Trabalhos, textos
sobre a Guerra do Ultramar ou livros
Elementos
cedidos por Abreu dos Santos

António Pires Nunes
António Lopes Pires Nunes,
tenente-coronel de artilharia, na situação de reforma,
nasceu em Castelo Branco em 1939.
Cumpriu quatro comissões militares
em África, três das quais em Angola.
Licenciado em História com
pré-especialização em Arqueologia Clássica, pela
Universidade de Coimbra, colaborou com a Universidade
Técnica de Lisboa e a Universidade Lusíada em cursos de
pós-graduação e mestrados.
Foi professor do Instituto
de Altos Estudos Militares e da Universidade Lusófona. Sócio
Fundador da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos,
Sócio Efectivo da Revista Militar, Membro do Plenário e da
Comissão Científica da Comissão Portuguesa de História
Militar e Membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses
nas Secções de História e Pré-História.
Autor de várias obras com destaque
para:
«O Castelo Estratégico
Português e a Estratégia do Castelo em Portugal»
(Medalha de Prata da Associação Espanhola dos Amigos dos
Castelos), «Dicionário de Termos de Arquitectura Militar»
(Prémio “Ministro da Defesa” – 1990), «D. João e D. Nuno,
Chefes Militares em Fernão Lopes» (Prémio VI Centenário
da Batalha de Aljubarrota), «A Guerra em Angola – 1.ª
Parte, 1961-64» (Prémio “Ministro da Defesa” – 1999), «Angola,
1966-74, Uma Vitória no Leste», uma biografia de
Mouzinho de Albuquerque, publicada pela editora Prefácio e «A
Guerra em Angola – 2.ª Parte (1964-74)»
Colaborador da Nova História
Militar, ed. Do Círculo de Leitores.
É coordenador científico de «Cadernos
de Património Cultural da Beira-Baixa», onde tem vários
trabalhos publicados, o último dos quais «Os Castelos
Templários da Beira-Baixa».
O livro:
«Angola 1961 - Da Baixa do Cassange a Nambuangongo»

título: Angola 1961 - Da Baixa de
Cassange a Nambuangongo
autor: António Lopes Pires Nunes
ISBN: 9789728816360
Ano de edição: 12-2005
Editor: Prefácio (Edição de Livros e Revistas)
Idioma: Português
Dimensões: 200 x 280 x 10 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 180
Tipo de Produto: Livro
"Neste
excelente livro o autor, tenente coronel António Lopes
Pires Nunes, relata minuciosamente o que se passou
realmente em Angola desde a Sublevação da Baixa do
Cassange a Nambuangongo. Sugerimos vivamente a sua
leitura a todos aqueles que estão interessados em saber
a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola.
Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir
àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência
da Editora e do Autor. Obrigado"
Fonte:
http://petrinus.com.sapo.pt/sublevacao.htm
No dia 11 de Janeiro,
o Comando Militar de Angola foi alertado, através do
Governo Geral, que havia uma rebelião dos nativos da
povoação de Milando, no distrito de Malange. A 3a
Companhia de Caçadores Especiais (3a CCE),
sedeada em Malange, destacou para Milando uma patrulha,
que ali chegou na madrugada do dia 12 encontrando a
população bastante alarmada. O chefe de posto informou,
então, que os nativos das sanzalas de Ganga-Mexita e
Quivota, respectivamente a 5 e 9 quilómetros da
povoação, se tinham recusado a trabalhar e afirmavam que
matariam qualquer cipaio que ali fosse. A patrulha
deslocou-se à primeira das sanzalas onde encontrou,
dispostos em linha, cerca de 200 nativos com armas
gentílicas e, embora inicialmente se gerasse alguma
confusão, tudo serenou quando os rebeldes verificaram as
intenções pacíficas da tropa. Três representantes dos
amotinados falaram com o oficial comandante da patrulha
dizendo-lhe que não trabalhavam por ordem de Kasavubu e
ao administrador da circunscrição, que entretanto ali se
deslocara, que Maria os proibira de trabalhar pelo que
era com ela, que os castigaria se trabalhassem, que
deveria falar (ver capítulo "Os antecedentes da
Sublevação da Baixa do Cassange - o PSA"). Tornavam-se
confusos os motivos que os levara à rebelião, porquanto
Kasavubu era Presidente do Congo ex-belga, e a alusão a
Maria indicava uma preparação das populações por agentes
que exploravam as suas crenças no sobrenatural.
