"Guiné:
uma diligência interrompida porquê?"
«Depois da
Operação Guidage, em Maio de 1973, para apoio e
reabastecimento àquela guarnição, sucederam-se vários
movimentos de colunas, de ida e volta, todas com ponto
de passagem em Farim, cujo sector era, por isso, muito
empenhado em picar itinerários, montar seguranças,
alimentar e prestar toda a
ordem
de apoios ao pessoal de passagem. Isto provocava um
enorme desgaste nos elementos dos órgãos de comando do
sector que, durante vários dias, não puderam contar com
um horário normal de actividade. Dormir o indispensável
era nas horas mais variadas, de dia ou de noite, nos
curtos intervalos de acalmia.
Foi assim
que recebi com alguma satisfação a ordem do
Comando-Chefe para montar um comando avançado do sector
em Cuntima. A mensagem rádio acrescentava laconicamente,
como justificativo, que as informações do Quartel
General davam como muito provável uma acção inimiga
sobre aquela guarnição que ficava a escassas centenas de
metros da fronteira com o Senegal.
Relacionei
esta ordem com as noticias que referiam a presença de
carros de combate na Guiné-Conakri perto da fronteira
entre o Senegal e a Guiné Portuguesa, ao que constava
destinados a um ataque a Cuntima. Porem as informações
recolhidas nesta guarnição continuavam a confirmar que o
Senegal não autorizava a passagem pelo seu território.
O
comandante da companhia Capitão Miliciano Vasco Vale, ao
ver-me chegar imprevistamente, não escondeu a sua
surpresa nem tão pouco a sua preocupação por deduzir,
após a explicação da minha presença, que se punha em
dúvida a sua capacidade para enfrentar a situação.
Tranquilizei-o, afirmando-lhe que não ia interferir no
seu comando, confiava no seu serviço de informações (que
não previa nenhum agravamento da situação a curto prazo)
e que ia aproveitar para descansar. Aliás, com o mesmo
intuito, levava comigo o oficial de operações (1) e o
oficial de transmissões (2) que eram os mais desgastados
com a Operação Guidage e os problemas de coordenação que
se seguiram com as já referidas colunas.
Distribuídos os alojamentos, depois da troca de
impressões sobre a situação no Sub-Sector, os três demos
de imediato cumprimento ao nosso programa: pôr o sono em
dia.
A
descontracção que propositadamente vivia apenas era
importunada pelo clima que, em Junho, a preceder o
período das chuvas, era ainda mais incómodo.
As manhãs
eram agradáveis, pelo bulício resultante da chegada de
senegaleses que, a partir das nove horas, acorriam ao
nosso Posto Médico.
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1)
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Os homens da Companhia
Eventual também ali sediada, constituída por Fulas,
todos voluntários, e sem quadros (3), quando estavam
presentes aproveitavam para se abeirar das vistosas
senegalesas todas enfeitadas, e faziam-lhes a corte à
sua maneira: era a hora do ronco dos namorados.
O Capitão
Vale entretanto colhia habilmente as noticias que lhe
interessavam. Nada de novo.
No dia 29
de Junho, Sábado, surgiu o inesperado: três helicópteros
são detectados em aproximação à pista (4) e
simultaneamente uma mensagem faz saber que está a chegar
o General Spínola.
Havia já
vários meses que nenhum meio aéreo tinha sido visto em
Cuntima, excepto para raras acções de evacuação
consequência das medidas preventivas contra a utilização
do míssil terra-ar pelo PAIGC. Com efeito junto à
fronteira não podia arriscar-se sem as adequadas medidas
de segurança por ser sempre possível um lançamento
partindo do Senegal.
A
aterragem dos helicópteros foi festa.
Por mim
encarei com certa apreensão a visita do
Comandante-Chefe. A Operação Guidage, embora tivesse
dado já Origem a referencias especiais e muito
elogiosas, não estava para mim terminada. Aguardava a
oportunidade para explicações e não me tinha preparado
para a discussão que previa fosse muito dura.
Eis senão
quando o Comandante-Chefe desembarca sorridente, não
quis fazer o questionário que lhe era habitual nas
visitas aos comandos operacionais, adiantou que confiava
nas medidas tornadas pelo Sector e, depois de uma breve
exposição do Capitão Vale sobre a situação na sua área,
pediu apenas para ficarmos a sós no gabinete do
comandante da companhia.
