"Madina
do Boé, 'o Algarve na Guiné'"
Guiné: Madina do Boé - o alvo para a
estreia dos cubanos em combate
Excertos:
[…]

A ideia de que a zona era difícil de proteger, levou
mesmo a URSS a prometer ao PAIGC construir uma pista
para aviões de transporte Antonov para apoio logístico
directo, assim que conseguissem desalojar os portugueses
daquela posição…
[…]
«A primeira operação militar de envergadura que se
realiza com a participação dos assessores cubanos é a
efectuada contra o quartel português de Madina de Boé,
em 10 de Novembro de 1966…»
[…]
A resposta dos Portugueses não se faz esperar; têm
coberta a pequena elevação de onde ataca a guerrilha e
as suas granadas de morteiro começam a produzir impactos
certeiros sobre o comando guerrilheiro, provocando a
confusão e a desorganização…
[…]
…atira-se para cima do corpo de Ulisses com a clara
intenção de o proteger, quando é atingido por um
estilhaço de morteiro, que lhe provoca uma ferida que
sangra copiosamente. Ulisses, ajudado por outro cubano,
transporta-o para o posto médico, situado a uns 100
metros na retaguarda, mas o seu corpo chega a este já
sem vida…
[…]

O ex-comandante da CCaç1790 descreveu-me assim a posição
que foi ocupar:
- «Madina do Boé é uma pequena povoação com
características físicas específicas. É rodeada por
pequenas elevações (com cerca de 300 m de cota média),
que são a continuação na Guiné da cordilheira do Futa
Djalon da Guiné-Conacri. Madina fica num vale fértil com
muita água, tem um clima agradável, a ponto de em
brincadeira os militares que ocuparam anteriormente a
posição terem ali colocado uma tabuleta com a expressão
“Madina do Boé, o Algarve na Guiné”,e que ali permaneceu
até ao fim da presença portuguesa.
[…]
Está hoje completamente comprovado que o PAIGC teve
sempre nos arredores de Madina oficiais e sargentos
cubanos, que regulavam o tiro das suas armas pesadas com
muita eficácia; como nos montes em redor tinham
excelentes postos de observação de tiro e meios
adequados para o efeito, escolhiam facilmente as zonas a
bater, e faziam correr as salvas por todo o
aquartelamento.
[…]
O segundo factor era uma vulnerabilidade dos cubanos,
que utilizavam emissores-receptores nas frequências da
banda FM dos 80 Mhz que podiam ser escutadas nos rádios
(transistores) do pessoal. Por essa razão, era
normalmente possível ouvir-se em Madina as comunicações
do inimigo, em castelhano,…
[…]
…10 de Abril de 1968, fui escalado para uma missão com o
Cap Vasquez, que era na altura o comandante da Esquadra
121. A caminho da linha da frente, disse-me que íamos
ver se Madina do Boé precisava de apoio e que os aviões
iam armados com bombas incendiárias e foguetes, para
além das metralhadoras, é claro….
[…]
Ainda estava a subir voltando apertado pela direita,
todo torcido e comprimido na cadeira de ejecção, a
tentar localizar visualmente o avião do Cap Vasquez,
quando a voz do Cap Aparício me encheu o capacete:
- «Em cheio Tigres, em cheio. Era mesmo aí!»
[…]
As comunicações rádio dos cubanos escutadas em Madina,
na sequência deste ataque, prolongaram-se por várias
horas. No essencial pediam apoio para a evacuação da
enorme quantidade de feridos que tinham sofrido e
referiam também a existência de cerca de 30 mortos. O
tom de aflição e a insistência nos pedidos de socorro,
reflectiam claramente uma situação de extrema gravidade.
[…]
O comandante do batalhão de pára-quedistas nº 12, na
altura o TCor Pára Fausto Marques, deslocou-se a Madina
do Boé para perceber melhor a natureza do problema e
engendrar um plano de acção. Com base nos elementos
colhidos, concluiu
que só a surpresa poderia garantir resultados,…
[…]
Por essa razão foi iniciado o transporte diário em
DO-27, directamente de Bissalanca para Madina, de
equipas de quatro pára-quedistas, simulando vôos de
rotina. Para encobrir a chegada deste pessoal, o avião
aterrava de Este para Oeste e, quando dava a volta no
fim da pista para se dirigir à entrada do aquartelamento
(a meio da pista), parava por momentos para deixar sair
os quatro homens que se embrenhavam na mata próxima.
Estes vôos começaram no dia 11 de Julho e terminaram no
dia 15 de Julho de 1968.
[…]
Logo no segundo dia foi efectuado um reconhecimento ao
alvorecer, em que foram empenhados os primeiros quatro
pára-quedistas que haviam chegado no dia anterior,
apoiados por um grupo de combate da CCaç1790.
[…]
Ao chegar ao trilho, a meia encosta, procuraram
rapidamente uma zona que proporcionasse um campo de tiro
e montaram um dispositivo em L invertido em que a perna
maior, com dez páraquedistas, se estendia a subir ao
longo do trilho e a menor 90º à direita, de frente a uma
pequena clareira. Numa posição recuada em relação à
perna maior, ficaram o 1º Cabo enfermeiro Giroto e o
homem do rádio.
[…]
Coube-me a mim efectuar a evacuação dos dois feridos.
Comigo viajou o TCor Fausto Marques e por um feliz acaso
alguém fez uma foto do DO-27 3460 aterrado na pista de
Madina onde eu, o Tem Gomes e um soldado da CCaç1790
aparecem. É a única prova que ainda tenho de que alguma
vez estive “no Algarve na Guiné”...
[…]
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Autor do
Livro:
«A
BATALHA DO QUITAFINE»
A contraguerrilha antiaérea na Guiné e
a fantasia das áreas libertadas
Texto:
"Um
ataque com «olhos azuis»"
Guiné: «Um ataque atípico no dia 6 de
Janeiro de 1969»