Na manhã do dia
seguinte soube-se que fora assassinado um capataz
mestiço da Cotonang e, quando a
patrulha voltou às sanzalas, verificou que estavam já
totalmente abandonadas, com indícios de a fuga ter sido
preparada. No dia 22, ocorreu idêntica rebelião em Tembo
Aluma, por parte de 300 nativos, alguns dos quais
empunhando dísticos do PSA e, à semelhança dos
acontecimentos do dia 11, não houve agressões ou
violências. A rebelião manifestou-se depois em
Cunda-Ria-Baza, Quela, Marimba, longo e Xamuteba. Em
pouco tempo a sublevação estendeu-se a toda a Baixa do
Cassange, com a adesão dos bangalas e dos maholos, sobre
os quais o PSA exercia uma forte e sistemática pressão.
A influência de um partido congolês em território
angolano explica-se pela continuidade das etnias
angolanas no Congo ex-belga e por haver mesmo sobas
portugueses que ali habitavam.
A calma pareceu
reinar em Milando; apesar disso, o Comando Militar de
Angola ordenou a permanência de uma secção de atiradores
naquela região, enquanto a 3a CCE fazia
intensos e longos patrulhamentos, que se estenderam até
Camaxilo, no norte da Lunda, tendo em vista esclarecer a
extensão da rebelião. A situação na Baixa do Cassange
piorava de dia para dia. No dia 1 de Fevereiro mais de
mil nativos concentraram-se próximo de Cunda-Ria-Baza e,
no dia 2, os europeus desta povoação fugiram para
Malange, perante as ameaças dos amotinados que gritavam
não querer ali brancos e exigiam a sua saída. No
Relatório Especial de Informações de 2 de Fevereiro, do
Comando Militar de Angola para o Chefe de Estado Maior
General das Forças Armadas, em Lisboa, diz-se mais "(...
) cerca de 600 trabalhadores voluntários das prospecções
mineiras ao longo do rio Cuango, abandonaram o trabalho
(...).
A situação parece extremamente grave e tudo indica que
estes acontecimentos se possam alastrar ao norte do
distrito do Congo, e ao distrito da Lunda (...)".
Não percebia ainda o CMA a verdadeira causa da
sublevação, mas o mesmo manifestava como provável que
"(...) se pretende que os europeus abandonem a região e
que a agitação possa estar ligada ao caso do "Santa
Maria". Teme-se ainda que a área da Diamang, na Lunda,
até então calma, venha a agitar-se e que se iniciem
acções urbanas que fixem as tropas nas cidades para que
seja mais fácil o alastramento da subversão nas zonas
rurais." (mesmo Relatório Especial de Informações).(...)
A OPERAÇÃO
CASSANGE
(...)
OPERAÇÕES DA 4a
CCE
(...) A 4a
CCE iniciou a operação (a primeira em África da geração
de 1961) partindo de Malange em direcção a Quela mas
cedo se verificou que as dificuldades eram muitas. A
principal relacionava-se com o facto de as tropas
portuguesas serem constantemente desprestigiadas pelas
atitudes dos revoltosos que as desafiavam e insultavam,
dançando em frente às viaturas, o que exigiu muito
sangue frio e uma rigorosa disciplina. Pesou também o
mau estado dos itinerários daquela região alagadiça,
onde as viaturas se atolavam a todo o momento e os
nativos começavam a destruir as pontes e pontões.
Os
reabastecimentos constituíam outro grave problema, em
grande parte resolvido pela Força Aérea. As tropas da 4a
CCE
depararam-se sempre com grandes concentrações de
nativos, frequentemente na ordem dos milhares,
totalmente indiferentes à soberania portuguesa, visto
considerarem-se independentes e indispostos com os
representantes da autoridade e com os funcionários da Cotonang, para a qual a maioria trabalhava na cultura do
algodão. Da inicial recusa ao trabalho em breve passaram
à acção violenta, tendo saqueado, destruído e queimado
as instalações da Cotonang, as casas comerciais e os
edifícios dos postos administrativos de algumas
localidades (Marimba, Tembo-Aluma).