Quando
supunha que iríamos entrar no caso Guidage o General nem
se lhe referiu. No tom mais cordial que imaginar se
possa contou-me o que tinha sido a sua acção desde que
chegara à Guiné, nos contactos com o Presidente Senghor,
os contactos com os comandos do PAIGC nos tempos de
Amílcar Cabral e as suas diligencias na interferência da
escolha do próximo Secretário Geral do PAIGC cuja
eleição ia ocorrer dentro de dias.
Tudo eu
ouvi com um misto de surpresa e curiosidade. Muita
novidade para mim e ao mesmo tempo muitas interrogações
íntimas, permanentes, mas contidas: porquê esta
abertura? Porquê esta abordagem de temas tão secretos,
comigo que não pertenço a tal circulo? Será só para
desvanecer a minha animosidade por causa dos precedentes
da
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2)
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Operação Guidage? Virá aí alguma missão especial? Porque
esta conversa longa, pormenorizada, esta exposição da
situação de áreas tão confidenciais?
Fiquei
meio atónito quando o General, que continuava bem
humorado, se despediu de todos e regressou a Bissau.
Sempre
tive a preocupação de respeitar o segredo e habituara-me
a controlar a curiosidade. Sempre considerei que, em
matérias classificadas, não se deve fazer pressões nem
usar habilidades para conhecer mais que aquilo que o
superior entenda Poder e dever dizer. Por isso não fiz
perguntas, limitei-me a ouvir e apenas pretendi deduzir,
mas não encontrava fácil explicação para esta visita nem
resposta para as perguntas que a mim próprio punha. A
dúvida mantinha-se no meu espírito.
Também os
meus subordinados estranhavam o modo como tudo decorreu,
tão fora do que era hábito em visitas do Comando-Chefe
às unidades operacionais.
Mas eis
que no dia seguinte, 30 de Junho de 1973, domingo, cerca
do meio-dia, me procura um indivíduo fula, não guinéu,
que eu conhecia desde que assumira o comando do sector
por contactos estabelecidos em Farim. Era um agente de
informações com o nome de código Padre, ao que se sabia
pertencente ao Front da Guiné-Conakri e com especial
aceitação no Comando-Chefe.
Nunca lhe
perguntei o que fazia, mas facilmente se deduzia pelos
apoios que lhe eram concedidos: era obsequiado em Farim
pelo agente da DGS, vinha de Bissau, em regra, em avião
militar e no sector havia instruções para lhe ser
facultado transporte sempre que o pedisse. Dirigia-se a
Cuntima e, dali, em regra ao Senegal.
Havíamos
passado alguns serões em Farim falando em generalidades
e, quando ele entendia, em problemas da guerra. Tinha
formação de curso superior e falava apenas em francês e
fula. Era bastante culto e muito correcto no trato.
Talvez por nunca o ter importunado com perguntas
incómodas, em obediência ao meu principio de respeito
pelo serviço de informações, fui, a pouco e pouco,
ganhando a sua confiança e até a sua amizade.
Foi por
força desta mútua confiança que ele agora me procurou e
pediu que fizesse uma mensagem relâmpago para Bissau
solicitando a presença do General Spínola nesse dia, ali
em Cuntima, para um contacto com alguns dirigentes do
PAIGC (5).
Pareceu-me, agora, perceber o que se passara na véspera.
Acedi ao
pedido, redigi a mensagem, retroverti-lha para francês
para verificação e fi-la seguir. Por volta das 14.00
horas é recebida a resposta de Bissau. Pretendia o
Comandante-Chefe explicações de pormenor. O agente
estranhou tal pedido uma vez
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que o General sabia do que se
estava a passar e o seu retardamento podia prejudicar o
resultado de todo um trabalho de meses.
Fez-se, no
entanto, rapidamente novo texto, um pouco mais
explicito. Cerca das 16.00 horas vem a resposta à
segunda mensagem: àquela hora já não se podia fazer a
deslocação porque o regresso não era possível antes da
noite e os helicópteros não estavam preparados para
isso.
