«Um
lutador pela causa dos antigos combatentes, em que se
inseria, e que defendia acerrimamente.»
Faleceu em 19Ago2012 o nosso estimado Amigo, António
Pedro Montez Coelho, veterano da guerra do Ultramar,
Português e Patriota.
António
Pedro Montez Coelho
25Set1936 > 19Ago2012
Que a sua Alma descanse em Paz
– nasceu
em 25Set1936, na Azambujeira (freguesia do concelho de
Rio Maior).

– em Abr1961 foi mobilizado como alferes miliciano para
servir em Goa e ficou colocado como observador na Btr2,
aquartelada no Alto Mangor (integrada no Agrupamento
Vasco da Gama).
– em 19Dez1961, na sequência da invasão do Estado da
Índia Portuguesa por tropas da União Indiana, foi feito
prisioneiro com os demais camaradas-d'armas que naquele
território cumpriam o seu dever militar, permanecendo
cativo no campo de concentração de Alparqueiros.
– e em 29Mai1962 regressou à Metrópole.
O seu testemunho, está publicado aqui... (clique no
sublinado que se segue)
http://ultramar.terraweb.biz/EstadoIndiaPortuguesa/Reflectir-ou-Revisitar_Goa_.pdf
Tendo desempenhado, em sucessivos mandatos (até 2009),
exemplares funções públicas na presidência da Junta de
Freguesia da Azambujeira, o executivo municipal de Rio
Maior, na sua reunião do dia 24, exarou em acta um voto
de pesar, do qual se extrai a seguinte nota:
- «Um lutador
pela causa dos antigos combatentes, em que se inseria, e
que defendia acerrimamente.»
Reproduzo, com a devida vénia e na parte que interessa,
um s/email:
--«quote»--
de: montezcoelho.goa@hotmail.com
para: ...
data: 16 de Março de 2011 12:27
assunto: RE: FBS, 15Mar2011 - Cerimonial de Estado
Meu caro, mais uma vez obrigado.
[...]
À noite, é que fiquei irritado. Não sei se às 21h30,
estava sintonizado na TVI24. Sobre isso, estava para
colocar directamente no facebook, mas agora prefiro ter
calma e enviar a si; até porque, além do português,
domino muito mal ainda estas técnicas. Depois de
corrigida a nota, estava a pensar colocar no UTW; e
também no tvi24.iol.pt
para o sr. Garcia, seu locutor.
Mensagem (que naturalmente não chegará ao destinatário):
Meu caro
Professor Adriano Moreira,
Sabendo que na Sociedade de Geografia tinha sido um dos
oradores sobre o tema dos Combatentes, imagino o esforço
que teve de fazer para aceitar o convite da TVI24 e
estar no estúdio às 21h30.
Iniciou dizendo que tinha tido um dia pleno, acompanhado
dos Combatentes. Que assistira à missa nos Jerónimos e
que depois estivera junto ao Monumento dos Combatentes,
onde está espelhado o sofrimento de uma Geração. Que
infelizmente quando há guerra, há sofrimento e morte. Ia
falar de Alcácer Quibir e das Invasões Francesas. E
seguidamente, iria falar da guerra de África.
Mas, espanto! Não o deixaram falar, do que aí o levou.
Segundo o sr. Garcia, teria de interromper para outra
ocasião, porque o sr. PM acabara de ser entrevistado; e
tinham de passar a um debate, com dois convidados sobre
tal assunto...
Aí, Senhor Professor, só a sua categoria, de Homem
educado e de homem de Estado, é que lhe permitiu
aguentar; eu, não; eu, faria como o dr. Santana Lopes.
Pois que, além de ofender o Professor, o sr. Garcia
ofendeu os Combatentes.
Um abraço deste seu amigo, Montez Coelho, como um pedido
de desagravo.
Para si, Abreu dos Santos, outro.
MC
Aos
Familiares do António Pedro, e também aos seus Amigos e
Camaradas-d'Armas, especialmente a todos quantos
integram a Associação Nacional dos Prisioneiros de
Guerra,
Sentidas condolências,do
João Carlos Abreu dos Santos
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Alocuções do Presidente da
Associação Nacional dos Prisioneiros de Guerra, António
Pedro Montez Coelho:
No dia 18Dez2011:
Exmos Senhores,
- Chefe da Casa Militar da Presidência da República –
Tenente-General Carvalho dos Reis
- Representante do Chefe do Estado Maior das Forças
Armadas – Major-General António Faria de Meneses
- Representante do Sr. Ministro da Defesa Nacional – Dr.