Habilmente manobradas
por elementos subversivos vindos do Congo, essas grandes
massas de nativos julgavam-se totalmente protegidas por
uma Maria que lhes dava o seu beneplácito, desde que se
tratasse de escorraçar o homem branco.
Como estava
determinado, as tropas pretenderam inicialmente fazer só
demonstrações de fogo, mas o facto de dispararem para o
lado e para o ar só piorava a situação, porque os
amotinados convenciam-se ainda mais da sua imunidade às
balas e granadas, o que os levavam a tomar atitudes cada
vez mais afoitas e agressivas. Mesmo os aviões não
passavam para eles de "enviados de Maria", para os quais
entoavam cânticos. Porém, os primeiros tiros
mostraram-lhes que a Maria os tinha enganado e, a partir
de então, as operações tomaram o rumo da captura dos
cabecilhas, que logo eram desprestigiados perante a
multidão, e da apreensão das armas em seu poder.
Procurou-se
imediatamente dar ajuda material às populações famintas
que, antes, haviam destruído os seus haveres e a sua
criação, porque essas eram as ordens de Maria, que
também lhes tinha dito que só deveriam fazer capelas e
embelezar as sanzalas para o dia da sua chegada.
Em Quela, a situação
tornou-se gravíssima e intolerável pelo que a 4a
CCE viu-se obrigada a abrir fogo, para defesa própria:
"(.-.) Dei ordem de
fogo às duas metralhadoras e à bazuca, que já
havia mandado preparar com uma granada explosiva. O
tiroteio foi infernal, ouvindo-se tiros por todos os
lados, mesmo dos homens do pelotão que se encontravam a
proteger o flanco. As primeiras linhas dos revoltosos
começaram a cair, sempre cantando e dizendo "agora
podemos abrir fogo" e ouviram-se alguns tiros. A bazuca
abriu no meio deles uma grande clareira e, sob
continuação da intensa metralha, o grupo foi caindo
sempre a cantar, verificando-se já algumas tentativas de
fuga. Ordenei alto ao fogo, sendo necessário
gritar e apitar intensamente, no que fui ajudado pelo
senhor alferes Condesso, que se encontrava ao meu lado.
Após tudo serenado, verifiquei que os homens se
encontravam lívidos e que alguns haviam até disparado
para o ar, sendo necessário andar a acalmá-los e a
encorajá-los. O balanço total das baixas foi de um morto
e quatro feridos no nosso pessoal e de 71 mortos e 41
feridos entre os indígenas revoltados (...)". (cf.
relatório de 6 de Fevereiro do comando da companhia) A
companhia dirigiu-se depois para Cunda-Ria-Baza de onde
partiu para patrulhamentos a várias sanzalas amotinadas.
"(...) Esta sanzala,
a primeira da região baixa, mostrava-se mais hostil,
como aliás todas as outras que iríamos encontrar. Nela
fomos recebidos com cânticos, mas bastaram umas granadas
de mão ofensivas e umas coronhadas para a desarmar, Não
se verificaram incidentes graves.
Exigi a apresentação,
no dia seguinte, do respectivo soba, também nesta região
(...)". (cf. relatório de 7 de Fevereiro do comando da
companhia) "(...) Como esta sanzala se encontrava ainda
bastante afastada da estrada e como a noite se
aproximava rapidamente e se ouviam nela igualmente os
mesmos cânticos, ordenei um tiro de bazuca com granada
explosiva para perto, ao mesmo tempo que pedia ao avião
outra demonstração de força. Depois de uma rajada de
metralhadora executada pelo avião e terem parado os
cânticos, prossegui viagem. Não houve qualquer ferido.
(...)". (idem)
"(...) Com raras
excepções, as machambas encontram-se completamente
destruídas. A criação foi totalmente morta, raríssimos
bois se encontram e os cães, animais de maior estimação
dos indígenas, desapareceram por completo tendo apenas
encontrado um cão amarrado e já em decomposição dentro
de uma palhota.