Foi um
balde de água fria para o agente que, mal tomou
conhecimento da mensagem saiu, desesperado; era, segundo
dizia, todo o esforço perdido, o seu crédito junto do
PAIGC abalado e, provavelmente, a impossibilidade de
preparar outro encontro.
Não
escondia a sua angústia.
Passado
algum tempo regressa e procura-me. Fazia agora uma
conversa com pouco nexo contrariamente ao seu habitual,
e exteriorizava nervosismo. Pedia-me que o ajudasse, na
circunstância, mas não concretizava a ajuda que queria.
Em dada
altura, e perante o seu embaraço, pretendi acalmá-lo e
fazer com que reflectisse friamente a situação: a
reunião não podia fazer-se sem o General e ele não
vinha, ou acha que eu posso substituir o General -
perguntei em tom jocoso por supor que não tinha sentido
resposta afirmativa. Mas eis que os olhos do meu
interlocutor adquirem um brilho especial e ele me
retorquiu:
- Mas o
Coronel vai? É que eu não me atrevia a pedir, mas é
mesmo essa a única hipótese de salvar a situação criada
pela recusa ao General Spínola.
Depois de
argumentar que não estava credenciado para tal missão e
de uma troca de impressões sobre o que ele pretendia,
acabei por dizer-lhe:
- Nós
estamos proibidos de contactos deste género mas porque
confio em si aceito ir.
Eram cerca
das 18.00 horas. O pessoal presente no aquartelamento
preparava-se já para a 3ª refeição servida em quatro
refeitórios separados, por razões de segurança. Chamei o
Capitão Vale e expus-lhe resumidamente o que se passava.
Precisava que ele, com toda a discrição, no final do
jantar enviasse dois grupos de combate para os lados da
fronteira na missão habitual de segurança afastada, que
todos os dias era montada ao anoitecer em direcções
diferentes; recomendei-lhe que desse a tudo o ar mais
natural, mas esta missão tinha por finalidade actuar
contra qualquer emboscada de que eu viesse a ser vitima
e, se necessário, desenvolver uma acção de retaliação.
O Capitão
Vale, homem já experiente da vida e com sentido prático
muito refinado, bom caçador, entendeu rapidamente,
perguntou-me apenas se o autorizava a acompanhar-me
(disse-lhe que sim) e saiu de imediato a tomar as
disposições requeridas.
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4)
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Simulámos ir á caça, montámos
muna viatura e seguimos pela estrada cerca de 800
metros. Depois apeámos e dirigimo-nos ao marco nº 104 da
fronteira. Ali chegados o agente estranhou que ainda não
estivessem os interlocutores e não escondeu uma certa
apreensão. No entanto aguardamos Passados uns minutos
vem alguém do outro lado, de bicicleta. Vem informar que
o interlocutor está dentro do Senegal, receia vir até
nós (terá dado conta do movimento das nossas tropas?) e
solicita que nos desloquemos nós.
Recusei.
O agente
insiste, pretende que eu me disfarce com um albornoz,
mas não aceitei porque o disfarce não atenuava aquilo
que eu considerava indisciplina: entrar em território
estrangeiro. Ele porém pedia-me agora com todo o empenho
que não desistisse de prosseguir na decisão tomada de
não deixar gorar esta oportunidade única.
A
argumentação convenceu-me e fui.
A noite
estava cerrada. Na nossa frente viam-se as luzes de uma
povoação senegalesa, já próxima. Caminhávamos em
silêncio. Chegávamos ao local indicado pelo mensageiro
da bicicleta, cerca de um quilómetro dentro do Senegal,
quando se notou a aproximação de um automóvel que parou
a duas centenas de metros, do qual saíram dois
indivíduos que se dirigiram a pé para nós.
Era o
interlocutor.
O agente
fez as apresentações e eu estendi-lhe a mão - o que,
segundo soube mais tarde, o sensibilizou muito.
Tratava-se do representante pessoal do Comandante Geral
das forças do PAIGC.
Não
podíamos demorar-nos porque era imperioso evitar
qualquer detecção quer por parte de elementos das forças
de segurança senegalesas quer por parte de elementos do
PAIGC não envolvidos nesta diligência, e por isso o
interlocutor foi directo:
- Não
venho tratar de assunto pessoal nem de grupo restrito.
