração da
Independência de Portugal e a herança judaica, os
inimigos da Revolução de Abril e a política da Santa
Sé. Quando a admirável verdade irrompe, tudo faz
sentido, tudo se harmoniza, até o censurável amor,
coisa admirável de acontecer.
No princípio era o
voo. E o céu um lugar ameaçador.
Faltava pouco mais de hora e meia para o tenente Romão
encarar a morte de frente, ver o corpo envolvido pelas
chamas do jacto despenhando-se em direcção ao solo, em
direcção à morte. Só que ele ainda não sabia. Dormia.
Dormia tranquilamente, envolvido pelos lençóis brancos
da cama, sonhando com a mulher que despira na noite
anterior e com o uísque que emborcara até esvaziar a
garrafa.
Pela última vez, dormia naquela cama.
“Há semanas que
Fagundes Dias errava pelo Sinai, terra de profetas e
sinais bíblicos, fugindo aos perseguidores de Castela
que o seguiam desde Jerusalém. Caminhava sobre um chão
de calhaus e escorpiões, envolvido por silêncios e
solidão. Uma terra desolada. Aqui nasceram religiões e
Deus gravou mandamentos na pedra. Por aqui passou a
cavalaria de Alexandre e as legiões de Roma, os soldados
do faraó e os exércitos da Babilónia, os cruzados
europeus e Moisés em busca da terra prometida”.
Enquanto via os
barcos partirem para África ao som de “Angola é Nossa”,
Simão, cansado da improvisação e falta de meios do
Exército, alistou-se no Regimento de Pára-quedistas da
Força Aérea. Como descobriu mais tarde ao chegar a
Tancos, ali aprendia-se a combater e a dar cabo do
inimigo de um modo bem mais expedito e profissional.
O início de 1963 foi encontrá-lo na floresta dos Dembos,
combatendo as hordas meio selvagens dos guerrilheiros da
FNLA, sucessora da UPA de triste memória, que cometeu os
grandes massacres sobre a população branca dois anos
antes. Perseguiu e matou turras de Zala a
Quipedro, das Lundas até ao Leste de Angola, até às
terras do fim do mundo na fronteira com a Zâmbia.
Sentaram-se na
esplanada de um restaurante próximo da água. Onde no
passado terão andado Jesus Cristo e os apóstolos
lançando as redes, corriam agora pranchas de
windsurf e barcos desportivos rebocando praticantes
de ski aquático. Turistas nórdicos espalhavam creme
protector sobre o nariz e partiam para o lago a bordo de
pequenas embarcações.
- Vão até ao kibbutz Guinossar na margem
ocidental – esclareceu. Dali prosseguem até Tabga, local
do milagre dos pães, e Cafarnaum, a aldeia onde vivia o
apóstolo Pedro. É um belo passeio, devia experimentar.
(in “O céu não
pode esperar”)
A
notícia no Jornal "Correio da Manhã" de 01Mai2009
01 Maio 2009 - 00h30
Livro da semana
“Há mais no Céu do que se vê da
Terra”
António Brito acaba de publicar um
novo romance, ‘O Céu Não Pode
Esperar’, o segundo de uma cruzada
que pôs em marcha para colocar a
Guerra Colonial ao serviço das
grandes questões do pensamento
humano.
Em ‘O Céu Não Pode Esperar’
cruzam-se a ciência e a religião, a
Restauração da Independência de
Portugal e a herança judaica, os
inimigos da Revolução de Abril e a
política da Santa Sé. O resto é
ficção.
"Ao contrário do meu primeiro
romance, 70 por cento do qual
autobiográfico, neste só a
circunstância histórica é real e
ilustra a grande questão que ocupa o
espírito dos homens: há mais no Céu
do que se vê da Terra... Escrevo
para arrumar as perguntas porque as
respostas estão com os leitores",
conta o autor.