Nesta situação, estas
populações estão condenadas a morrer à fome dentro em
breve (...)". (idem) No dia 8, ocorreu o que podia ter
sido um verdadeiro massacre, quando a 4a CCE
foi ameaçada por uma gigantesca concentração de nativos,
mas a amotinação foi esvaziada com apenas baixas
ligeiras. Por representar o modo de actuação das forças
em operações na Baixa do Cassange transcreve-se na
íntegra o relatório do capitão Morais elaborado a meio
dos acontecimentos: "(...) A cerca de 300 metros da
sanzala levantou-se um enorme alarido para os lados da
sanzala, que se transformou em coro de cânticos à Maria.

Ordenei que os
pelotões formassem em linha e continuei o avanço com o
capim pela cintura e em terreno alagado. A cerca de 100
metros mandei parar o avanço, porque, agora com o campo
de observação desimpedido do capim, verifiquei que junto
à casa do soba estavam reunidos cerca de 10.000
indígenas, homens, mulheres e crianças, encontrando-se
os homens armados. Com a ajuda do intérprete, senhor
Frade, que me acompanhava, soube que estavam a fazer uma
jura de guerra perante o soba e se preparavam para nos
atacar.
Ordenei a um sargento
que voltasse atrás e que num jeepão viesse pedir
reforços de mais um pelotão e a secção de morteiros.
Entretanto, o intérprete procurava parlamentar com o
soba, mas quem lhe respondia, à frente do bando, era o
feiticeiro.
Para os amedrontar,
mandei lançar 4 granadas de mão ofensivas e uma granada
de bazuca, que rebentaram em frente à sanzala,
levantando-se um grande alarido, seguido de um coro.
Traduzido pelo intérprete, diziam que a Maria lhes
falava verdade e que as armas dos brancos nada lhes
faziam.
Chegados à entrada da
sanzala, o senhor Frade, que se encontrava a meu lado,
subiu a um poste e chamou novamente o soba a fim de
parlamentar, mas o feiticeiro interpunha-se sempre.
Então o senhor Frade pediu uma das nossas espingardas e,
apontando cuidadosamente, abateu o feiticeiro.
Imediatamente outro indígena o substituiu, que vim mais
tarde a saber ser o filho do soba, futuro substituto do
pai. Outro guia, que também me acompanhava, senhor
Leonel, pediu uma espingarda a um soldado, apontou com
cuidado e abateu esse indígena com um tiro numa coxa.
Os cânticos
redobraram e mandei então fazer um tiro de bazuca para a
frente do grupo, mas as três granadas não funcionaram,
pelo que desisti. Pegando eu próprio numa metralhadora
ligeira, de um cabo que se encontrava a meu lado, em
posição de tiro e marchando, executei uma rajada por
cima do grupo. Começaram a dizer que as nossas armas "só
deitavam água", o que me levou a concluir que água para
eles é "nada".
Acabei por despejar
esse carregador com tiros para o tecto da casa do soba.
Levantaram-se gritos que traduzidos pelo intérprete
diziam que iam atacar. Metendo novo carregador na
metralhadora, fiz fogo directo sobre o grupo
dispersando-se o mesmo aos gritos. Uma nuvem de
indígenas armados fugiu na direcção de este e o grupo
mais pequeno na direcção do norte. Tendo mandado avançar
os dois pelotões em linha, revistando as palhotas,
aproximei-me do centro da sanzala. Verifiquei então que
cerca de 300 mulheres, muitas crianças e velhos se
encontravam reunidos por detrás da casa do soba,
acompanhados por uns 100 homens que não tiveram tempo de
fugir, quase todos eles armados.
No chão, ferido,
encontrava-se o Chirimbimbe, filho do soba da região,
com um tiro na coxa, como aliás atrás foi dito. Tendo
mandado ao senhor Frade fazer uma prelecção aos
amotinados sobre o grave incidente que motivaram,
tornando-os responsáveis pelas mortes já feitas,
esbofeteei o soba grande que caiu para o chão,
mandando-o amarrar com os seus sobas e sobetas.