Alberto Coelho
- Representante da Câmara Municipal de Lisboa – Drª
Elisabete Brito
- Representante da Liga dos Combatentes – Major-General
Fernando Aguda
- Presidente da Casa de Goa – Professor Doutor Narana
Coissoró
- Representante da família do Sr. General Vassalo e
Silva – Doutor Nuno Vassalo e Silva
- Presidentes ou Representantes de Associações de
Combatentes
Minhas Senhoras e Meus senhores,
Em nome da Associação Nacional de Prisioneiros de
Guerra, agradeço a presença de V. Exas.
Cabe-me dizer algumas palavras.
São malhas que o destino tece.
Há 51 anos, de montes e vales, de aldeias e cidades,
muitos de nós fomos reunidos em Évora.
Daí partimos com outros no Niassa, no Índia
ou de avião, para irmos até Goa.
Passado um ano a nossa vida, todo o nosso futuro, todo o
nosso destino estava concentrado na decisão do Sr.
General Vassalo e Silva, naquela manhã terrível.
Só estive um ano em Goa. Seis meses livre e seis meses
preso.
Assim, serei daqueles que menos poderá falar.
No entanto, logo que cheguei percebi que Goa estava
viva.
A construção civil avançava, mais estradas eram
construídas, assim como bairros e escolas. Muitas
escolas!
Também percebi que todos os dias o Sr. Governador ia
visitar todas as obras, resolvendo problemas e dando
opiniões. Todos os goeses o respeitavam, não precisando
por isso de guarda pessoal.
A burocracia com ele não existia. Se precisava de alguém
com conhecimentos específicos, sem qualquer problema ia
contratá-lo. Eu pessoalmente conheço casos desses.
Da sua personalidade irradiava além do humanismo, a sua
bondade e também a sua firmeza quando era necessário.
Admirado e estimado por todos.
No campo de prisioneiros de Alparqueiros, as reuniões
com o comando indiano eram efectuadas debaixo da velha
mangueira, o Major Boleo Tomé como intérprete ia
chamá-lo. Minutos depois, surgia o Sr. Governador
vestido impecavelmente.
O que acontecia era simples. O meu amigo Gilberto, de
Vila Pouca de Aguiar, alfaiate, decidiu que, para que o
Sr. Governador tivesse sempre uma camisa pronta e
passada a ferro, andava ele de tronco nu. Quando o Sr.
Governador era chamado, era só vesti-la.
No campo de prisioneiros, este Soldado fez isto porque o
estimava, muita consideração e um altíssimo respeito por
ele. Eu apenas falo do pouco que sei.
Mas, antes de terminar, quero aqui deixar mais um
testemunho, que tem a ver connosco, com a nossa maneira
de ser, que em Goa já vinha do tempo de Albuquerque.
Há 4 anos voltei a Goa.
Ficámos instalados perto da Praia do Colvá. Na última
noite decidi ir pela estrada de terra batida,
despedir-me da praia. Estava tudo escuro com excepção de
um candeeiro.
Vários motards aceleravam as motos rodando à
volta desse candeeiro. Preocupei-me um bocadinho.
Eles pararam. Um vira-se para mim e perguntou-me: Tu
és Portugal?
Respondi, que sim, que era de Portugal. Então todos
saíram das motos para me abraçar, gritando:
- “Viva Portugal! Tu és Pai!”
Foi emocionante.
Referi isto no facebook, e o comentário que
recebi de um sr. Goês foi:
- “Senhor, não se preocupe! Tanto o Sr. Governador como
os Portugueses são aqui bem lembrados.”
Penso que ao fim de uma vida sermos confortados com uma
frase como esta, é tudo o que poderíamos desejar.
Sr. General Vassalo e Silva, 50 anos depois o Senhor é
bem estimado e bem recordado. Obrigado por estarmos aqui
vivos. Obrigado pela sua preocupação na edificação de
Goa e pela espiritualidade no que se refere a São
Francisco de Xavier.