Trata-se sim de problema que diz respeito a todos os
combatentes do PAIGC. Andamos há já dez anos nesta luta.
Somos agora menos do que quando começámos. Actualmente
não nos entendemos com o escalão político: eles são
caboverdeanos e comunistas; e nós somos guinéus,
combatentes e não comunistas. Desejamos apenas uma Guiné
melhor. Já chegámos à conclusão de que, sozinhos, não
somos capazes de a fazer, mas sê-lo-emos convosco. A
nossa proposta é muito simples: em dia e hora que se
combine acaba a guerra, nós seremos integrados nas
forças da Guiné, sem recriminação nem vingança; e
depois, juntos, faremos a Guiné melhor. Tudo isto tem
que ser combinado em curto espaço de tempo e com o maior
segredo, porque se fôr descoberto antes do tal dia e
hora terei a mesma sorte que outros companheiros meus já
tiveram.
Isto dito
assim de chofre deixou-me um pouco perplexo e retorqui
apenas:
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5)
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- Do que propõe, eu, que não
sou Comandante-Chefe mas apenas um comandante de sector,
somente posso dar como aceite com toda a certeza, já,
que recriminações ou vinganças da nossa parte nunca
haverá: temos todos instruções severas nesse sentido.
Quanto a rapidez, amanhã mesmo vou pessoalmente dar
conhecimento da sua proposta. No que se refere à
segurança dos elementos que eventualmente venham a
participar em conversações futuras, no caso do
Genera1~on:audante concordar com a continuação dos
contactos também posso garantir que os podemos recolher
em qualquer ponto à vossa escolha e voltar a colocar
onde desejarem.
- Eu
compreendo que não pode adiantar mais do que isso, e eu
próprio também apenas posso transmitir o que já disse.
Não tenho poder de decisão. Mas agradeço-lhe ter vindo a
este encontro e peço apenas um sinal para autenticar ou
selar esta conversa.
- O sinal
de autenticação que nós usamos, em conversa, é a palavra
de honra. E eu dou a minha palavra de honra de que vou
transmitir o que ouvi e que são verdadeiras as
afirmações que fiz.
- Nós não
usamos a palavra de honra, costumamos jurar perante
Deus.
- Pois
estamos aí à vontade: não teremos a mesma religião, mas
certamente acreditamos no mesmo Deus Único, e Criador.
Por mim, quando dou a palavra de honra faço-o sempre em
termos de juramento perante Deus.
- Certo,
mas se pudéssemos ter um sinal deste compromisso era
bom.
- Pois eu
julgo que já dei sinal de boa vontade: vim até aqui
confiado apenas na honestidade do nosso intermediário.
Nisto o
homem parece ter-se sentido atingido e interrompeu-me
dando-me como que um abraço.
-
Desculpe, desculpe. O senhor fez mais do que eu pois
veio aqui enquanto que eu tive medo de ir ao lugar
combinado.
Impunha-se
que não demorássemos mais o diálogo. Fazem-se as
despedidas rapidamente. Quando me apertava a mão (era o
dobro da minha) dizia-me:
- Estou
muito feliz. Desde há dez anos é a primeira vez que
estou em conversa agradável e a primeira vez que estou
desarmado.
De novo
repetiu o seu agradecimento.
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6)
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Regressamos alvoroçados.
Teríamos nós o privilégio de ser os intermediários e os
primeiros Intervenientes num processo que levaria a um
próximo fim da guerra com honra para ambas as partes?
Mal dormi,
ansioso pela madrugada, pelo regresso a Farim, pelo
avião dessa 2ª feira que me levaria a Bissau, pelo
encontro com o General Spínola.
Eram 18.50
horas do dia 1 de Julho de 1973 quando cheguei ao
Palácio do Governo em
Bissau. O Capitão Ayala, ajudante do
Governador e Comandante-Chefe atendeu-me.
Disse-lhe que tinha urgência
em falar com o General Spínola.
- Não me
diga que é por causa do contacto de Cuntima.
-
Precisamente.
- O nosso
general não o poderá receber agora porque tem o briefing
às 19.00 horas no Ouartel-General e vai já para lá.