Seguidamente mandei transportar para esta povoação os
feridos em padiolas, pelos homens prisioneiros que
saíram à frente do enorme grupo de mulheres, crianças e
velhos.
Comigo seguiram os
sobas e sobetas amarrados. O balanço das baixas foi de 4
mortos e 4 feridos. Mandei tratar dos feridos e fazer
comida para o pessoal aprisionado. Tendo falado aos
prisioneiros, por intermédio do intérprete, concordaram
que haviam sido enganados e que os culpados tinham sido
os maholos. Fiz seguir vários emissários para as
sanzalas dos sobas principais da região, ordenando-lhes
a sua presença imediata e entrega das armas levando como
amostra um cartucho completo de espingarda, dizendo-lhes
que a Maria não transformava aquele ferro em água.
Pela tarde apareceram
nesta povoação, a apresentar-se, uma enorme quantidade
de sobas e sobetas com armas trazidas das suas sanzalas.
Um ex-soldado indígena, que prestara serviço em Macau,
apresentou-se-me também como enviado de um soba,
trazendo um molho de armas gentílicas. Aguardo para
amanhã a chegada de mais sobas, que enviaram à sua
frente os seus emissários, dizendo que devido à idade,
tinha sido impossível apresentarem-se hoje. Quartel em
Cunda, 8 de Fevereiro de 1961.(...)"
De Cunda, a 4a
CCE passou a Belo Horizonte e ao Caombo, mas viu-se na
necessidade de voltar à primeira povoação porque um
grupo de cerca de 200 nativos, todos armados, ameaçava
de morte a população branca. Sendo intimados a entregar
as armas e a manterem-se pacificados, não
aceitaram a rendição e apontaram as armas para disparar.
Gerou-se um pequeno tiroteio, do qual resultaram 20
mortos e 16 feridos, que foram imediatamente tratados.
Quando as tropas se
encontravam no rio Gombe, a caminho de Marimba,
depararam com o chefe de posto de Tembo Aluma e dois
guardas da PSP que tinham sido obrigados a fugir. Haviam
feito uma marcha forçada durante a noite e ao passar por
Marimba foram desarmados, vexados e torturados.
Informaram que a
situação por aquelas bandas era insustentável. A tropa
seguiu para Marimba e, perante as atitudes usuais por
parte dos amotinados, foram disparados alguns tiros de
metralhadora, o que os obrigou a dispersar. Ao
aproximarem-se do rio sucedeu que a sanzala que domina a
margem, até então desabitada, encheu-se de uma multidão
que, entrincheirada na paliçada de canas que a rodeava,
a desafiou esgrimindo trabucos e catanas. Naquela
direcção foram disparadas algumas rajadas de uma
metralhadora pesada, enquanto um morteiro ligeiro de 60
executava tiros para as suas imediações. Não houve
vítimas e, pouco depois, tudo recaía na calma,
enquanto prosseguia a construção de uma jangada.
No dia 17, já a
companhia atingira Tembo Aluma, onde as sanzalas estavam
desabitadas e o edifício da administração arrombado e
saqueado. Perseguindo o bando, as tropas aproximaram-se
da fronteira e na região das Quedas Guilherme, ao
chegarem perto de uma sanzala, depararam com um grande
grupo de nativos armados. Foram aconselhados a
entregarem-se, explicando-se-lhes que seriam bem
recebidos. Perante a recusa foi disparada uma granada
de bazuca sobre uma palhota próxima que, com
surpresa, explodiu violentamente. Era um esconderijo de
pólvora, armas e munições que, incendiando as outras
palhotas, provocou a debandada do grupo. A 4- CCE
ao atingir Tembo Aluma cumprira a sua missão.
Á medida que ia
resolvendo a agitação que se lhe deparava, da
forma que se descreveu, verificava-se que os povos mais
pacíficos voltavam à sua vida normal e a região podia
considerar-se pacificada. Só os maholos não se
aproximavam e fugiam para o Congo sem voltarem a criar
problemas. Os agitadores falharam os seus propósitos e a
4a CCE havia conseguido o que à partida
parecia impossível - pacificar a região em 12 dias.
