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NOTÍCIA - "GUERRA
COLONIAL: RELATOS NA 1ª PESSOA - “A da Mandioca”"
Colaboração do
veterano LC123278
A notícia:
Guerra Colonial: Relatos na 1.ª pessoa
"A
da Mandioca"
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Colaboração do veterano LC123278
A notícia:
"Guerra Colonial: Relatos na 1.ª
pessoa "A da Mandioca"
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Colaboração do veterano LC123278
Congratulo Diana Pimentel e Carla Flores, pelo seu
trabalho de reportagem, disponível online no endereço
http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/index.php?action=getDetalhe&id=5219
Manuel Cardona, ex-alferes miliciano, fez
parte dos dois primeiros batalhões de caçadores
especiais [BCE261 e BCE262] a intervir na Guerra
Colonial de Angola. O companheirismo e espírito de
aventura vividos durante 28 meses em África...
... fazem-no recordar, de uma forma
saudosa, os momentos inesquecíveis que lá viveu. Após a
conclusão do curso de Direito, o advogado vila-realense
ingressou, em Setembro de 1960, no Curso de Oficiais
Milicianos, em Mafra [EPI], que concluiu em Janeiro de
1961. Posteriormente passou pelo Regimento de Infantaria
13, em Vila Real, seguindo-se a cidade de Lamego, onde
frequentou o primeiro Curso do Centro de Instrução de
Operações Especiais [CIOE]. Já em Chaves [BC10], deu
instrução militar aos soldados que o iriam acompanhar na
Guerra em Angola, que se iniciara em Fevereiro [isto é,
em Março] de 1961. "Os meus pais e a criada ficaram
receosos por eu ir para a guerra", recordou,
nostalgicamente, o ex-combatente.
Fazendo parte da Companhia de Caçadores
Especiais nº 272 (CCE 272), embarcou em Lisboa, a 12 de
Agosto de 1961, no navio Vera Cruz, rumo a Luanda. Aí
chegou nove dias depois, e encontrou "uma capital
desorganizada, onde se acumulavam pessoas de raça branca
e negra". Contudo, acrescentou que "foi inesquecível e
emocionante o desfile na avenida Marginal, onde fomos
aclamados por muitos milhares de portugueses, de todas
as raças e cores". O seu batalhão [BCE262], a 30 de
Agosto, foi destacado para [o Negaje, com a missão de]
fazer vigilância na Zona de Intervenção Norte (ZIN) de
Angola, uma região de extrema perigosidade.
"Fomos rumo ao desconhecido e enfrentámos
muitas adversidades", acentuou. "Desde o início
apercebemo-nos da desorganização que se vivia, da falta
de aviação, que por sua vez, fazia com que não fossemos
abastecidos correctamente", lamentou. Porém admitiu que
tinham algum apoio logístico, a nível alimentar, mas
apenas quando se encontravam junto das viaturas. Quando
tal não acontecia, a sua alimentação era baseada em
ração de combate, que consistia em duas latas, de atum e
de sardinha, e num pacote de bolachas de água e sal, "já
com bolor".
Houve alturas que era tal a escassez de
mantimentos, que a CCE 272 passou a alimentar-se,
exclusivamente, de mandioca crua, o que os apelidou de
"A da MANDIOCA". "Mandioca" passou a ser o grito de
guerra desta companhia, aquando de posteriores operações
e entradas em combate. Destacou que "naquela altura
vivíamos o dia-a-dia sem pensar no perigo, mas também
estávamos convencidos da nossa auto-suficiência, porque
íamos bem treinados e com a sensação de que estávamos a
cumprir um dever".
A "defesa dos portugueses e a protecção
das ex-colónias", que tanto o motivava, valeu-lhe noites
ao relento em que dormiu no chão ou no jipe, obstáculos
que enfrentou nos "caminhos horríveis" por que passou,
entre outras contrariedades. O ex-alferes miliciano
confessou que em muitos momentos a sorte foi sua aliada.
"O jipe onde eu seguia foi atingido por vários
projécteis, ficando um deles cravado a escassos dois
centímetros na dura protecção em madeira que os soldados
colocaram por justificada cautela". Recordou, com
entusiasmo, o seu primeiro ataque.
Manuel Cardona garantiu que trouxe o
pedaço de madeira onde se encontra alojado o projéctil
que, por pouco, não o atingiu, e ainda hoje o guarda
consigo. Frisou também outro golpe de sorte, ficando,
desta feita, a dever a vida a um isqueiro Zippo. Durante
uma operação nos arredores de Vale do Loge, no domingo
de Páscoa de 1962 [22Abr62], uma bala ficou cravada no
isqueiro que levava sempre consigo no bolso superior
esquerdo do camuflado. Em tom de brincadeira, gracejou
que "as pessoas costumam dizer que fumar mata, mas, no
meu caso, fumar cachimbo salvou-me a vida".
