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TRABALHOS, TEXTOS
SOBRE OPERAÇÕES MILITARES ou LIVROS
"Tínhamos
poucas escolhas: fugir, matar ou morrer"


Carlos Luís Martins
Rios
ex - Furriel
Mil.º de Infantaria
Companhia de Caçadores 1420
Batalhão de Caçadores 1857
Guiné
1965/1967
Cruz de Guerra, 1.ª Classe
OE. 12/IIIª/67, tomo IV, pág. 260
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"Porto
de Abrigo"
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Guiné: Memórias de um veterano
de guerra

[...]
Num ambiente de
profunda resignação, apenas se ouvia como ruído de fundo os ruídos de
angustia e as lágrimas dos nossos familiares e amigos, juntamente com
algumas imprecações que se ouviam também não se sabe de onde, em largo
número por todas as zonas com acesso visual ao cais da rocha do Conde de
Óbidos - Alcântara onde se encontrava atracado o navio Niassa,
transformado em transportador de tropas, onde iríamos embarcar após
terminarmos a formatura frente ao cais onde um alto graduado veio
debitar várias e inócuas frases feitas a um conjunto de desesperados e
descontentes jovens, salvo raras excepções. Nesta formatura, apareceu
pouco depois um grupo de senhoras, todas com a farda de uma instituição
a distribuir a cada militar um isqueiro e um maço de tabaco. Quando
recusei a oferta, objectando que não fumava, a senhora que me pretendia
entregá-la, disse entre dentes qualquer imprecação, que não entendi e
fez-me um olhar, para mim incompreensível, desaparecendo de imediato que
ainda hoje me lembro. Foi a bordo motivo para enorme chacota. Quanto me
lembra o momento do embarque e do dramático Adeus; viam-se lágrimas e
emoção nos jovens que partiam e nos entes queridos que
ficavam despedindo-se quiçá pela ultima vez. Quão é ainda hoje, tão
chocante e amargamente emotivo, recordar esses momentos.
[...]
[...]
Durante
o tempo, de permanência na colónia tivemos contacto com a tremenda
realidade de uma guerra no que do pior pode acontecer.
Enterrámo-nos nas
bolanhas, dormimos em buracos escavados à pressa, abrigámo-nos à
sombra das árvores esguias e altas, bebemos a
chuva escorrida
entre as folhas ou chupámos as gotas de um punhado de lama amassada
bem como em muitas operações ao romper da madrugada lambíamos a humidade
acumulada nas folhas do capim, tal era a sede fome e cansaço acumuladas
por longas e tremendas caminhadas feitas sob o efeito da ansiedade e do
medo, porque não dizê-lo; chegamos a caminhar por 36 horas consecutivas
alimentados a ração de combate e sendo diversas vezes flagelados por
emboscadas do IN ; o nosso sangue para além de ser derramado em
profusão por alguns queridos camaradas, foi ainda sugado pelos
mosquitos; o paludismo foi contraído por alguns de nós; o nosso suor e
algumas vezes, as nossas lágrimas ajudaram a molhar a terra ressequida…
Andámos dezenas e dezenas de quilómetros em picadas ou abrindo clareiras
na mata espessa com o nosso próprio corpo; conhecemos as
tabancas; falámos com as pessoas e entendemo-las num português
incipiente, com ajuda de meia dúzia de expressões na língua local e até
através da linguagem universal do gesto; pegámos ao colo tantas
crianças, ajudámos a matar a fome de tantos homens e mulheres… Mas
também matámos… Mas também morremos…e principalmente sofremos com a
omnipresença da nossa vida dos nossos entes queridos; quanta
nostalgia!!! [...]
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