Espalhou depois os seus pelotões pelas povoações da área
onde estivera em operações aguardando o evoluir da
situação, enquanto executava patrulhamentos e fazia
acção psico-social sobre as populações nativas, impondo
aos sobas a obrigação de entregar os agitadores e os
feiticeiros. No dia 17 de Fevereiro o major Rebocho Vaz
elaborou para o Comando Militar de Angola a seguinte
apreciação (Plano de Operações nº 3 - Operação Cassange):
"(...) O elevado
moral da 4a CCE, o espírito de decisão do
comandante e das tropas e ainda o bom
senso e equilíbrio revelados na resolução de incidentes
graves, limitaram o número de baixas sofridas
pelos indígenas. Houve sempre o propósito de causar o
mínimo de mortos ou feridos e, sempre que houve
necessidade imperiosa de abrir fogo, procurou-se fazer
pontaria baixa. Este facto reflectiu-se nos feridos
apresentados no hospital de Malange, que têm, na grande
maioria, ferimentos nas pernas. Também nessas ocasiões
se procurou sempre abater, em primeiro lugar, os
indivíduos que, nitidamente, se destacavam como
cabecilhas.
É de realçar a ajuda
prestada por civis, utilizados como pisteiros e
conselheiros nas relações com os indígenas, em especial
a do sr. Frade, de Malange. Actualmente julga-se que
ainda é necessário manter, por um período razoável, uma
ocupação na zona pacificada com a finalidade de mostrar
aos indígenas que as Forças Armadas estão atentas e dar
aos europeus a confiança necessária para retomarem as
suas actividades comerciais. Também servirá para mostrar
aos povos gingas que o Estado está pronto a protegê-los
contra a influência perniciosa dos maholos que, antes da
pacificação, chegou a atingir graves aspectos (obrigaram
alguns sobas gingas a aderir).
Seria de encarar a
hipótese de as Autoridades Administrativas substituírem
todos os sobas que se sublevaram. Teria também uma
influência extraordinária na atitude dos maholos se lhes
tirassem a concessão que têm sobre as minas de sal gema
existentes na região de Milando. Segundo informações,
dessas minas exportavam sal praticamente para toda a
Baixa e até para a República do Congo. Bastaria
atribuir, como castigo temporário ou definitivamente,
essa concessão aos povos bondo e bangala (que parece que
foram os primeiros concessionários) para que material e
psicologicamente os maholos fossem muito atingidos e
sentissem o castigo imposto.
Tem de se encarar
desde já a necessidade urgente de se acudir com
alimentos às populações indígenas. A parcial destruição
das culturas, a morte do gado e dos cães, a apreensão
das armas normalmente utilizadas na caça, irão provocar,
sem dúvida, uma crise gravíssima. É opinião geral que a
miséria é enorme e que muitos morrerão à fome se não
houver uma acção centralizada de auxílio em alimentos.
Esta acção, além do fundamental aspecto humanitário,
teria também paralelamente um efeito psicológico
decisivo sobre as populações, que foram arrastadas a
esta situação por agitadores que, habilmente, exploravam
condições locais péssimas, originadas pelos
indiscutíveis abusos dos agentes das empresas
concessionárias e até das Autoridades Administrativas
(...)".
OPERAÇÕES DA 3a
CCE
No dia 16 de
Fevereiro, a 4a CCE tinha já a sua missão
cumprida e o comandante do batalhão considerou que a
zona de acção onde aquela companhia interviera se
encontrava praticamente pacificada, chegando a altura de
atribuir uma missão à 3a CCE. No Plano de
Operações nº 2, elaborado nessa data, diz-se que as
regiões de Caombo, Benge-Angola, Marimba, Tembo Aluma,
Anguengo, Chiquita, Quinzenga e de Cunda-Ria-Baza eram
já pacificadas, em especial as zonas sul e oeste,
prevendo-se que a 4-CCE pudesse cumprir sozinha a
pacificação total da área sem mais problemas. Os nativos
estavam a regressar ao trabalho e iam voluntariamente
receber sementes da Cotonang.