Outra das dificuldades destacadas pelo
ex-militar prende-se com o facto de ter estado 75 dias
seguidos isolado, com o seu pelotão, em operações na
mata. Admitiu que "Luanda sabia disto e estava garantido
que nos iam pôr em zona de descanso". "Mas isso nunca
aconteceu, porque não havia tropas suficientes para nos
substituir", desabafou ainda. Manuel Cardona admitiu que
nem tudo foi negativo nesta missão de 28 meses na ZIN..
Salientou uma "acção que teve tanto de emocionante como
de perigoso".
Tratou-se de uma intervenção em Negage
[Mar-Mai62], em que a "Mandioca", juntamente com o líder
local, Angelino Alberto [bacongo ex-líder do N'Tobako],
estabeleceu contactos de paz com os refugiados nas
matas. "Foi comovedor ver milhares de homens, mulheres e
crianças saírem, esfarrapados, esfomeados e estropiados
das matas onde estavam há longos meses, aplaudindo-nos
calorosamente", recordou com um sorriso no rosto. O
ex-militar aludiu para os efeitos positivos desta acção,
afirmando que "a calma e segurança reinou naquela zona
após o sucedido, e aquele povo conseguiu dissuadir os
outros, para que não nos fizessem mal".
Outro momento marcante que o jurista
transmontano faz questão de recordar é a descoberta que
fez de um marco geodésico em Maquela do Zombo
[Mai-Jul62]. Enquanto fazia patrulha com os seus
soldados na fronteira com a República do Congo,
descobriu essa raridade datada de 1891, lá colocada por
Gago Coutinho. "Tinha de um lado as armas da monarquia
portuguesa e o escudo, do outro lado tinha as armas da
monarquia belga", descreveu deste modo a sua descoberta.
Depois de isolados nas matas do norte de
Angola durante 28 meses sem interrupções, a CCE 272
viveu muitas adversidades, lidando diariamente com o
perigo de ciladas e emboscadas. O ex-alferes recorda de
forma penosa a perda de muitos camaradas e amigos.
"Tinha sempre pena e receio, mas tinha de continuar para
a frente. Para trás é que não podíamos voltar", recordou
saudosamente. Aquando da notícia de que "A da Mandioca"
iria regressar à terra natal houve um sentimento de
incredibilidade, "por acabar a peluda, ou seja, a
passagem à disponibilidade", afirmou Manuel Cardona. A
partida do continente africano deu-se (...)
[coteje-se o depoimento prestado pelo
veterano Manuel Cardona, ex-alferes miliciano da CCE272,
para o trabalho jornalístico supra reproduzido, com "A
Minha Guerra" de Norberto Melo - ex-furriel miliciano do
ECav108, contemporâneo do precedente (tanto em local
[sector do Negaje] como em preciso período
[30Ago61-Mai62] -, publicada no magazine dominical do CM
em 29Mar2009].
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A notícia:
"Guerra Colonial: Relatos na
1.ª pessoa "A da Mandioca"
in:
http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/index.php?action=getDetalhe&id=5219
de Diana Pimentel
e Carla Flores
Manuel Cardona,
ex-alferes miliciano, fez parte dos dois primeiros
batalhões de caçadores especiais a intervir na Guerra
Colonial de Angola. O companheirismo e espírito de
aventura vividos durante 28 meses em África...
... fazem-no
recordar, de uma forma saudosa, os momentos
inesquecíveis que lá viveu. Após a conclusão do curso de
Direito, o advogado vila-realense ingressou, em Setembro
de 1960, no Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, que
concluiu em Janeiro de 1961. Posteriormente passou pelo
Regimento de Infantaria 13, em Vila Real, seguindo-se a
cidade de Lamego, onde frequentou o primeiro Curso do
Centro de Instrução de Operações Especiais. Já em
Chaves, deu instrução militar aos soldados que o iriam
acompanhar na Guerra em Angola, que se iniciara em
Fevereiro de 1961. “Os meus pais e a criada ficaram
receosos por eu ir para a guerra”, recordou,
nostalgicamente, o ex-combatente.
Fazendo parte da Companhia de Caçadores Especiais nº 272
(CCE 272), embarcou em Lisboa, a 12 de Agosto de 1961,
no navio Vera Cruz, rumo a Luanda. Aí chegou nove dias
depois, e encontrou “uma capital desorganizada, onde se
acumulavam pessoas de raça branca e negra”. Contudo,
acrescentou que “foi inesquecível e emocionante o
desfile na avenida Marginal, onde fomos aclamados por
muitos milhares de portugueses, de todas as raças e
cores”. O seu batalhão, a 30 de Agosto, foi destacado
para fazer vigilância na Zona de Intervenção Norte (ZIN)
de Angola, uma região de extrema perigosidade.