António Brito tinha 18 anos quando
se alistou nas tropas
pára--quedistas. Um ano depois
estava em Moçambique. Fez a guerra.
"Quando embarquei para Moçambique,
Portugal era um país muito triste,
cinzentão, sem saídas. Não sou dos
que se dizem forçados a ir para a
guerra. Fui porque quis. África era
uma saída para o Mundo. O serviço
militar e a emigração eram meios
para atingir esse fim, essa evasão",
diz.
Há cada vez mais livros, escritores
e leitores da chamada literatura
colonial – género em que António
Brito reconhece enquadrar-se. Mas
coloca reservas.
"Logo a seguir ao 25 de Abril,
escrevia-se muito uma espécie de
literatura do ressentimento: tudo o
que era negro e africano era bom;
tudo o que era europeu e português
era colonialista e explorador...
Hoje escreve-se mais um registo de
memórias, vivências extremas de
gente muito nova. Sem ressentimento.
Interessa-me África enquanto pano de
fundo de acções e personagens. Ainda
vou escrever um terceiro neste
registo mas não vou ficar por aqui",
conclui.
PESSOAL
DETEMINAÇÃO
"Formei-me em Direito e reformei-me
há cinco anos, mas trabalhei desde
os nove: colector de resina, trolha,
engraxador... Essas experiências
moldaram-me o carácter: muito
determinado.
AMBIÇÃO
"Era um jovem pára-quedista sem
grandes estudos mas com grandes
ambições: ser escritor. O então
major Proença de Almeida deu-me um
conselho de vida: ‘Agarra-te aos
livros!’"
RESISITÊNCIA
"Voo livre e maratona são
actividades que pratico em nome da
boa forma física e mental. A
resistência à dor é o que permite
atingir a meta, ultrapassar os
limites, superar o desafio."
O livro Olhos de Caçador, tem por
protagonista um soldado do exército português
chamado Zé Fraga, mobilizado para a guerra colonial
em Moçambique. Com um passado de contrabandista e
passador de emigrantes na fronteira com Espanha,
vivia de expedientes e pequenos golpes, até ao dia
em que é preso, alistado e mobilizado
compulsivamente.
Zé Fraga é um rebelde que escarnece
da autoridade, da obediência à lei e do respeito
pela propriedade alheia. Recusa fazer o serviço
militar e viver dentro do seu apertado sistema de
regras. Quer continuar a ser um homem livre, sem
freio. Mas, ao mesmo tempo, sente-se fascinado pela
possibilidade de descobrir um mundo de horizontes
sem fim, que só a mobilização para África lhe pode
proporcionar.
Mulherengo, brigão, malandro, Zé
Fraga é um sedutor, fazendo relacionamentos e
amizades com facilidade. Tendo vivido do contrabando
nas serranias das Beiras, ludibriando a GNR e a
Guardia-Civil, esse passado rústico de regulares
confrontos com a autoridade, vai fazer dele o
soldado mais adaptado que todos os outros à dureza
do mato africano, sendo temido pelo inimigo, e uma
referência de coragem e liderança para os soldados
da Companhia.
Uma breve entrevista na
Antena 1, no programa "À Volta dos Livros":
O que diz a crítica
“Olhos de Caçador, é um dos melhores
romances testemunho sobre a guerra colonial
publicado nos últimos anos. (…) A acção é veloz, o
enredo é ficcionado, mas o discurso é cru e preciso,
cheio de detalhes realistas”.
(Filipa Melo/Luís Caetano – Programa
Câmara Clara, RTP 2)
“Li e fiquei impressionada com o
documento; acho que é um documento fortíssimo e,
como documento, muito bem escrito. A linguagem é
muitíssimo violenta, às vezes quase resvala um pouco
para Emile Zola, mas depois agarra bem e volta para
trás e não abusa; fica em consonância entre aquilo
que quer dizer e a própria linguagem. Está muito bem
abraçado, está muitíssimo bem. (…) Foi uma surpresa
imensa”.