Muito obrigado e terminei.
Cemitério do Lumiar, 18 de Dezembro de 2011
António Pedro Montez Coelho
No
dia 19Dez2009:
Exmº. Senhor Dr.
Alberto Coelho, Digníssimo Director Geral do Pessoal e
Recrutamento Militar
Exmº. Senhor
General Chito Rodrigues, Presidente da Liga dos
Combatentes
Exmº. Senhor Dr.
Horácio Rodrigues Presidente da Assembleia-Geral da
nossa Associação
Amigos
19 de Dezembro de
1961 --- 19 de Dezembro de 2009
48 anos nos separam
dos acontecimentos, que nos trazem aqui.
Depois de
bombardeados pela Aviação e pela Marinha e metralhados
pelas forças terrestres, foi a marcha humilhante pelas
forças Indianas, a caminho dos campos de concentração
foi o dia da contagem dos Mortos.
Foram 25 mais aqueles
da Policia, que não foi possível contabilizar nós somos
os sobreviventes.
Sobreviventes de
cabeça levantada, mas esta situação não foi fácil.
Se antes do 25 de
Abril fomos ofendidos, maltratados, alguns até com
carreiras destruídas, depois, não foi mais fácil
chegando ao cumulo de sermos ofendidos publicamente pelo
Senhor Ministro Castro Caldas.
Mas por isso, por nos
fustigarem por nos agredirem, é que nós estamos aqui.
Obrigaram a
unirmo-nos e a lutar.
A nossa Associação é
o espelho da nossa união, cabe aqui uma palavra de
agradecimento e de memória ao Senhor Coronel Pais, que
descanse em paz, com a sua perseverança, apesar dos
obstáculos, nunca baixou os braços, quando viu que a sua
presença estava a prejudicar. Em vez de beneficiar a
nossa Associação, foi ele que me convidou para presidir
a Lista que vocês votaram e apoiaram.
E chegamos ao dia 10
de Maio de 2002?.
Portugal assistiu à
cerimónia mais bonita que jamais se viu, pelo menos na
época contemporânea.
O Governo,
representado pelo Ministro Paulo Portas e pelo
Secretario de Estado Henrique de Freitas, com a
condecoração na pala das Nações, veio-nos retirar o
opróbrio de cobardes que pesava sobre nós.
Foi a cerimónia do
reconhecimento.
Terminava aí um
esforço de todos nós, que durante três anos lutamos em
todos os Gabinetes chegando até ao mais alto nível.
Esta Semana falei ao
Telefone com o Manuel Fontes de Vinhais.
Dizia-me ele que,
quanto mais passa o tempo, mais se recorda de tudo
aquilo por que lá passou e também dos amigos que
arranjou.
Éramos autênticos
cachopos, repara agora, como gostava de juntar de novo
toda a rapaziada! No principio, não passávamos de 20 ou
30 companheiros.
Apesar de irmos
morrendo, somos cada vez mais.
Somos a única
Associação de Combatentes que se reúne anualmente para
Homenagear os Mortos, os nossos Mortos, foram eles, como
podíamos ser nós.
Quando uma bomba cai,
quem sabe quem vai morrer?.
Mas se pensarmos bem,
se esse é o motivo principal, não é o único.
Estamos aqui, porque
juntando-nos aqui, revendo-nos uns aos outros, voltamos
atrás no tempo em que éramos jovens, cachopos, como
dizia o Manel.
Queríamos reerguer os
nossos amigos Mortos, antes de metralha cair.
Tudo podia ser
diferente, tudo devia ser diferente, mas a verdade é que
aqueles heróis foram a nossa defesa, a nossa mais valia,
na luta com os Políticos, que não sabem o que é a
guerra, e o nosso trunfo muitas vezes foram os Mortos,
obrigado mais uma vez a vocês, os que caíram.
Aqui estamos junto
aos seus nomes em sua Homenagem.
O Senhor
Vice-Presidente irá de seguida chamá-los um a um e como
estão presentes na nossa memória, responderemos “
PRESENTE”
OBRIGADO
António Pedro Montez
Coelho
Tenente Mil.º
(aposentado)
in
Portal UTW