- Diga-lhe
que estou aqui, que não o demoro com o que tenho a
dizer-lhe e que é do maior interesse não atrasar; os
minutos contam.
O General
recebeu-me de imediato.
- Então
hoje já aqui?
- É
verdade meu general. No sábado estivemos em Cuntima, não
contava nada com esta
vinda, para a qual nem pedi autorização,
mas como fui ao contacto que estava preparado para
V.Excª. ...
- Então o
senhor não sabe que proibi todos os contactos; não sabe
o que aconteceu aos três majores? Atalhou o general,
irritado, levantando-se e crescendo para mim.
Mantive-me
sentado, cruzei as pernas e retorqui:
- Sei e
até era muito amigo de dois deles, mas entendi que era
meu dever ir, e fui.
- Espere
lá, mas afinal você está aqui; conte lá.
E
sentou-se de novo para ouvir o resumo que lhe fiz da
conversa e das propostas do interlocutor do PAIGC.
O General
voltou a levantar-se, agora com entusiasmo, abraça-me ao
mesmo tempo que diz:
- Mal sabe
o alto serviço que acaba de prestar à Nação!
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7)
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- Ainda bem Estou feliz por
isso.
Dirige-se
ao telefone liga para Lisboa e ouvi-lhe o seguinte:
- Alas?
(era o chefe da DGS em Bissau) Está bem? Tome o avião
amanhã e venha aqui.
- Pois,
sei bem que foi ontem de licença... É pena não poder vir
ainda hoje, pois temos aqui coisa importante que requer
já a sua presença.
- Está
bem, mas tenha paciência. Espero-o amanhã. Um abraço!
O General
agradeceu-me de novo. Vai a sair para a reunião mas faz
questão que o acompanhe a jantar no Palácio.
Era a
terceira vez que me convidava para jantar na sua
residência.
Não
falámos mais sobre este caso Ficou acordado que se
manteria total segredo e que seria pessoalmente
contactado para qualquer interferência futura se fosse
necessário.
Os
curiosos de Bissau bem tentaram saber da razão da minha
presença ali tão imprevista. Fui escapando como pude do
cerco de perguntas.
Na 3ª
feira regressei a Farim onde poucos dias depois pude
observar, por duas vezes, a passagem dos helicópteros
que transportavam interlocutores que deviam dar
continuação aos contactos de Cuntima.
O sector
passou a conhecer uma tranquilidade esperançosa.
Em Agosto
entrei de licença. Na metrópole soube da substituição do
General Spínola pelo General Bettencourt Rodrigues. Fui
à tomada de posse deste último. Ouvi os discursos e
pareceu-me que estavam em dissintonia com tudo o
relatado, o que muito me surpreendeu. Preso como estava
à promessa de segredo não perguntei nada. Já em Bissau
pedi audiência ao novo Comandante-Chefe. Abordei o caso
e tive a resposta que me surpreendeu: não sabia de nada.
O agente
que tinha preparado o encontro em Cuntima,
manifestou-me, em Farim, o seu desgosto por se aperceber
de que tudo voltara ao princípio. Não entendíamos o
porquê da viragem, que era notória.
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8)
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Um dia, no bar do Estado
Maior do Exército, já em 1976, contava o caso a uns
camaradas, dado que a manutenção do segredo já não tinha
razão de ser.
O então Major Monge estava ao
lado e certamente ouvindo o meu relato, porque a dada
altura interrompe-me e diz:
- Afinal
foi o meu coronel quem provocou o 25 de Abril.
Fiquei
atónito. Mas imediatamente me veio à memória que tinha
lido dias antes uma informação do Chefe do Estado Maior
General da Forças Armadas (o então General Costa Gonees)
para o Governo (do Dr. Marcelo Caetano) segundo a qual
para Portugal era preferível na Guiné um desastre
militar a uma solução negociada...
PORQUÊ?
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9)
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(1)
Capitão Beato
(2) Alferes Miliciano Costa
(3)
O comandante da companhia em operações era o Cabo Sitafá
(4)
Já uns dias antes tentada mas sem concretização por
causa de forte trovoada
(5)
Contacto que, segundo me disse, vinha preparando
havia alguns meses»