“Fomos rumo ao desconhecido e enfrentámos muitas
adversidades”, acentuou. “Desde o início apercebemo-nos
da desorganização que se vivia, da falta de aviação, que
por sua vez, fazia com que não fossemos abastecidos
correctamente”, lamentou. Porém admitiu que tinham algum
apoio logístico, a nível alimentar, mas apenas quando se
encontravam junto das viaturas. Quando tal não
acontecia, a sua alimentação era baseada em ração de
combate, que consistia em duas latas, de atum e de
sardinha, e num pacote de bolachas de água e sal, “já
com bolor”.
Houve alturas que era tal a escassez de mantimentos, que
a CCE 272 passou a alimentar-se, exclusivamente, de
mandioca crua, o que os apelidou de “A da MANDIOCA”.
“Mandioca” passou a ser o grito de guerra desta
companhia, aquando de posteriores operações e entradas
em combate. Destacou que “naquela altura vivíamos o
dia-a-dia sem pensar no perigo, mas também estávamos
convencidos da nossa auto-suficiência, porque íamos bem
treinados e com a sensação de que estávamos a cumprir um
dever”.
A “defesa dos portugueses e a protecção das
ex-colónias”, que tanto o motivava, valeu-lhe noites ao
relento em que dormiu no chão ou no jipe, obstáculos que
enfrentou nos “caminhos horríveis” por que passou, entre
outras contrariedades. O ex-alferes miliciano confessou
que em muitos momentos a sorte foi sua aliada. “O jipe
onde eu seguia foi atingido por vários projécteis,
ficando um deles cravado a escassos dois centímetros na
dura protecção em madeira que os soldados colocaram por
justificada cautela”. Recordou, com entusiasmo, o seu
primeiro ataque.
Manuel Cardona garantiu que trouxe o pedaço de madeira
onde se encontra alojado o projéctil que, por pouco, não
o atingiu, e ainda hoje o guarda consigo. Frisou também
outro golpe de sorte, ficando, desta feita, a dever a
vida a um isqueiro Zippo. Durante uma operação nos
arredores de Vale do Loge, no domingo de Páscoa de 1962,
uma bala ficou cravada no isqueiro que levava sempre
consigo no bolso superior esquerdo do camuflado. Em tom
de brincadeira, gracejou que “as pessoas costumam dizer
que fumar mata, mas, no meu caso, fumar cachimbo
salvou-me a vida”.
Outra das dificuldades destacadas pelo ex-militar
prende-se com o facto de ter estado 75 dias seguidos
isolado, com o seu pelotão, em operações na mata.
Admitiu que “Luanda sabia disto e estava garantido que
nos iam pôr em zona de descanso”. “Mas isso nunca
aconteceu, porque não havia tropas suficientes para nos
substituir”, desabafou ainda. Manuel Cardona admitiu que
nem tudo foi negativo nesta missão de 28 meses na ZIN.
Salientou uma “acção que teve tanto de emocionante como
de perigoso”.
Tratou-se de uma intervenção em Negage, em que a
“Mandioca”, juntamente com o líder local, Angelino
Alberto, estabeleceu contactos de paz com os refugiados
nas matas. “Foi comovedor ver milhares de homens,
mulheres e crianças saírem, esfarrapados, esfomeados e
estropiados das matas onde estavam há longos meses,
aplaudindo-nos calorosamente”, recordou com um sorriso
no rosto. O ex-militar aludiu para os efeitos positivos
desta acção, afirmando que “a calma e segurança reinou
naquela zona após o sucedido, e aquele povo conseguiu
dissuadir os outros, para que não nos fizessem mal”.
Outro momento marcante que o jurista transmontano faz
questão de recordar é a descoberta que fez de um marco
geodésico em Maquela do Zombo. Enquanto fazia patrulha
com os seus soldados na fronteira com a República do
Congo, descobriu essa raridade datada de 1891, lá
colocada por Gago Coutinho. “Tinha de um lado as armas
da monarquia portuguesa e o escudo, do outro lado tinha
as armas da monarquia belga”, descreveu deste modo a sua
descoberta.
Depois de isolados nas matas do norte de Angola durante
28 meses sem interrupções, a CCE 272 viveu muitas
adversidades, lidando diariamente com o perigo de
ciladas e emboscadas. O ex-alferes recorda de forma
penosa a perda de muitos camaradas e amigos. “Tinha
sempre pena e receio, mas tinha de continuar para a
frente. Para trás é que não podíamos voltar”, recordou
saudosamente. Aquando da notícia de que “A da Mandioca”
iria regressar à terra natal houve um sentimento de
incredibilidade, “por acabar a peluda, ou seja, a
passagem à disponibilidade”, afirmou Manuel Cardona. A
partida do continente africano deu-se (...)
Diana Pimentel e Carla Flores
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