Acrescentava o mesmo
documento que os povos gingas, situados a noroeste da
estrada Caombo-Marimba, estavam a apresentar
cumprimentos ao comandante da coluna e a entregar os
agitadores que neles se tinham introduzido. O Plano
expressava ainda que não havia indícios de sublevação a
sul da estrada Malange-Xandel-Xa-muteba e apontava como
único problema, o receio das populações brancas de
Milando, o coração da rebelião, de voltar a trabalhar na
região. O comandante de batalhão era da opinião que ali
deveria ser colocada uma força com armas automáticas, o
que, por si só, resolveria a situação, pois não se
previa que houvesse mais mostras de força por parte dos
sublevados.
Faltava agora
percorrer a faixa a leste de Milando, ou seja, o sector
a norte da linha Cassange-Iongo-Cuango até Luremo e
Catxinga. Uma vez que se previa que a 5a CCE
demoraria pouco tempo a chegar a Malange, o mesmo
documento operacional expressava que ela deveria ir
efectuar a segurança de Malange e libertar a 3a
CCE para operar naquela região.
Foi então dada à 3a
CCE a missão de se deslocar no itinerário
Malange-Quela-Iongo a fim de avançar para norte,
procurando sufocar as eventuais sublevações com que
deparasse e, para sul, proceder de igual forma até à
linha Xandel-Xamuteba.
Em relação à 4a
CCE confirmou-se a previsão do Plano de Operações e, em
19 de Fevereiro, o seu comandante pôde relatar para o
comandante de batalhão: "tudo se encontra pacificado e o
terror de Maria desapareceu para dar lugar ao terror do
exército. O mito desfez-se e a principal cutilada foi
dada ontem pela avioneta que eles estavam convencidos
que vinha do Congo e que eles cumprimentaram.
Evidentemente que a resposta que lhes deram matou dez e
convenceu-os que Maria estava zangada com eles
(...)".
A 3a CCE
não estivera até então completamente inactiva. Por se
preverem alterações da ordem na região de Cuango, o
administrador de Canhungula solicitou ao destacamento de
Camaxilo (norte da Lunda) que ali se deslocasse uma
patrulha. No dia 9 de Fevereiro, durante o deslocamento
e já próximo de Cuango, a força deparou com cerca de 300
a 400 nativos amotinados que haviam cortado a estrada e
várias pontes. Tendo sido intimados a reparar
imediatamente os estragos, pois as pontes eram
necessárias para a passagem das viaturas, recusaram
sempre com o mesmo argumento de Maria, deram sinais de
querer iniciar um ataque e dispararam um tiro apontando
ao administrador.
No alvoroço que se
gerou, as tropas dispararam primeiro para o ar e
fizeram, depois, tiro ajustado e intencional, resultando
a morte de 8 amotinados e muitos feridos, num total de
50 baixas. No dia 11, chegaram ao Cuango notícias de que
as populações já haviam iniciado a reparação da estrada
e das pontes e, no dia 12, todas elas estavam já
reconstruídas, como o administrador confirmou. Uma
informação posterior da Autoridade Administrativa
referia também que, depois do sucedido em Cuango, os
nativos de Luremo, com algumas excepções na fronteira,
apareceram todos a fazer as suas lavras. Na zona de
acção desta companhia tudo se passava igualmente da
forma habitual - a pacificação era rápida mas só ocorria
depois de os revoltosos sentirem na pele o efeito das
balas das forças portuguesas.
Transcrevem-se alguns
excertos significativos, de 23 de Fevereiro, do
comandante da 3a CCE: "(...) Operação 'Truta'
(região de Monte Papo) - a primeira que a companhia
realizou: após o bombardeamento efectuado ontem tive
conhecimento, por intermédio do chefe de posto de Iongo,
que foram mortos muitos indígenas e enviei um emissário
para Donga, a fim de averiguar ali os resultados da
acção aérea. Foram confirmados 11 mortos e 21 feridos
(...)"
"(...) Operação
'Raia' (região de Muanha): avistámos à volta do armazém
da Cotonang uma multidão de pretos reunidos.
