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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

Elementos cedidos por um Veterano, e pelo

ex- Alferes Mil.º de Cavalaria (AML - Panhard) Marques Pinto

 

Custódio Pouseiro

 

Companhia de Caçadores 2356

 

Batalhão de Caçadores 2841

 

Angola 1968/1970

Diálogo de Surdos

 “UM DEPOIMENTO NA PRIMEIRA PESSOA, QUE POUCOS LÊEM E QUE MESMO LENDO, SÃO POUCOS OS QUE NELE ACREDITAM…”

O meu depoimento é uma narrativa de um dia como tantos outros, vividos pelo escriba para dar a conhecer um pouco da guerra de África vivida na primeira pessoa e ao mesmo tempo, fazer jus de uma justa homenagem ao meu amigo Herói de guerra, que trava neste momento uma dura batalha com o seu inimigo Cancro no HUC de Coimbra.

Que Deus lhe dê a recompensa que os homens sempre lhe negaram, tal como a muitos milhares de outros.

Estava-mos em Dezembro de 1968, eram pouco mais das 10 horas da manhã, um dia de sol radioso como tantos, vivia-se uma calmaria sufocante, a humidade de Cabinda só por si, criava em nós, continentais, um estado de espírito doentio.

De um momento para o outro, tudo se alterou; da densa e quase intransponível floresta do Maiombe, soavam sons de rajadas de metralhadoras, tiros, muitos tiros, rebentavam granadas e bazucadas, que nos provocavam suores. Em breves instantes os nossos lábios ficaram secos e frios, trocávamos olhares de espanto de entre os camaradas, de incerteza pelo que se estaria a passar e de imediato assalta-nos o medo. Seguiram-se momentos gélidos pela incerteza do que se estaria a passar na mata. Em poucos segundos, talvez minutos, o rádio telegrafista, dava-nos conta de um ataque a caminho do SANGAMONGO, (destacamento que se situa a poucos Kms., do local onde a Selecção de Futebol do TOGO, caiu numa emboscada, quando no ano de 2009, se deslocava para o Campeonato das Nações Africanas que se realizou em Luanda).

Quase desordenadamente corremos em busca das espingardas, subimos para as viaturas e aí fomos nós o 3º. e 4º. Pelotão em ajuda dos nossos camaradas. Estaríamos a cerca de 12 Kms., e à chegada assistimos a um cenário de guerra arrepiante. Rebentamentos, gritos de dor dos que não morreram, viaturas em chamas e desfeitas…, cada um de nós, como pôde, procurava dar conforto aos feridos, como se de familiares se tratasse.

Veio a ordem para abrirmos fogo de defesa, e após segundos de puro silêncio, os mortos em número de 5 e os muitos feridos, foram encaminhados para as viaturas e conduzidos ao nosso aquartelamento no Chimbete. “Desta emboscada resultou da parte deles, um morto confirmado, que supomos, seria um comando “mercenário” de nome Margot Cruz, que sepultamos no nosso aquartelamento com uma lápide, onde se podia ler: Que a terra lhe seja leve e o cimento também. “Tchimbete 22.12.1968”.

(sublinhado nosso)

A imagem que se segue foi cedida por um Veterano à equipa do UTW

Organizada a retirada daquele inferno, iniciamos o regresso ao quartel em coluna que se estendia ao longo da picada. Sem darmos por isso, eu, o soldado que carregava a bazuca e o meu amigo Furriel que luta hoje contra o inimigo Cancro, vimo-nos na frente da coluna e porque entretanto as viaturas que nos protegiam seguiram com outra velocidade em socorro dos feridos, eu implorava a todos os Santos e a Nossa Senhora de Fátima e o meu Amigo à Rainha Santa, (por ser de Coimbra) e lá nos amparamos um ao outro.

Já no aquartelamento, foi o transporte dos feridos para o helicóptero enquanto foi dia, rumo à cidade.

Restavam os mortos!

Chega-nos entretanto a ordem de que os mortos deverão seguir naquela noite de 22 de Dezembro para Cabinda cidade. “Aceitamos voluntários para os acompanhar”, disseram. Entre ficar no aquartelamento, onde reinava o terror e uma tristeza profunda, onde o murmúrio e choro pelos mortos nos invadia a todos, ou acompanhar os mortos, aceitei ser voluntário. Partimos ao cair da noite, foram 230 Kms de picada até Cabinda em Berlliet improvisada de Carro Funerário em que de tudo nos aconteceu…

Chegamos pelas 5 horas da manhã à morgue de Cabinda, descansamos cerca de 2 horas sem apoio de quem quer que fosse e quando a morgue abriu, entregamos os corpos…, ou parte deles.

Dia e meio depois, foi o regresso ao Inferno do Chimbete, onde estava o nosso aquartelamento. Pelas 22 horas da véspera de Natal de 1968, fomos recebidos com uma anormalidade, que ainda hoje, passados 41 anos me causa arrepios. Não é que de Luanda, nos tinham enviado o “Conjunto João Paulo” para nos confortar?

Como é possível sermos tão frios e insensíveis à morte dos outros!

Aos seus familiares, deixo uma certeza de que nunca os esquecerei, tal como o meu Herói Pêra nunca os esquecerá, como me confidenciou ao longo dos anos e ainda há poucos dias no leito de uma cama de uma enfermaria do Hospital da Universidade de Coimbra “HUC”. Claro que faleceu nos primeiros dias de Fevereiro de 2011.

De um ex-militar da Companhia de Caçadores 2356, que se assina por CP.

 

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