Aproximámo-nos a cerca de 50 metros; mandei chamar o
soba Muanha, mas ele respondeu-me que "fosse lá eu"...;
insisti novamente, dizendo-lhe que haveria muitos mortos
se ele não comparecesse perante mim. Voltou as costas,
dizendo que era Deus e que só obedecia à Maria,
começando a referir-se com violência aos brancos. Mandei
abrir fogo, indicando como alvos principais o soba e os
agitadores que estavam com ele; caíram todos e os
outros, querendo reagir, foram abatidos também (...).
Foi capturada grande quantidade de material, entre
catanas, espingardas, azagaias e facas (resultado: 60
mortos e 80 espingardas e 150 catanas apreendidas, cf.
Sitrep 23/24 do Batalhão Eventual), A acção teve
consequências imediatas porquanto o pessoal das sanzalas
vizinhas começou a regressar às cubatas, normalizando-se
a situação nessa zona.
"(...) Operação
'Limão' (região de Cuango): deparei com 200 indígenas
sentados no chão em atitude de oração, com o soba maior
e sobetas. Não se mexeram; mandei chamar o soba maior e
os sobetas, os quais vieram logo. Disse-lhes para
entregarem todas as armas, o que fizeram a seguir: 130
catanas, 74 azagaias, 19 espingardas e alguns
punhais (...).
Tudo se transformou
numa alegre reunião de brancos e pretos, numa verdadeira
e franca confraternização. Não houve um único tiro
disparado. Expliquei-lhes também que deviam recomeçar o
trabalho do algodão, o que prometeram fazer
imediatamente. (...)".
Com a evolução
favorável dos acontecimentos na Baixa do Cassange, a
acção operacional das forças portuguesas foi,
gradualmente, cedendo lugar à acção psicológica e à
assistência sanitária às populações da região. Em meados
de Março, após uma pacificação total, as companhias em
operações recolheram e ficaram apenas destacados
elementos nos locais onde fora prevista a manutenção de
efectivos militares, de acordo com a informação ns
52/61 da 3a Rep/QG de 9 de Março de 1961, que
a seguir se tran
screve: "(...)
Marimba: 1 pelotão com secções destacadas em Forte
República e Tembo Aluma. longa: 1 pelotão com secções
destacadas em Milando e Xamuteba.
Malange: a 3a
CCE, reforçada com 4 secções de atiradores do Regimento
de Infantaria de Luanda para os destacamentos
anteriores. (...)" A 4a CCE recolheu a
Malange e quando a 5a CCE chegou a esta
cidade, foi extinto o Batalhão de Caçadores Eventual.
AS BAIXAS
Tendo os comandantes
da 3a e da 4a CCE sido muito
meticulosos na elaboração dos seus relatórios e tido o
cuidado de contar e confirmar as baixas entre os
sublevados (mortos e feridos), mesmo as causadas pela
Força Aérea, podemos estimá-las entre duzentos a
trezentos mortos e uma centena de feridos entre
os revoltosos e 2 mortos e 4 feridos entre os elementos
da 4a CCE. A 2a Rep/RMA, pelas
informações posteriormente recebidas, acabou por
contabilizar 173 feridos (cf. nota nº 5698 de 11
de Março de 1961 para o Governo Geral de Angola).
Acresce que as Forças Armadas pareciam ter um
preconceito contra a Cotonang, bem patente em todos os
relatórios e a meticulosidade dos números, que as tropas
entendiam ser demasiado elevados, parece um libelo
acusatório contra a companhia algodoeira à qual
atribuíam as culpas pela sublevação, que enfrentavam
mais com relutância do que com sentido de inimizade.
Diz-se com frequência que as forças portuguesas
cometeram ali um massacre e que a desproporção de
armamento era abismal.
Deve ter-se, contudo,
em atenção que as armas gentílicas podiam ser tão
mortíferas como qualquer outra e que centenas de
amotinados, armados apenas com canhangulos e catanas,
podiam causar muitas baixas entre os militares. Poderá,
no entanto, ter havido excessos provocados pelo
nervosismo em que as tropas estavam a operar e pelas
condições absolutamente novas em que as operações
decorriam. Foi na Baixa do Cassange que o Exército
Português disparou pela primeira vez, em situação real,
desde a I Guerra Mundial.